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Vai vendo, vai vendo

Não foi à toa que o grande Paulo Leminski escreveu: “Não discuto/Com o destino/ O que pintar/ Eu assino”. Sempre valeu a pena estar atento ao que propõem os versos daquele nobre e saudoso samurai curitibano e… E você pode escolher também não tretar com o Doutor Destino se ele providenciar um clássico para ser revisitado. Só mesmo Doc Dest para numa festa junina inventar uma barraquinha em que se oferece por dez pratas o assustadoramente maravilhoso “1984”, de George Orwell. Aproveitando todo esse clima de distopia que atualmente nos embala, mais a apresentação do professor Clóvis de Barros Filho, anunciada na capa do livro, não poderia haver investimento melhor para aquele dinheirinho.

Merece ser relida, uma obra que impressiona um então-jovem da Geração X e contribui com as desconfianças que ele tem da sociedade. Todo mundo sonha com algum alívio, hoje, e, vai que a maturidade ajuda, numa releitura, a enxergar as coisas de um jeito diferente. O noticiário está aí, com todo esse papo sobre a-História-que-se-repete, impérios que caem, e, portanto, tudo bem tentar (re)elaborar as coisas. Nos poucos minutos do dia em que às vezes conseguimos fugir da tela do celular, o Big Brotherzinho safado que na atualidade nos consome, um livro assim se apresenta como ótimo recheio para o pouco tempo que sobra…

Fala-se muito de memória, na obra de Orwell. E, sim, mesmo nesta piscina de insensibilidade e embrutecimento em que a gente flutua, ainda é possível se agoniar com a história de Winston Smith. Winston? Smith? Winston Smith? Já que estamos flertando com a tentativa de reelaboração e, em consequência disso, religando pontos, vem à tona o nome do artista que fazia muitas das colagens das capas e encartes dos Dead Kennedys. É muita big-brodagem perguntar sobre isso ao Google, para saber se aquilo era um nome ou um pseudônimo. Faça você o trabalho sujo, se quiser. Os Kennedys citam “1984”, num dos clássicos da banda, “California über alles”. Aproveite para procurar também e ler alguma coisa sobre outro personagem, o Ranxerox, aquele mesmo, o dos quadrinhos criados por Tamburini e Liberatore e que os X-revoltados conheceram-consumiram aqui graças à revista “Animal”. Numa crônica, violência pouca é bobagem. Entre outros bons motivos para reler um troço importante como “1984”, décadas depois da primeira incursão, estão as novas referências que surgem, se acumulam e parecem contribuir muito com a liquidificação do cérebro do leitor.

Falar em massa encefálica triturada parece bem Gen-X para você? E máquinas de tortura com ponteirinhos que vão de zero a cento e poucos, também entram nesta categoria? “1984” não é sobre suspense ou terror freddy-kruegeriano-barato. Se pá, sobre verdades. Ou ainda sobre fantasmas. História, quem sabe… Pode servir para o leitor de umbigo angustiado com os rumos do planeta. Nos dias de hoje, precisa ser lido e relido e a Psicanálise — tão em alta no YouTube e entre classe-medianos que querem se cuidar e lidar melhor com a Dona Culpa — devia recomendar isso. Não que o queridinho deles, o também maravilhoso “O Lobo da Estepe”, de Hermann Hesse, não valha o hype. Mas variar não custa nada. Ou pode às vezes custar só dez pratas…

Entrar numa de marcar trechos em clássicos pode dar muito trabalho para o leitor mais apegado. “1984” oferece muitas máximas para artistas registrarem em muros e — melhor, hein!? — viadutos de qualquer grande cidade.Tipo “Ninguém jamais toma o poder com a intenção de abdicar dele”. Ou “O objetivo da tortura é a tortura, o objetivo do poder é o poder”. E aquela que já vimos em muitos zines punks dos Anos 90: “Se você quer uma foto do futuro, imagine uma bota pisando em um rosto humano… para sempre.” Para quem acha pessimismo demais, bem na época em que Saturno-ou-sei-lá-quem entra em Áries, olha, a saída pode ser reclamar com o pessoal da barraca da festa junina. Mas não adianta ir agora. Só em junho, se até lá ainda houver clima — ou mesmo mundo — para celebrações deste tipo.

