06/11/2008 às 13:40

Músicos e jogadores de futebol

Adilson Pereira

Estava visitando o site de um artista. Música tocando. Som legal, até, aquele que rolava lá. Mas - programadores bobos, feios e maus - não dão ao visitante a chance de diminuir o volume ou desligar o player. A primeira sensação de incômodo veio daí. Mas não foi a pior. Chato mesmo foi perceber a completa ausência de vírgulas em lugares certos, desde o textinho de abertura até as entranhas da bio que revelava a riqueza da vida daquele produto, digo, artista. Havia também letras maiúsculas onde elas deveriam ser minúsculas mesmo, e construções que tornavam a leitura confusa, quase um desafio.

Lembro do Renato Russo: “Eu canto em português errado…” Ê, saudosismo… Se todos os erros fossem os da Legião Urbana. Não que eu queira um mundo intelectualizado, que se reafirme/transforme o tempo todo em mesas de bar da Zona Sul carioca.

Fico pensando se sou exigente demais, se esta história de escrever “corretamente” é coisa do passado e se estou apegado a este tal passado. Desconfio de mim, nestas horas. Será que sou um jornalista enraivecido por não ter recebido uns trocados para editar aquele texto? E me entristeço porque estes trocados não vieram para o meu bolso e tampouco para o de alguém que tem a mínima intimidade com o português. O português, aqui, gente, é a língua, ok?

Talvez os valores importantes, hoje, sejam outros. Talvez tenham a ver com a velocidade. É possível que passem pela capacidade de colocar uma página no ar, na rede mundial de computadores, mesmo que repleta de coisas escritas da maneira errada. Espera aí, melhor colocar entre aspas: “errada”. Vai ver que elas só estão erradas para mim, tipo um escravo da rigidez do português.

Eu com essa minha mania de ouvir coisas “diferentes” e “legais”, tentando me desapegar do costume de empilhar discos, me relacionando de forma mais “livre” com a música, fico incomodado com o tanto de incorreções - no que diz respeito à escrita - que observo no universo musical. Até onde eu sabia, jogador de futebol é que não falava direito. As piadas clássicas, com “fingi que ia e não fui mas acabei fondo”, estavam aí para provar. Neguinho da música sabia - pelo menos minimamente - escrever. Era o que parecia, para mim. Parece que eu estava errado.

Houve quem condenasse muito o funk carioca, por causa do tanto de “erros” que escorre e escorria das letras, tempos atrás. Esse funk se intelectualizou um pouco e, hoje, muitos erros são assim de propósito. Erros tipo exportação. E na época em que houve a condenação pela, digamos, falta de erudição do pobre compositor das classes baixas, alguns deles chegaram colocar em suas letras palavras que nem mesmo os eruditos deviam usar com freqüência. Até hoje, não sei o que é o “adjudicar” que surgiu numa música da dupla Claudinho e Buchecha, na época em que eu trabalhava num jornal “popular” e tinha que escrever sobre eles.

Não tenho dúvidas de que o meu incômodo é um tanto mais nobre. Vamos dizer que ele é nobre, isso mesmo, porque não estou preocupado em excluir das telas de TV gente assim ou assada. Minha preocupação é com a língua mesmo, com o empobrecimento e a pulverização do código que é usado para registrar/transmitir idéias.

Lembram de “1984″? Aquele livro do George Orwell… Não é lá que tem a história da “novilíngua”, de os caras simplificarem/reduzirem ao máximo a utilização e o registro de palavras? Faziam isso porque acreditavam que com menos palavras as pessoas reduziriam sua capacidade de se expressar e, assim, seriam controladas mais facilmente. Tudo bem que hoje tem a tal da internet para quem quer se expressar… O artista se expressa no You Tube, no My Space, no Orkut, no Multiply… Ah, não, o Multiply não colou, é verdade… Bom, há todos estes lugares para as pessoas se expressarem… …da maneira “errada”. Será que estou testemunhando um momento de evolução/transformação da novilíngua, isto é, da velha língua?

Do que adianta este leque enorme de sítios virtuais em que as pessoas podem se expressar se elas, hoje, atolaram num lamaçal que é a pobreza de vocabulário? Uma incapacidade assustadora de construir frases minimamente organizadas… Somos 40 milhões de usuários de computadores, ases na arte da utilização de teclas de atalho… Control-cê-control-vê… Veja você.

