Aproveitando o clima de editorial, vamos para mais um. Assim, escolhendo claramente um personagem para defender, a gente evita ter que seguir uma regra jornalística: a de ouvir os dois lados de uma história. Neste caso, só um lado - o lado mais próximo - foi ouvido: o do baixista George Frizzo, que saiu da banda Fossil. Quer dizer, foi saído. E este é o motivo do editorial.
É a coisa mais normal do mundo quando neguinho é chutado de um grupo. Ninguém está aqui condenando a escolha dos sujeitos que ficaram na banda. Frizzo contou que marcou com seus companheiros uma reunião para tratar de uns shows e, quando chegou lá, ouviu uma história que parecia ter sido combinada entre os outros. Frizzo disse que ouviu os manos dizerem que ele não é um bom baixista. Frizzo ficou chocado.
E aí é que está o problema. Numa conversa rápida, depois, pelo MSN, disse ele que esse choque sumiu com a vontade de fazer música. Frizzo disse que não quer pensar nisso por um tempo, que não está elaborando nada de carreira solo. Contou que vai se concentrar no fim do mestrado e que depois pensa em ir morar na Europa. Uma pena.
Já vimos este filme, antes. Com um personagem que é sempre citado aqui, o Leonardo Panço - que sempre foi uma referência de ralação no circuito da música independente no Rio. Panço anda desanimado. E o circuito, sem a sua disposição para o trabalho, sente falta dele. Temo/temenos que com o Frizzo role a mesma coisa: que ele desanime e, aí, um monte de coisas legais que surgiam na cena simplesmente vão deixar de acontecer.
Seria/será uma perda irreparável. Tomara que Frizzo repense essa história.
Nesta era internética, muita gente esquece de coisas que são comuns no jornalismo impresso. Do editorial, por exemplo. Numa revista ou jornal, o editorial é o texto que apresenta uma edição ou deixa clara a posição de determinada publicação em relação a um assunto. É um exercício de discurso argumentativo. É um posicionamento claro. Considerem este texto um editorial. Ele vem à tona para reclamar de Clemente Nascimento, cantor do Inocentes, atualmente também da Plebe Rude e apresentador de web TV. Entrevistando o cantor do Matanza, Jimmy London, que se mudou de mala e cuia para São Paulo, Clemente fez uma piada colocando em xeque o Rio de Janeiro. Uma piada que deixou o “Sambapunk” irritado. Em editoriais, é assim: basta um detalhe para disparar uma metralhadora giratória. Depois de anunciar Jimmy como “um dos caras mais durões do rock brasileiro”, Clemente pergunta ao barbudo: “Qual foi o lance de você mudar pra São Paulo, hein, meu? Foi o quê? Um amor perdido, uma amiga perdida ou uma bala perdida?”
Clemente, o “Sambapunk”, que é comandado por um sujeito que gosta muito das coisas que você já cantou, lamenta muito ter testemunhado esta piada tola e fácil. Um chiste (como dizia o Didi Mocó) capaz de bulir com a auto-estima de uma cidade que, hoje em dia, precisa - isso, sim - de declarações que sejam mais produtivas. Para que esta “violência” tão usada para vender temores, verdades e soluções milagrosas não vire regra de vez. Verdades e soluções que você, um dia, como artista crítico, já soube apontar e condenar com firmeza. Renove as piadas. Melhor: cuidado com as piadas. Porque quando ela é fácil demais, não tem a menor graça.
Esta página pretende ser “séria”. Espere aí, sem aspas mesmo: séria. E isso significa “ter um caráter jornalístico”. Parecia significar também ser um pouco “fria”, no sentido de não abrigar textos que traduzissem idiossincrasias do cotidiano do editor. Mas hoje não vai dar para seguir estar fórmula. Porque está rolando no computador a música nova do Marcelo Camelo, “Doce solidão”. E o escriba aqui não sabe se acordou num dia ruim ou se a música é triste mesmo. Triste de triste, não triste de ruim.
Tem uns assovios… E isso faz com que seja fácil a gente concluir que, sim, há ali alguma doçura - como anuncia o título. E talvez então não seja tão triste e, sim, delicada…
A julgar por esta faixa, o trabalho novo do cara parece ser uma continuação bastante natural daquilo que ele fez com os Los Hermanos. Camelo mostra-se coerente. Não está fazendo death metal, nem punk, está fazendo o que vinha fazendo. Nada mais. E pronto. Ouça e tire suas próprias conclusões. O rótulo fica por sua conta.
A partir do dia 29 deste mês (próxima sexta-feira), quem quiser vai poder baixar dez das 14 músicas de “Sou”, o primeiro disco solo de Marcelo Camelo (crédito da imagem: Cia da Foto). O CD do cantor dos Los Hermanos chegará às lojas no dia 8 de setembro e virá com participações especiais do sanfoneiro Dominguinhos, da pianista Clara Sverner, da cantora Mallu Magalhães e do grupo instrumental Hurtmold. O lançamento será pelo selo de Camelo, o Zé Pereira, e a distribuição ficará por conta da Sony BMG. As músicas poderão ser baixadas do “Sonora”, canal de música do portal Terra (http://sonora.terra.com.br). O primeiro show da turnê de lançamento do disco será no Nordeste, no festival Coquetel Molotov (Recife, 19 de setembro).