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Impermanência

O presidente estadunidense e sua fama, quer dizer, fome por novos territórios reacendeu uma espécie de discussão-conscientização-pregação em bolhas que flertam com o budismo e com o estilo, digamos, mais zen de viver e eventualmente protestar. O pessoal começou a falar muito da “impermanência das coisas”. É inconstância aqui, transformação ali… Vazou. Viralizou. Houve claro quem digitasse esbravejando contra esse vento de fragilidade que parece embalar o mundo de hoje. Nas prateleiras, há impermanência em todas as cores e tamanhos. A de marca, a marba e marva. Pra quem não dá rolé entre ambulantes, vale a explicação: Marba é a marbarata. Marva, a marvagabunda.

A bolha pode ter estourado, ou a culpa é da água distribuída pela cidade, porque em dois dias foi possível ouvir referências vindas das mais diversas vizinhanças e situações. O fantasma da impermanência está solto. Até há pouco, ela até podia ser comparada às marés, ao vai e volta. A solução poderia estar em conseguir alcançar o próprio rabo, mordendo-o e recomeçando a brincadeira. Mas após a invasão de um país, ferrou, parece não haver mais retorno. Isso é como soltar todos os cachorros. Com a massa deprimida, assustada e refém de boatos-verdades sobre a impermanência, está bem parecido: depois que espalhou, ferrou; virou hype. Aí, é consumir e ser feliz. Tinha a Inteligência Artificial. Agora, de tão forte que está, parece ter nascido a Impermanência Artificial. Ou Impermanência Apressada. Será doideira da cidade maravilhosamente impermanente do Rio de Janeiro? Depois dos inesquecíveis Da-Lata e Do-Apito, pode ter chegado o Verão-da-Impermanência.

O que vai sobrar de mundo para a gente continuar fazendo besteira? Abra os olhos. O troço ainda não acabou. O sol está aí, oferecendo esse calor do inferno que não vai desaparecer com três dias de chuva. Sacanas que somos, pegamos a sombra, cerveja fresca, Impermanência e a transformamos em propaganda de pré-carnaval; quando a proximidade da folia faz ficarem ainda mais entusiasmados, os discursos: “Mais uma vez, mais uma chance de a gente experimentar ser outra coisa”, disseram, em praça pública, para logo depois empurrarem a confirmação mais convidativa do que realmente questionadora: “Ué, essa temporada é pra isso, né? E se puder não repetir a fantasia, melhor ainda”, ensinou a moça que garante ter um modelo novo para cada dia.

Está fácil ficar permanentemente perdido, diante das impermanências. A gente sempre soube que o mesmo folião nunca vai duas vezes ao mesmo bloco, porque ambos se transformam, sempre. E aí nem é a cada ano, mas a cada esquina. Para renovar o cabide de acessórios, a pochete, às vezes tão condenada, ganha uma nova chance entre os homens, num formato retangularzinho que surge muito ligado à etiqueta Every Day Care, reunindo itens “indispensáveis” para quem quer/precisa estar preparado para tudo. Tudo o quê? Não adianta responder, porque muda em segundos.

