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SAmbaPUNk » O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

29/06/2009 às 18:53

O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


Coluna 2 Comentários


2 respostas

  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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29/06/2009 às 18:53

O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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2 respostas

  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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29/06/2009 às 18:53

O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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29/06/2009 às 18:53

O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


Coluna 2 Comentários


2 respostas

  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


Coluna 2 Comentários


2 respostas

  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


Coluna 2 Comentários


2 respostas

  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


Coluna 2 Comentários


2 respostas

  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


Coluna 2 Comentários


2 respostas

  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


Coluna 2 Comentários


2 respostas

  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


Coluna 2 Comentários


2 respostas

  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


Coluna 2 Comentários


2 respostas

  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


Coluna 2 Comentários


2 respostas

  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


Coluna 2 Comentários


2 respostas

  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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29/06/2009 às 18:53

O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego de surpresa pela lamentável notícia do falecimento de Michael Jackson. Depois de ser invadido por certa incredulidade seguida de nostalgia (afinal, cresci ouvindo e vendo este artista, como todos de minha geração), fiquei lembrando de minhas conversas com meu amigo Tiago Velasco (pesquisador dos ídolos da música pop) e, finalmente, entendi a profundidade simbólica do acontecimento. Não, esta não é mais uma coluna dedicada ao artista – ainda que não me furte a observar que, diante de vida tão tumultuada, o desejo de “descanse em paz” é de todo sincero e apropriado. Esta é, na verdade, uma coluna sobre o crepúsculo dos ídolos pop e da indústria de música que os criou.

Há alguns dias, li uma notícia sobre o fechamento da última das grandes lojas de discos da Virgin. Admito que esta nota não me deixou chocado, pois não chegava a ser uma novidade – era, aliás, a crônica de uma “morte” anunciada. Mas, ao associar à efetiva morte de Michael, percebi algo sintomático acontecendo.

Os grandes agentes da indústria fonográfica não se cansam de colocar a culpa do fechamento de lojas especializadas em discos na conta das novas práticas de consumo de gravações sonoras, muitas das quais eles insistem em nos fazer acreditar que são atos transgressores da lei ou de “pirataria”, em seu jargão. Já disse, ao longo desta coluna, que isto se deve, na verdade, a uma série de fatores. Todos dos quais tratei versavam, porém, sobre a estrutura da própria indústria fonográfica. Tive outra perspectiva do assunto, neste 25 de Junho. Notei que, de fato, não é apenas a tradicional estrutura da indústria fonográfica que caduca; é a própria cultura de massas que apresenta seu esgotamento.

Há uma década, pelo menos, todos os moleques ainda viam na TV e ouviam no rádio determinados artistas para, logo depois, saírem para comprar os discos. Mais tarde, quando já queriam se impor como especialistas da música pop, iniciavam discotecas com títulos selecionados – nada muito conhecido, pois isto queimava o filme, mas de qualquer maneira o que pautava a seleção era o conceito algo difuso de “cultura pop”. Hoje, muitos moleques continuam a realizar ritual semelhante, mas algo está profundamente modificado: os artistas pop já não vendem tantos discos e, o que é pior, não têm o mesmo impacto na história da música pop. Talvez seja pelo fato de os meios de comunicação de massa não ocuparem sozinhos o mesmo espaço de antes, talvez por haver muitos artistas competindo pela posição de “novo rei do pop” a cada semana – talvez, ainda, eu esteja ficando velho e desantenado demais para entender corretamente este universo paralelo. Seja como for, tenho a impressão de que a cultura pop, baseada em grandes artistas que pareciam figuras míticas, está deixando de existir. E é nisto que reside um dos aspectos mais instigantes do falecimento de Michael Jackson.

A meu ver, Michael Jackson não era mais um simples homem. Creio que sua grande realização e sua maior tragédia são, a um só tempo, ter vivido em sua plenitude a cultura pop. Quero dizer, quem viveu e morreu não foi Michael Joseph Jackson; foi o ícone Michael Jackson – pois havia apenas este, nada mais. E tal simulacro foi construído por uma indústria da música que, apoiada na comunicação de massa, emitia uma cultura pop para os vários cantos do globo. O sucesso da vendas de seus discos lhe garantira o rótulo de “rei do pop” – e ele se agarrou neste título moderno de nobreza até as últimas conseqüências. Hoje, as incríveis demonstrações espontâneas de comoção desde os Estados Unidos, Brasil, França ou Japão até Papua Nova Guiné, Burkina Faso ou Java nos confirmam a força deste fenômeno. Mas a minha pergunta é: será que veremos outros eventos semelhantes a este no futuro próximo?

É claro que há artistas que vendem muitas cópias de discos e são queridinhos dos meios de comunicação de massa e de nicho (penso, neste momento, em Ivete Sangalo e em Beyoncé Knowles). São populares neste sentido, sem dúvida. Entretanto, não se candidatam a ser tão marcantes em nossas vidas quanto o foram Jimmy Hendrix, os Beatles, Madonna e, claro, o próprio Michael Jackson. Isto pode se dar por falta de carisma ou de qualidade (sinto-me muito inclinado a sustentar tal hipótese!), porém é seguramente algo mais: é o fim de um modelo de cultura que animou o século XX. É mais que o declínio de um modelo econômico de produção de bens simbólicos; é uma maneira de pensar e fazer cultura que se esvai. Pese nisto uma série de distintos fatores, como o deslocamento da hegemonia da cultura de massas, a comunicação em rede, a sociedade pós-industrial ou da informação (o termo fica à escolha ideológica de cada um), o declínio do poder norte-americano, o diabo sabe mais o quê, enfim. O fato é que, hoje, aquela indústria da música sustentada pela fantástica venda de poucos grandes artistas parece estar morrendo, em momentos como este, literalmente.

Michael foi o grande símbolo dessa indústria da música. Sua morte e o fechamento das gigantescas lojas da Virgin atestam o fim de uma era, ou, pelo menos, o fim da festa desse modelo de produção da música. Àqueles que ficam, um pedido: o último a sair do salão, por favor, apague as luzes.


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  1. Tiago
    29/06/2009 às 18:53

    Boa, Leonardo!
    Fiquei me questionando se eu deveria escrever algo sobre a morte de Michael Jackson. De fato, ainda não sei.
    Mas sobre a morte de MJ e de um modelo, estou com vc e não abro. Diferentemente de vc, só não acredito em falta de carisma e/ou talento.
    Com a passagem de MJ, se juntando aos outros ídolos tão grandes quanto ele, Elvis Presley e Beatles, só resta mesmo a Madonna.
    Quando a loura se for, só os arquivos vão lembrar desta era de massa, tal como foi no século XX.

  2. Ciça Rodrigues
    29/06/2009 às 18:53

    Esse artigo foi muito bem escrito e muito bem pensado, Leonardo. Concordo com você, mas também com a obs de Tiago. Acho que ainda veremos talentos, mas não tantos fãs calorosos, muito menos a mídia física…
    É o que penso.
    Eu gostava do Michael… Muito.
    Descansem em paz: ele e a industria que agoniza.
    Saudações.


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29/06/2009 às 18:53

O último a sair, por favor, apague as luzes: Megastore da Virgin, Michael Jackson e o fim de uma era na indústria da música

Leonardo De Marchi - colunista

Como todo o resto da humanidade, neste 25 de Junho, fui pego