Quem estiver muito ansioso para ouvir as pérolas de Camelo poderá ter uma amostra na próxima segunda, dia 25, quando a música “Doce solidão” estará disponível (também no “Sonora”). O disco foi produzido pelo próprio Camelo, que depois de se apresentar na capital pernambucana seguirá para Salvador (Concha Acústica, 28 de setembro), Juiz de Fora (Cine-Theatro Central, 04 de outubro), Porto Alegre (Teatro do Bourbon Country, 16 de outubro), Curitiba (Teatro Positivo, 17 de outubro), São Paulo (Citibank Hall, 14 e 15 de novembro) e Rio de Janeiro (Canecão, 13 e 14 de dezembro). Nestes shows, a cozinha ficará por conta do grupo Hurtmold e do trompetista Rob Mazurek.
Era um show de despedida. O baixista da banda, Chico Junqueira, está com a mala pronta para ir para Londres. Vai estudar naquelas plagas. Mas era também o aniversário do baterista jonathan Gregory e, como disse o Caio (Figueiredo, cantor), era também o dia da “defesa da Rafaela…”. Quer dizer: noite de festa; a banda cercada por amigos. A Companhia Itinerante fez um show com esse clima. Melhor para eles. Melhor também para quem não era tão íntimo da turma e estava ali para curtir o som. Deu para fazer isso e sair de lá bem satisfeito.
Na platéia, teve gente sambando. Isso, sambando. Não era para menos. Eles cantaram “Não existe pecado ao sul do Equador”, de Chico Buarque, que terminou em clima de marchinha, com referência ao Cordão do Bola Preta (bloco carnavalesco tradicional do Rio). Em clima mais roqueiro, a outra releitura feita foi de “Quando”, de Roberto Carlos. Ficaram divertidas, as duas. Mas nem precisava apelar para músicas assim. Com “Conchinchina”, por exemplo, que é da banda mesmo, a massa - naquela hora, parecia uma massa de gente - se animou e cantou junto.
Em “Kikiki”, surgiram bons grooves. Era ouvir e se mexer, dançar. A Companhia não é uma banda sisuda, ao vivo. Os caras sabem brincar. E de quebra cantam músicas que prendem a atenção e fazem com que neguinho dance. Muito bom.
Chegou parecendo um compacto tipo sete polegadas, mas era CD. Mau sinal. Mas o disco do Dois Do Samba rodou, rodou, rodou e trouxe uma alegria que, após uma derrota para a Argentina, no futebol, parecia improvável. “Dois do samba”, o disco, faz a gente lembrar de ótimas referências quando o assunto é baticum. Você ouve e sente a “presença” de Bezerra da Silva, João Nogueira, Zeca Pagodinho, Martinho da Vila.
O disco de Rodrigo Braga e Dudu Nicácio não é superproduzido, quer dizer, não sofre do mal que acomete muito o samba hoje em dia: excesso de nhenhenhém. Tem doses de descontração, daquela dor que só samba parece ser capaz de traduzir. É atual sem ser um ensopado de referências bobas e fáceis. É jovem sem ser uma cartilha para gírias escritas em letras minúsculas e com “k” no lugar de “qu”. E tanto quanto parece não preso na história do “de raiz”, não sugere nenhum emperiquitamento modernizante. A parada é simples e divertida. Música para relaxar ou para dançar.
Vai ser difícil um dia a gente ouvir o Catedral sem ficar com a sensação de que o cantor do grupo soa como Renato Russo. Mesmo depois de um disco de Elvis. Sim, Elvis. A banda de Kim, Julio Cesar e Guilherme acaba de lançar “The Elvis music”.
Resumindo muito: trata-se de um disco em que o cara que tem a voz parecida com a de Renato Russo canta músicas que ficaram famosas na voz de Elvis.
Tem algo de churrascaria, ali. E isso não é ruim. É o que pode dar ao disco um lugar nos nossos exigentes corações, transformando-o em uma pérola trash.
O ouvinte mais “preocupado” ficará pensando: qual é o público para este “The Elvis music”? Para quem gosta de rockabilly, talvez seja um repertório interpretado de maneira comportada demais. Para quem gosta de Elvis-o-rei, falta um pouco de charme, de manha.
Há faixas que se salvam, como “Heartbreak hotel”. Mas… Se, na era da música-com-vídeo, Kim está londe de ter o carisma de Renato Russo, quanto mais o de um Elvis.
Para quem gosta de Catedral, ah, sim, para quem gosta de Catedral, o disquinho parece ser perfeito. Na medida. Catedrático, até, mesmo que este não seja o melhor caminho para quem quer conhecer/revisitar o repertório imortalizado por Elvis-o-rei.