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Beber Comportamento Crônica Literatice

Boteco Connection #15 — Mister Silver

Perdeu, quem apostou que é só para se esconder da esposa que o Seu Antônio corre para trás da geladeira. Quer dizer, para a lateral, ali no meio do caminho para o balcão, que por sua vez está no meio do caminho para o banheiro. O velha-guarda parece calcular os movimentos, nos detalhes. Atrapalha a passagem de todos, quando escolhe ficar ali. Nosso amigo desenvolveu a técnica de esconder-se bem no… meio do caminho. Nunca vai ao banheiro e vive de obstruir a passagem de todos que desejam fazê-lo. Suas investidas diárias — duas garrafas de cerveja de 600ml mais duas cachacinhas — nunca foram suficientes para levá-lo ao segundo andar, o que talvez trouxesse um novo tempero para o esconde-esconde com Dona Nelma. No banheiro, que fica no longínquo segundo andar, ele não correria nenhum risco de ser visto. Mas é bem verdade que seria uma proteção de validade curta e existe, no fim das contas, o perigo, ele deve saber, de ao descer as escadas dar de cara com alguém que não estava por ali na hora da subida. Risco altíssimo para quem não quer ser visto. Parece excesso de frio na barriga para um discreto mestre na sutil arte de desaparecer na hora do almoço. Ainda não pintou uma alma com coragem para questionar um sujeito com o cabelo prateado daquele jeito.

Sabe-se que já se vão umas três décadas nessa brincadeira do casal. É cascudo, o Seu Antônio, e portanto apenas perde tempo quem julga poder ensinar a ele algo novo em termos de camuflagem botequeira. É boa, a sensação de encontrá-lo, agora no ainda-início do ano, porque vem junto uma promessa de riso/entrenimento por toda a temporada. Duas cervejas e duas cachacinhas, quando saboreadas pelo Seu Antônio, provocam, no entorno, a sensação de que o tempo corre mais lentamente. No esconde-esconde de Seu Antônio e Dona Nelma parece haver uma “terapia” da qual todos participamos. Calados, claro.

Nos instantes em que pisca/relaxa, Seu Antônio revela-se bom também na criação de histórias e personagens. É o tipo de cara que, enquanto se esconde, fala de conhecidos que se empenham exatamente na mesma prática. Nestes tempos em que todo mundo é roteirista, Silver Tony é Doutor. Neste último domingo, compartilhou com a plateia sua experiência como “parte” de uma perseguição policial. “Quase levei um tiro. Desde esse dia, nunca mais fico na calçada”, comentou, sério, esclarecendo que não, não gosta muito de caçar bares novos, prefere repetir os já manjados — onde às vezes por exemplo ganha um tasco de batata doce. Essa história envolvendo mocinhos e bandidos, onde não ficava claro quem tinha feito os disparos, ele revelou só recentemente. Como se estivesse testando a gente, ali, em volta, para saber se poderia falar coisas mais sérias. Quase morrer porque ficou na calçada bebendo uma cerveja é uma coisa muito séria. Quase morrer de vergonha ao chegar em casa e ser confrontado com alguma verdade, tipo a esposa dizendo que tinha visto o que ele anda fazendo naquela meia hora a mais de almoço, também pode ser considerada coisa séria.

Dono de olhos muito azuis e uma vasta cabeleira branquinha/prateada, Seu Antônio é um velha-guarda clássico. É bom em dois tipos de rasantes: a chegada-saída-passagem pelo bar, quando se mostra às vezes escabreado, e as passagens pela praça, que fica ali perto, quando está com três sacolas de mercado, nenhuma delas muito cheia. Sempre sorrindo. Dando a entender que cada coisa tem sua hora.

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Comportamento Crônica Freudcast Literatice Umbigada

Três, dois, um…

Ainda dá pra chamar de Ano Novo. Mas, não, não é pra contar com um tratado ajustadinho para esta época, papinho de recomeço; por mais que também possa ser visto/lido assim. Afinal, tem tanto tempo que… é melhor não ignorar três sinais-cutucadas-insPIRAÇÕES num mesmo dia de um novo ciclo de 365 dias. Talvez esta frescura, quer dizer, frescor de início de jornada sirva mesmo pra isso, pra sacar tolices. Primeiro, foi o ciclista falando de Charles Bukowski, juntando bike e álcool, coisas que nunca combinaram bem. Depois, uma quase-roda de Capoeira, em que dois malandros pressionavam um terceiro. Na roda-roda mesmo, isso até poderia ser considerado uma “chamada”. O que queriam arrancar com aquele jogo? E pra terminar, tem a Lua Cheia deixando claro — iluminando mesmo — que, se é pra vagabundear num almoço de quarta-feira, que isso depois renda umas linhas. Sem estresse, pelo amor da Matrix.