E, agora, com tanta música circulando por aí, a gente vai atrás de informações sobre os artistas que fazem estas pérolas e dá de cara com um festival de bizarrices escritas. Os caras que capturam o cotidiano, que animam nossos dias e noites com canções e riffs escrevem tudo errado, sem o menor compromisso com a correção. É isso mesmo?


Artigo, Crônicas


Uma resposta

  1. Tiago Velasco
    06/11/2008 às 13:40

    Pois é, já olhei várias vezes no dicionário o significado de “adjudicar”, mas não entra na minha cabeça.
    Em relação à probreza da língua, duplipensar, músicos escreverem errado… Já falamos sobre isso algumas vezes, acho. Na minha opinião, são coisas diferentes.
    Quando um garoto escreve de maneira errada na internet, ele está criandouma nova linguagem, mesmo que isso represente grafias erradas e diminuição de vocabulário. Há uma transformação nos vocábulos, o que, por si só, já é uma riqueza.
    Não acho que isso tenha nada a ver com duplipensar por uma questão simples: havia uma imposição de baixo pra cima, política, com o intuito de controle. Este “duplipensar” internético está sendo desenvolvido por quem utiliza a web, sem imposição alguma.
    Além do mais, pode representar as mudanças na língua, que é uma parada dinãmica: “vossa mercê”, “vosmecê”, “você”, “cê”. Perdeu letras, mas não empobreceu de maneira alguma.
    Quanto a escrever errado, isto é, de uma maneira que não condiz com o meio e com a finalidade. è claro que não apóio.
    abs


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06/11/2008 às 13:40

Músicos e jogadores de futebol

Adilson Pereira

Estava visitando o site de um artista. Música tocando. Som legal, até, aquele que rolava lá. Mas - programadores bobos, feios e maus - não dão ao visitante a chance de diminuir o volume ou desligar o player. A primeira sensação de incômodo veio daí. Mas não foi a pior. Chato mesmo foi perceber a completa ausência de vírgulas em lugares certos, desde o textinho de abertura até as entranhas da bio que revelava a riqueza da vida daquele produto, digo, artista. Havia também letras maiúsculas onde elas deveriam ser minúsculas mesmo, e construções que tornavam a leitura confusa, quase um desafio.

Lembro do Renato Russo: “Eu canto em português errado…” Ê, saudosismo… Se todos os erros fossem os da Legião Urbana. Não que eu queira um mundo intelectualizado, que se reafirme/transforme o tempo todo em mesas de bar da Zona Sul carioca.

Fico pensando se sou exigente demais, se esta história de escrever “corretamente” é coisa do passado e se estou apegado a este tal passado. Desconfio de mim, nestas horas. Será que sou um jornalista enraivecido por não ter recebido uns trocados para editar aquele texto? E me entristeço porque estes trocados não vieram para o meu bolso e tampouco para o de alguém que tem a mínima intimidade com o português. O português, aqui, gente, é a língua, ok?

Talvez os valores importantes, hoje, sejam outros. Talvez tenham a ver com a velocidade. É possível que passem pela capacidade de colocar uma página no ar, na rede mundial de computadores, mesmo que repleta de coisas escritas da maneira errada. Espera aí, melhor colocar entre aspas: “errada”. Vai ver que elas só estão erradas para mim, tipo um escravo da rigidez do português.

Eu com essa minha mania de ouvir coisas “diferentes” e “legais”, tentando me desapegar do costume de empilhar discos, me relacionando de forma mais “livre” com a música, fico incomodado com o tanto de incorreções - no que diz respeito à escrita - que observo no universo musical. Até onde eu sabia, jogador de futebol é que não falava direito. As piadas clássicas, com “fingi que ia e não fui mas acabei fondo”, estavam aí para provar. Neguinho da música sabia - pelo menos minimamente - escrever. Era o que parecia, para mim. Parece que eu estava errado.

