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SAmbaPUNk » Mallu mulher

31/12/2009 às 12:54

Mallu mulher

Adilson Pereira

Já se falou muito sobre o “público” e o “privado”. E por conta disso também já subverteram demais esses conceitos. Pessoas de todos os tipos sempre se envolveram na discussão. Ainda bem, pois trata-se de assunto demasiado importante para ficar fechado numa academia isso ou assado. Mas por que diabos falar de tal coisa, agora, quando deveria bastar ir em frente comentando as faixas do álbum novo de Mallu Magalhães? Porque há um detalhe da vida pessoal dessa moça que, para o ouvinte minimamente atento, saltará como “ingrediente” determinante na construção – e posterior análise – de “Mallu Magalhães”, o disco (Sony Music). E esse detalhe é ninguém menos do que o namorado de MM, o também cantor e compositor MC, Marcelo Camelo (leia-se Los Hermanos).

Para começar, é um disco de peito aberto, sem medos aparentes a lhe congelarem/atrapalharem o flow. Ou isso ou uma grande marketice está por trás de toda a “brincadeira”. Vamos ficar com a primeira opção. Mallu Magalhães, com produção de Kassin, aparece em 13 faixas dizendo (ainda mais em inglês do que em português) que é mulher e que está apaixonada. Faz isso nas letras, no modo de interpretar, na escolha de uma determinada estética. Ótimo. Dá alma ao trabalho. Nós que estávamos acostumados a enxergar nela uma criança, uma menina, tal a delicadeza com que sempre se mostrou, temos que admitir a “transformação”. Dá para notar uma riqueza de informações com a qual o produtor Kassin, certamente, contribuiu. Mas percebe-se também uma alusão aqui e outra ali, uma maneira de cantar e investimento num vocabulário que só não fica artificial na voz dessa menina porque… porque ela, esperta, descobriu uma maneira de interpretar que é bem dela. Criança ou adulta, tanto faz. Boba é que com certeza MM não é.

Até quando “cola”, Mallu vale-se de um certo charme. Ela pode aceitar a possibilidade de pegar uma trilha (ou cartilha), de cantar/mostrar-se segundo a fórmula X ou Y + 2, de adotar essa ou aquela mania do século passado. Mas sempre encaixa a voz de maneira bastante convincente, comovente, delicada e precisa. De uma maneira bastante pessoal, enfim. Björk, Siouxsie Sioux, Iggy Pop, Isobel Campbell, Bob Dylan, Elba Ramalho, Damon Albarn, Suzanne Vega, estão todos lá, misturados (bem Kassin, o homem das muitas informações). Mallu Magalhães pode estar fazendo o que todo mundo quer que ela faça, para transformar-se definitivamente num duradouro fenômeno de massa. Mas está também fazendo o seu lance, a sua parada. Como diriam os gringos, “she´s doing her thing”.

Ah, sim, os gringos e seu inglês. Se fizermos as contas, ela se dedica mais ao idioma “deles” do que ao “nosso”. Claro que o inglês não estraga músicas. Não no caso dela. No repertório, há por exemplo a ensolarada “Shine yellow”, que se para ser daquele jeito tem que ser em inglês, OK, que seja. O fato de este álbum ter (mais do que o anterior) mais faixas em português sugere que MM está protagonizando um “teste”. Para ver se funciona. Não parece ter havido divisão sobre que tipo de tema seria adequado para este ou aquele idioma. É em inglês, por exemplo, que está um título que entrega muito daquele detalhe “privado” mencionado no início desse texto (Camelo). Estamos falando de “My home is my man”, em que ela mistura Punk e Peanuts, estilos e atitudes.

Em “Nem fé nem santo”, liquidificando Suzanne Vega, Belle & Sebastian, psicodelia e um negócio tipo-música-de-roda, já podemos sentir os primeiros vestígios daquela influência Marcelo-Cameloense. Vamos aproveitar o inglês, esse santo idioma a que cantores sempre recorrem, para criar duas etiquetas: MC-On e  MC-Off. A primeira define as faixas em que sentimos com facilidade uma influência, digamos, conceitual e estética por parte do namorado de Mallu. A segunda, obviamente, vai no sentido contrário. Marcelo Camelo participa oficialmente de quatro faixas.

O disco, em sua essência, é MC-On total. Na história da música pop, amor é o grande combustível, a grande “inspiração”. E é isso que acontece aqui. Não dá para imaginar esse repertório, essas letras, essa delicadeza, sem um amorzão por trás. Em valores relativos, esse é um disco que tem a mesma ordem de grandeza de um trabalho sertanejo, tão amoroso é o recheio. Tem a mesma dose de amor que escorre dos álbuns de Zezés e Lucianos da vida. É tão MC-On que nos créditos ela agradece a “aquele que faz bater meu coração (Marcelo)”. Nesse sentido, é um troço corajoso, firme naquela história de peito aberto.

“Versinho de número um”, com um quê bossa-novista-retrô, é MC-On demais. Chega a soar erudita. Com “Compromisso”, é a mesma coisa: um instantâneo da cantora dando explicações ao pai. Ela dá satisfações à mãe também, na bluesy “Make it easy”: “Love is no problem”, diz um dos versos. A mensagem é mais escancarada, isto é, mais MC-On, em “Te acho tão bonito”. Está rindo? É sério, o nome da música é esse mesmo. Para entender, um pedaço já chega: “Quando eu conto d’um sujeito/ Cê logo encolhe o peito/ Supondo uma intenção/ Acha qu’eu queria ter/ Um homem de tevê/ Que veste a perfeição// Se pedir eu ainda grito/ Até d’olhos fechados/ Eu… te acho o mais bonito!”.

Tem aquela piada de que não vale a pena “pegar” a Sharon Stone se for proibido falar sobre isso aos amigos. Aqui, (um)a pessoa que poderia proibir qualquer falação a respeito do seu amor é justamente quem fala/grava/registra. Isso é de nos deixar comovidos. É o que aqui no Rio a gente chama de “pagar paixão”.

Por falar em pagar paixão, ouça “É você quem tem”. Que coisa… sóbria, séria e sei lá mais o que começando com “S”. Muito MC-On, veja só: “É você que é/ O homem meu/ Meu grande amor da minha vida/ é tão teu/ O gosto da minha mordida…” Contribuindo com o climão, violinos… Legal.

“O herói, o marginal”, mesmo retumbante, carrega algo que denota um pouco de tristeza. Também é MC-On. Mas surge como uma música até “estranha”, nesse ninho de comemoração de amor. “Soul mate” e “You ain’t gonna loose me”, para fãs de Hank Williams e dos desenhos do Pica-Pau, também são MC-On: boas doses de descontração e “descompromisso” e leveza. MC-Off: “Ricardo”, que é a “Eduardo e Mônica” de Mallu Magalhães. Também MC-Off: “Bee on the grass”, catártica, capaz de ficar ótima ao vivo se, além de muito amor, ela tiver gogó.


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