Um ano recém-inaugurado, convidando escribas enferrujados a desengavetarem o WD-40 e o óleo de máquina, porque para lubrificar fantasmas mandinga pouca é bobagem. Já se sabia que assombrações não morrem. E comecinho de janeiro pode ser bom para desistir, mais uma vez, de seguir nessa tentativa de vidinha inoxidável. Pressão na roda tem seu lado positivo, quando o jogador consegue lembrar dos velhos ensinamentos e mantém o sorriso. A zoação pode ser eterna, mas de todos os lados deve haver sempre um largo revelar de dentes acompanhando tudo.

A Inteligência Artificial entrou na conversa e não demorou muito para reclamarem dela. A condenação por unanimidade abriu espaço para piadas com (a) linguagem neutra. Uma piada puxa outra. Novos caminhos se abrindo, essa é a batida. Estava tudo indo quase muito bem. Até pintar a proposta de criar um novo grupo de WhatsApp. De repente, no ano que vem; mas alguém precisa estudar essa necessidade de plateia, de palco, de querer falar para minúsculas multidões, de descompromisso com as individualidades. Não é estranho pensar que não há nada que alguém queira falar só pra você, que tudo precisa ser dito em “grupo”? Isso é era-de-aquário demais pro zodíaco de qualquer um. E no zodíaco dos outros é sempre refresco.

Ozempic? A invasão do país vizinho, para libertar uma nação dos quilos extras personificados na presidência, ganhou algum destaque e… Bom, isso está ou estava nas manchetes do mundo inteiro. “Manchete” é o jeito de dizer. Primeira página de jornal hoje em dia serve para quê? Uma chance, uma palavra. Publicidade! Mais fácil e mais impactante é a coisa, a (des)informação, no caso, estar em todos os grupos de Zap. Maldito Zap. Está assim tão ruim olhar na cara de alguém e puxar assunto, com calma, e sem repetir “rsrsrsr” ou “kkkkk”? Como se fazia meses atrás, sabe? Ou serão anos? Para responder, por favor: nada de mensagem via smartphone. Menos ainda se a mensagem for um arquivo de áudio. Pelo amor da Matrix!

Imagina um grupo de troca de cartas. À moda antiga. Não dá. Imaginação tem limite. Por exemplo: limite de transferência de dados, por mais “generosos” que sejam os pacotes oferecidos pelas operadoras. Daqui a pouco, um defensor do anarco-capitalismo dirá que grupo de Zap pelo menos não tem anúncio. Do jeito que as coisas vão, não será assim por muito tempo. Imagina a monetização das conversas, o aparecimento de anúncios antes de o sujeito ver o “texto” do amigo de colégio que queria só confirmar o horário do churrasco no próximo sábado.

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Saúde! 2!

Refúgio ou fuga? Poderia ser um danado de um deixa-a-vida-me-levar. Samba é que fala muito disso, né? Pode falar de samba sem provocar reações furiosas dos entendedores do assunto? Não há ainda nada no caderninho sobre isso. Assim, sem muito esforço e sem Google, dava para arriscar dizendo que há muito samba que fala de mar, de deixar-se ser levado pela(s ondas da) vida.  Mas, voltando à Lois Lane, sem querer parecer super-homem (o que um homem de aço estaria fazendo numa casa de saúde da Tijuca, né?)… Deixar a vida levar a gente, se tiver essa moça na história, é deixar as coisas muito mais por conta dela do que da vida.