Houve quem condenasse muito o funk carioca, por causa do tanto de “erros” que escorre e escorria das letras, tempos atrás. Esse funk se intelectualizou um pouco e, hoje, muitos erros são assim de propósito. Erros tipo exportação. E na época em que houve a condenação pela, digamos, falta de erudição do pobre compositor das classes baixas, alguns deles chegaram colocar em suas letras palavras que nem mesmo os eruditos deviam usar com freqüência. Até hoje, não sei o que é o “adjudicar” que surgiu numa música da dupla Claudinho e Buchecha, na época em que eu trabalhava num jornal “popular” e tinha que escrever sobre eles.

Não tenho dúvidas de que o meu incômodo é um tanto mais nobre. Vamos dizer que ele é nobre, isso mesmo, porque não estou preocupado em excluir das telas de TV gente assim ou assada. Minha preocupação é com a língua mesmo, com o empobrecimento e a pulverização do código que é usado para registrar/transmitir idéias.

Lembram de “1984″? Aquele livro do George Orwell… Não é lá que tem a história da “novilíngua”, de os caras simplificarem/reduzirem ao máximo a utilização e o registro de palavras? Faziam isso porque acreditavam que com menos palavras as pessoas reduziriam sua capacidade de se expressar e, assim, seriam controladas mais facilmente. Tudo bem que hoje tem a tal da internet para quem quer se expressar… O artista se expressa no You Tube, no My Space, no Orkut, no Multiply… Ah, não, o Multiply não colou, é verdade… Bom, há todos estes lugares para as pessoas se expressarem… …da maneira “errada”. Será que estou testemunhando um momento de evolução/transformação da novilíngua, isto é, da velha língua?

Do que adianta este leque enorme de sítios virtuais em que as pessoas podem se expressar se elas, hoje, atolaram num lamaçal que é a pobreza de vocabulário? Uma incapacidade assustadora de construir frases minimamente organizadas… Somos 40 milhões de usuários de computadores, ases na arte da utilização de teclas de atalho… Control-cê-control-vê… Veja você.

E, agora, com tanta música circulando por aí, a gente vai atrás de informações sobre os artistas que fazem estas pérolas e dá de cara com um festival de bizarrices escritas. Os caras que capturam o cotidiano, que animam nossos dias e noites com canções e riffs escrevem tudo errado, sem o menor compromisso com a correção. É isso mesmo?


Artigo, Crônicas


Uma resposta

  1. Tiago Velasco
    06/11/2008 às 13:40

    Pois é, já olhei várias vezes no dicionário o significado de “adjudicar”, mas não entra na minha cabeça.
    Em relação à probreza da língua, duplipensar, músicos escreverem errado… Já falamos sobre isso algumas vezes, acho. Na minha opinião, são coisas diferentes.
    Quando um garoto escreve de maneira errada na internet, ele está criandouma nova linguagem, mesmo que isso represente grafias erradas e diminuição de vocabulário. Há uma transformação nos vocábulos, o que, por si só, já é uma riqueza.
    Não acho que isso tenha nada a ver com duplipensar por uma questão simples: havia uma imposição de baixo pra cima, política, com o intuito de controle. Este “duplipensar” internético está sendo desenvolvido por quem utiliza a web, sem imposição alguma.
    Além do mais, pode representar as mudanças na língua, que é uma parada dinãmica: “vossa mercê”, “vosmecê”, “você”, “cê”. Perdeu letras, mas não empobreceu de maneira alguma.
    Quanto a escrever errado, isto é, de uma maneira que não condiz com o meio e com a finalidade. è claro que não apóio.
    abs


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Músicos e jogadores de futebol

Adilson Pereira

Estava visitando o site de um artista. Música tocando. Som legal, até, aquele que rolava lá. Mas - programadores bobos, feios e maus - não dão ao visitante a chance de diminuir o volume ou desligar o player. A primeira sensação de incômodo veio daí. Mas não foi a pior. Chato mesmo foi perceber a completa ausência de vírgulas em lugares certos, desde o textinho de abertura até as entranhas da bio que revelava a riqueza da vida daquele produto, digo, artista. Havia também letras maiúsculas onde elas deveriam ser minúsculas mesmo, e construções que tornavam a leitura confusa, quase um desafio.