Eis que surge a ultra-sonografia mais rápida de todos os tempos, para reorientar os pensamentos e criar novos parâmetros para todas as coisas. Deve ter medalha pra isso, naquele lugar, e o playboy-doutor com camisa Ralph Lauren e luvas azuis deve ser um dos campeões. Prometeram resultado para dali a 15 minutos. O pessoal do sangue e da urina deve ter outra liga e o próprio troféu, porque não é uma disputa justa. Quer dizer, o playboy pode ser muito bom naquilo ali, né? De que time deve fazer parte a médica da calça cor-de-rosa?

Madonna. Madonna? O que ela fazia, ali, na Tijuca? Era hora das bobagens mais sérias. “Everybody, c’mon, dance and sing… Everybody, get up and do your thing…” É isso. Hospital é um lugar em que fica mais fácil a gente pensar na vida, em como pode estar tudo por um segundo. Mas aí já vira Gilberto Gil, vamos manter o foco. Foco. Como o cara da Ralph Lauren. “Everybody” teve sua função nos anos 80, deixou a material girl mais rica e, agora, num prédio com corredores bem brancos, na ZN do RJ, faz alguém pensar na vida e em fazer o que realmente curte. Isso só deve durar até o fim da tarde, volta na próxima cólica renal e, aí, segue se repetindo até que um dia não vai dar tempo de se perguntar nada ou lembrar de música nenhuma.

Parece que já não há médica com calça cor-de-rosa nesse mundo de meu Deus então vamos agradecer ao Todo Poderoso pelo surgimento de uma outra personagem interessante, desta vez com moletom cinza e crachá azul. Pode trocar de personagem, nos finalmentes duma crônica? Pro garoto que estava com a mãe, bem ali do lado, esta troca não faz sentido. Nenhuma troca deve fazer sentido para ele, na real. Para aquela criança, tudo que importa é o tubo de batatas fritas com o qual ele foi presenteado. Ficou uma piscina de farelos, em volta do lugar em que ele estava sentado. Um verdadeiro rastro de felicidade, sem que aparentemente nenhum resultado satisfatório de exame tivesse sido necessário.

Já tinha ouvido falar em “rastro de felicidade”? Provavelmente, não, né? O noticiário, quando fala em “rastro” geralmente emenda com “destruição” ou “violência”. Pergunte ao pessoal de Bonsucesso. O jovem do tubo de batatas deixou pra trás um rastro de prazer e felicidade. Precisou vir alguém da limpeza para consertar aquilo. 13h45m. O sinal de fome sentido pelo escriba explica um pouco a voracidade do garoto diante das fritas. Fome. O menino estava acompanhado, provavelmente, pela mãe.

E eis que, na pulseira de identificação do maníaco do caderninho,  o nome de uma outra mãe salta. Fazem isso em hospitais para que, por exemplo,

xarás não corram o risco de receberem medicamentos trocados. O filho de Fulana recebe o comprimidinho X. O de Beltrana, Y. Mas o nome e a lembrança de uma genitora pode trazer de volta um outro rastro de felicidade: como o que fica quando uma criança, depois da consulta, ganha sempre uma fatia de pizza. Dessas maravilhosas pizzas de padaria. Ainda existe isso? Um rastro de felicidade que faxina nenhuma tira da memória.

A felicidade pode abrir as portas das descobertas transformadoras. Lá pelas tantas, fica claro que a médica de calça cor-de-rosa trabalha no consultório 5. O pessoal da limpeza parece não ligar muito se a gente levanta ou não os pés para facilitar o acesso deles , com vassouras ou esfregões, para limpar embaixo das cadeiras. Se você não quer que lhe injetem “contraste” nas veias, para certo tipo de exame, isso deve ser marcado num formulário que te dão, antes do procedimento. Frio e fome não são coisas boas de se sentir, ainda mais ao mesmo tempo.