Lembro do Renato Russo: “Eu canto em português errado…” Ê, saudosismo… Se todos os erros fossem os da Legião Urbana. Não que eu queira um mundo intelectualizado, que se reafirme/transforme o tempo todo em mesas de bar da Zona Sul carioca.

Fico pensando se sou exigente demais, se esta história de escrever “corretamente” é coisa do passado e se estou apegado a este tal passado. Desconfio de mim, nestas horas. Será que sou um jornalista enraivecido por não ter recebido uns trocados para editar aquele texto? E me entristeço porque estes trocados não vieram para o meu bolso e tampouco para o de alguém que tem a mínima intimidade com o português. O português, aqui, gente, é a língua, ok?

Talvez os valores importantes, hoje, sejam outros. Talvez tenham a ver com a velocidade. É possível que passem pela capacidade de colocar uma página no ar, na rede mundial de computadores, mesmo que repleta de coisas escritas da maneira errada. Espera aí, melhor colocar entre aspas: “errada”. Vai ver que elas só estão erradas para mim, tipo um escravo da rigidez do português.

Eu com essa minha mania de ouvir coisas “diferentes” e “legais”, tentando me desapegar do costume de empilhar discos, me relacionando de forma mais “livre” com a música, fico incomodado com o tanto de incorreções - no que diz respeito à escrita - que observo no universo musical. Até onde eu sabia, jogador de futebol é que não falava direito. As piadas clássicas, com “fingi que ia e não fui mas acabei fondo”, estavam aí para provar. Neguinho da música sabia - pelo menos minimamente - escrever. Era o que parecia, para mim. Parece que eu estava errado.

Houve quem condenasse muito o funk carioca, por causa do tanto de “erros” que escorre e escorria das letras, tempos atrás. Esse funk se intelectualizou um pouco e, hoje, muitos erros são assim de propósito. Erros tipo exportação. E na época em que houve a condenação pela, digamos, falta de erudição do pobre compositor das classes baixas, alguns deles chegaram colocar em suas letras palavras que nem mesmo os eruditos deviam usar com freqüência. Até hoje, não sei o que é o “adjudicar” que surgiu numa música da dupla Claudinho e Buchecha, na época em que eu trabalhava num jornal “popular” e tinha que escrever sobre eles.

Não tenho dúvidas de que o meu incômodo é um tanto mais nobre. Vamos dizer que ele é nobre, isso mesmo, porque não estou preocupado em excluir das telas de TV gente assim ou assada. Minha preocupação é com a língua mesmo, com o empobrecimento e a pulverização do código que é usado para registrar/transmitir idéias.

Lembram de “1984″? Aquele livro do George Orwell… Não é lá que tem a história da “novilíngua”, de os caras simplificarem/reduzirem ao máximo a utilização e o registro de palavras? Faziam isso porque acreditavam que com menos palavras as pessoas reduziriam sua capacidade de se expressar e, assim, seriam controladas mais facilmente. Tudo bem que hoje tem a tal da internet para quem quer se expressar… O artista se expressa no You Tube, no My Space, no Orkut, no Multiply… Ah, não, o Multiply não colou, é verdade… Bom, há todos estes lugares para as pessoas se expressarem… …da maneira “errada”. Será que estou testemunhando um momento de evolução/transformação da novilíngua, isto é, da velha língua?

Do que adianta este leque enorme de sítios virtuais em que as pessoas podem se expressar se elas, hoje, atolaram num lamaçal que é a pobreza de vocabulário? Uma incapacidade assustadora de construir frases minimamente organizadas… Somos 40 milhões de usuários de computadores, ases na arte da utilização de teclas de atalho… Control-cê-control-vê… Veja você.

E, agora, com tanta música circulando por aí, a gente vai atrás de informações sobre os artistas que fazem estas pérolas e dá de cara com um festival de bizarrices escritas. Os caras que capturam o cotidiano, que animam nossos dias e noites com canções e riffs escrevem tudo errado, sem o menor compromisso com a correção. É isso mesmo?