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@monteiro4852 #175

“Você não sabe do que eles estão falando”, disse ela.

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Saúde!

Não é sempre que hospitais grandes dão grandes sustos. Quer dizer, os sustos que você pode experimentar num lugar cheio de gente com roupa branca não depende do tamanho do lugar. Depende mais das pessoas. E hoje elas nem sempre estão todas vestidas com roupas da mesma cor. Casas de saúde podem parecer supermercados. Passe cinco horas numa e entenda. Você se pega sorrindo e se pergunta na sequência se pega bem ficar fazendo isso num lugar como aquele, ainda mais numa área de atendimento de emergência. Primeira pergunta: em mercados, é mesmo mais fácil manter a cara fechada? Talvez, depois do resultado de algum exame, também seja mais tranquilo/possível fazer isso. Notícias boas nos arrancam risos. Gargalhadas, às vezes. Mas, pô, mostrar os dentes num lugar daqueles, antes até de passar pela triagem em que verificam a pressão, pode parecer exagero. Ou loucura mesmo.  Dependendo do filme, podem apontar na sua direção, no corredor, dizendo que você está no hospital errado.

Ok. Vieram tirar sangue, pediram que enchessem o potinho de urina. Diante da informação de que os resultados viriam em uma hora e meia, restava esperar chamarem para a ultra-sonografia abdominal. Musiquinhas/alarmes de celular ficam muito piores, em salas de espera onde há gente com dor. Bem piores do que sorrisos. Se bem que, sabe, parece haver uma mobilização auditiva em torno de alguém que atende a uma ligação. Gente curiosa… não seria ali que encontrariam a cura para isso. Falavam em uma hora e meia, aí, em cima? Tempo mais do que suficiente para muitos alarmes de celular e, claro, para pensar em muita, muita bobagem.

Na era do ódio (à qual salas de espera de hospitais não estão imunes), sorrisos podem ser mais arriscados se há um tiozinho gigante e careca com cara de hooligan, ali, encostado na parede. Sorrisos vão, sorrisos vêm, desconversas vão, desconversas vêm, ouvidos espichados vão, ouvidos espichados vêm e você pode ficar aliviado e quem sabe sorrir mais à vontade ao descobrir que o gladiador trabalha na recepção do hospital. Ah, claro, tinha sido possível vê-lo, antes, mais cedo, testemunhando que a comida naquele dia estava boa. Mora em Bonsucesso, ele diz, interagindo com a moça que cuida de aplicar analgésicos em quem chega com etiqueta amarela. Ela também tira sangue para exames, mas, aí, parece que não precisa de etiqueta nenhuma, só mesmo três formulários preenchidos corretamente e carimbados. Neste mundo de celulares, ainda há carimbos, vejam só. Às vezes, nos vemos diante de um tiozinho. Outras, de um gladiador. Um tiozinho-gladiador, por tanto, ou TG. O TG dá detalhes sobre a rua em que fica sua casa, diz que lá não tem muito assalto. A última frase antes de ele desaparecer faz a gente entender a expressão que não dava trégua: dor nas coluna.

Mas vamos às bobagens: não é uma disputa, mas… só há uma pessoa, na sala, com caderninho e caneta. Todas as outras estão com celular. Deve ser uma médica, a mulher que passou com calça cor-de-rosa. Apareceu, primeiro, com uma blusinha branca. Depois, de jaleco, o que lhe emprestava um ar mais sério. E de poder. Tinha uma postura diferente daquela da moça que obtivera a informação do hooligan sobre a segurança pública no bairro de Bonsucesso. A mulher de calça cor-de-rosa não sossega na sala. Às vezes, passa de máscara. Outras, sem; como quando andou de blusinha branca. Corredores, mesmo os de enfermarias, podem ser verdadeiras “passarelas”. Num dos desfiles, ela falava no celular e demonstrava preocupação: “Isso não é possível!” Nos olhos de quem estava em volta, via-se a mesma expressão de espanto e curiosidade que já havia aparecido, antes, nas pessoas que mergulhavam no aparelhinho mágico.