Artigo, Crônicas


Uma resposta

  1. Tiago Velasco
    06/11/2008 às 13:40

    Pois é, já olhei várias vezes no dicionário o significado de “adjudicar”, mas não entra na minha cabeça.
    Em relação à probreza da língua, duplipensar, músicos escreverem errado… Já falamos sobre isso algumas vezes, acho. Na minha opinião, são coisas diferentes.
    Quando um garoto escreve de maneira errada na internet, ele está criandouma nova linguagem, mesmo que isso represente grafias erradas e diminuição de vocabulário. Há uma transformação nos vocábulos, o que, por si só, já é uma riqueza.
    Não acho que isso tenha nada a ver com duplipensar por uma questão simples: havia uma imposição de baixo pra cima, política, com o intuito de controle. Este “duplipensar” internético está sendo desenvolvido por quem utiliza a web, sem imposição alguma.
    Além do mais, pode representar as mudanças na língua, que é uma parada dinãmica: “vossa mercê”, “vosmecê”, “você”, “cê”. Perdeu letras, mas não empobreceu de maneira alguma.
    Quanto a escrever errado, isto é, de uma maneira que não condiz com o meio e com a finalidade. è claro que não apóio.
    abs


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Músicos e jogadores de futebol

Adilson Pereira

Estava visitando o site de um artista. Música tocando. Som legal, até, aquele que rolava lá. Mas - programadores bobos, feios e maus - não dão ao visitante a chance de diminuir o volume ou desligar o player. A primeira sensação de incômodo veio daí. Mas não foi a pior. Chato mesmo foi perceber a completa ausência de vírgulas em lugares certos, desde o textinho de abertura até as entranhas da bio que revelava a riqueza da vida daquele produto, digo, artista. Havia também letras maiúsculas onde elas deveriam ser minúsculas mesmo, e construções que tornavam a leitura confusa, quase um desafio.

Lembro do Renato Russo: “Eu canto em português errado…” Ê, saudosismo… Se todos os erros fossem os da Legião Urbana. Não que eu queira um mundo intelectualizado, que se reafirme/transforme o tempo todo em mesas de bar da Zona Sul carioca.

Fico pensando se sou exigente demais, se esta história de escrever “corretamente” é coisa do passado e se estou apegado a este tal passado. Desconfio de mim, nestas horas. Será que sou um jornalista enraivecido por não ter recebido uns trocados para editar aquele texto? E me entristeço porque estes trocados não vieram para o meu bolso e tampouco para o de alguém que tem a mínima intimidade com o português. O português, aqui, gente, é a língua, ok?

Talvez os valores importantes, hoje, sejam outros. Talvez tenham a ver com a velocidade. É possível que passem pela capacidade de colocar uma página no ar, na rede mundial de computadores, mesmo que repleta de coisas escritas da maneira errada. Espera aí, melhor colocar entre aspas: “errada”. Vai ver que elas só estão erradas para mim, tipo um escravo da rigidez do português.

Eu com essa minha mania de ouvir coisas “diferentes” e “legais”, tentando me desapegar do costume de empilhar discos, me relacionando de forma mais “livre” com a música, fico incomodado com o tanto de incorreções - no que diz respeito à escrita - que observo no universo musical. Até onde eu sabia, jogador de futebol é que não falava direito. As piadas clássicas, com “fingi que ia e não fui mas acabei fondo”, estavam aí para provar. Neguinho da música sabia - pelo menos minimamente - escrever. Era o que parecia, para mim. Parece que eu estava errado.

Houve quem condenasse muito o funk carioca, por causa do tanto de “erros” que escorre e escorria das letras, tempos atrás. Esse funk se intelectualizou um pouco e, hoje, muitos erros são assim de propósito. Erros tipo exportação. E na época em que houve a condenação pela, digamos, falta de erudição do pobre compositor das classes baixas, alguns deles chegaram colocar em suas letras palavras que nem mesmo os eruditos deviam usar com freqüência. Até hoje, não sei o que é o “adjudicar” que surgiu numa música da dupla Claudinho e Buchecha, na época em que eu trabalhava num jornal “popular” e tinha que escrever sobre eles.

Não tenho dúvidas de que o meu incômodo é um tanto mais nobre. Vamos dizer que ele é nobre, isso mesmo, porque não estou preocupado em excluir das telas de TV gente assim ou assada. Minha preocupação é com a língua mesmo, com o empobrecimento e a pulverização do código que é usado para registrar/transmitir idéias.