Hm. Uma paciente nova, ali, noutro corredor. Ruiva. Vermelho. Sangue! Teria sido prudente — ou chato? — ligar o cronômetro, quando a moça do sangue falou sobre o prazo para entrega do resultado do exame? A moça do sangue. É uma maneira estranha de fazer referência a alguém. Claro que depende do lugar de fala. O bom e velho lugar de fala, né? Na fila de atendimento da emergência, o senhor Lugar de Fala parecia ter ficado para trás em relação à dona Linguagem Neutra (era dela a etiqueta amarela). Esse papo de lugar de fala cabe aqui? Hospital é mais lugar de sangue mesmo. Deve ter gente incomodada com a classificação doutora-de-calça-cor-de-rosa. E não há tratamento para isso. Aliás, ela estava demorando a aparecer de novo. Será que todos os dias circula por ali?

Bobagens mais sérias pediram passagem. O que uma personagem como Lois Lane tem para aparecer nas fantasiosas elaborações de um paciente que aguarda notícias numa emergência de hospital? Lois Lane parecia o jeito de falar, dá licença? Difícil decidir o que fazer com ela, porque ninguém quer arrumar confusão com um homem de aço. Se a gente pipoca diante de um hooligan, imagina frente a um sujeito que veio de Krypton… A iminência de um julgamento final pode fazer a gente abandonar qualquer caderninho e correr para o smart phone. Cada um foge como pode. Numa tarde hospitalar, pra certos sujeitos, um esconderijo pode ser feito por exemplo de papel e caneta.

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@monteiro4852 #174

Por que você sempre acha que acabou? Eu, veja bem, eu é que deveria achar isso.

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Dor à vista

Uma tela que se embaça, diante de dores reincidentes e de falta de promessas. Não na catástrofe televisionada e amplamente falada. Dentro de nós. Numa saudade que arrefece, após um sonho do qual não é possível lembrar, mas, sim, estava lá. Esteve lá. Desde muito tempo. Depois de tanto pregar que “o amor só é bom se doer”, vem uma dor que põe tudo em xeque. Sofrimento serve mesmo para isso: para tornar vitorioso o que o provocou e conduzir ao saco dos perdedores aquele que… perdeu. Neurose pouca é bobagem. Mas uma bobagem que nem o samba da praça consegue abafar.

Depois do mais amargo dos cafés, quem consegue dormir? O playboy capaz de brigar com apenas o próprio umbigo poderá considerar-se sortudo. Depois, deve dar tempo de escorar-se numa sentença óbvia: não há nada de original ou especial nesta carcaça, mané. Todo mundo é igual: pior com dor do que sem dor. Pode ser que passe, claro. Há uma máxima/promessa já apontada como de origem árabe e que dá conta disso, com uma simplicidade dolorosa (claro que era para ser assim): “Tudo passa.”

A chegada/volta da dor é uma ótima ocasião pra avaliar o que se diz/pensa. Talvez, focar na semântica. Na dor, revemos coisas  Há quem faça promessas. Tem gente que aproveita para falar das músicas do Nirvana, explicando por que foge delas: muito sofrimento, ali, naqueles versos. É uma maneira de ver. Pode ser que não haja analgésico que dê jeito. O ápice da dor, o apogeu da dor, o esplendor da dor… Falando assim, parece até uma emenda para dar sequência aos “Provérbios do inferno”.

Se (um)a dor pode mesmo ser o combustível para aumentar um poema? Ou um clássico qualquer. Por que não? Metade da humanidade parece estar cansada do amor, que já foi apontado como o grande combustível da música/indústria pop. Outra: dor tem preço? Será que o cabra sofredor de agora provocou coisa parecida, isto é, muita dor, em outrem e, depois, precisa acertar as contas, encarar o preço a ser pago? Quando a dor vem em prestações, desde muito tempo, é porque o cara deve muito?

Há quem prefira pagar à vista para, quem sabe, sugerir um desconto. Ou então é só por não gostar mesmo de parcelamentos. Uma coisa é certa, apesar de não garantir nada: tem dor que é melhor não sentir. Assim como há contas que o sujeito — de uma maneira ou de outra — precisa acertar.

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Rainha do pop… Zzz…

O que torna uma pessoa merecedora disso ou daquilo? A gente merece o show de Madonna, aqui no Rio? A pergunta não quer dizer que o escriba a considere grande coisa. E tampouco a última frase serve para colocá-la num lixo liliputiano qualquer. A questão é: aqui está a artista, em pauta/alta. Nos últimos dias, foi esculhambada por um velhaco cineasta lacrador, celebrada por uma colunista bonitona e de veiculozão, passou pelas confissões de uma crítica gastronômica que lamentava que seus amigos chefs não lhe tivessem dado qualquer informação relevante… Madonna estava em todos lugares, nos últimos dias. Até aqui. E parecia unir o que já estava junto, além é claro de apartar o que já estava separado.

Os conselhos, essas coisas que a gente sempre pode ouvir, em vagões às vezes lotados do metrô, pareciam estar sendo dados aos montes e sendo direcionados a quem se arriscaria a ir à praia de Copa para ver a veterana. Será que Madonna fica boladona de ser chamada de “veterana”? Alguém tem para ela um conselho sobre isso? Ah, não era sobre isso, o conselho no vagão entupido de gente? Não, era para quem quisesse ouvir, e era em torno duma regra básica para eventos deste naipe naquele bairro: “levar o celular do ladrão”. Pra quem veio de fora, o encontro com Madonna na praia vai ser uma aula/prova de sobrevivência. Para quem é da cidade, idem.

E pra quem não tem maturidade para absorver ensinamentos assim tão… tão importantes? Tipo a menina de 11 anos, que vai ter que se contentar em ficar na areia mesmo, em meio aos milhões de aconselhados que foram até lá para participar da festa. Precisava ter já chegado aos 13 para participar da promoção que oferecia ingresso VIP para a maratona. O primo do vizinho de um amigo sumido foi quem falou: Madonna publicou no Insta dela que você estará concorrendo a um ingresso VIP se mandar um zap com a palavra “rio”. Tomara que alguém esteja espalhando isso no metrô, porque mesmo que hoje em dia as notícias — as falsas e as muito falsas, principalmente — circulem por celular, artista que já pretendeu orientar o futuro de uma certa humanidade hoje tem uma certa cara de passado e… e é isso que dá pra apontar como legal nela.

Para o cineasta grisalho, parece que nem mesmo isso. Cineasta não aprende mesmo, né? Essa mania de provocar, de achar que dá para fantasiar inveja de verdade… Precisava dizer que aqui no quintal tem pelo menos umas duas dezenas de cantoras melhores do que a material girl? Não deu tempo de pesquisar que intérpretes são estas, porque, além de cheio o metrô anda atrasando muito. Aí, você chega tarde em casa e vai escolher o lado de quem está contra o show em frente ao Copacabana Palace? Não, você vai lá conferir se é verdade essa história de sorteio de ingresso vip porque, cara, se você consegue, vai ser tipo ganhar na loteria. “Menos. Menos. Menos.” Tipo ganhar no bicho, pode ser?  Só não vai arrumar confusão comparando Madonna com um bicho qualquer. O conselho vale também para quem não é cineasta. Ela é da espécie das vencedoras. Das que fazem o mais ranzinza dos alvinegros levantar a bunda do sofá pra dizer que sua música preferida é “Borderline” e, também, rascunhar algo. Já que não vai na porcaria do show. Pelo menos faz uma porcaria de texto.