Lembram de “1984″? Aquele livro do George Orwell… Não é lá que tem a história da “novilíngua”, de os caras simplificarem/reduzirem ao máximo a utilização e o registro de palavras? Faziam isso porque acreditavam que com menos palavras as pessoas reduziriam sua capacidade de se expressar e, assim, seriam controladas mais facilmente. Tudo bem que hoje tem a tal da internet para quem quer se expressar… O artista se expressa no You Tube, no My Space, no Orkut, no Multiply… Ah, não, o Multiply não colou, é verdade… Bom, há todos estes lugares para as pessoas se expressarem… …da maneira “errada”. Será que estou testemunhando um momento de evolução/transformação da novilíngua, isto é, da velha língua?

Do que adianta este leque enorme de sítios virtuais em que as pessoas podem se expressar se elas, hoje, atolaram num lamaçal que é a pobreza de vocabulário? Uma incapacidade assustadora de construir frases minimamente organizadas… Somos 40 milhões de usuários de computadores, ases na arte da utilização de teclas de atalho… Control-cê-control-vê… Veja você.

E, agora, com tanta música circulando por aí, a gente vai atrás de informações sobre os artistas que fazem estas pérolas e dá de cara com um festival de bizarrices escritas. Os caras que capturam o cotidiano, que animam nossos dias e noites com canções e riffs escrevem tudo errado, sem o menor compromisso com a correção. É isso mesmo?


Artigo, Crônicas


Uma resposta

  1. Tiago Velasco
    06/11/2008 às 13:40

    Pois é, já olhei várias vezes no dicionário o significado de “adjudicar”, mas não entra na minha cabeça.
    Em relação à probreza da língua, duplipensar, músicos escreverem errado… Já falamos sobre isso algumas vezes, acho. Na minha opinião, são coisas diferentes.
    Quando um garoto escreve de maneira errada na internet, ele está criandouma nova linguagem, mesmo que isso represente grafias erradas e diminuição de vocabulário. Há uma transformação nos vocábulos, o que, por si só, já é uma riqueza.
    Não acho que isso tenha nada a ver com duplipensar por uma questão simples: havia uma imposição de baixo pra cima, política, com o intuito de controle. Este “duplipensar” internético está sendo desenvolvido por quem utiliza a web, sem imposição alguma.
    Além do mais, pode representar as mudanças na língua, que é uma parada dinãmica: “vossa mercê”, “vosmecê”, “você”, “cê”. Perdeu letras, mas não empobreceu de maneira alguma.
    Quanto a escrever errado, isto é, de uma maneira que não condiz com o meio e com a finalidade. è claro que não apóio.
    abs


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06/11/2008 às 13:40

Músicos e jogadores de futebol

Adilson Pereira

Estava visitando o site de um artista. Música tocando. Som legal, até, aquele que rolava lá. Mas - programadores bobos, feios e maus - não dão ao visitante a chance de diminuir o volume ou desligar o player. A primeira sensação de incômodo veio daí. Mas não foi a pior. Chato mesmo foi perceber a completa ausência de vírgulas em lugares certos, desde o textinho de abertura até as entranhas da bio que revelava a riqueza da vida daquele produto, digo, artista. Havia também letras maiúsculas onde elas deveriam ser minúsculas mesmo, e construções que tornavam a leitura confusa, quase um desafio.

Lembro do Renato Russo: “Eu canto em português errado…” Ê, saudosismo… Se todos os erros fossem os da Legião Urbana. Não que eu queira um mundo intelectualizado, que se reafirme/transforme o tempo todo em mesas de bar da Zona Sul carioca.

Fico pensando se sou exigente demais, se esta história de escrever “corretamente” é coisa do passado e se estou apegado a este tal passado. Desconfio de mim, nestas horas. Será que sou um jornalista enraivecido por não ter recebido uns trocados para editar aquele texto? E me entristeço porque estes trocados não vieram para o meu bolso e tampouco para o de alguém que tem a mínima intimidade com o português. O português, aqui, gente, é a língua, ok?

Talvez os valores importantes, hoje, sejam outros. Talvez tenham a ver com a velocidade. É possível que passem pela capacidade de colocar uma página no ar, na rede mundial de computadores, mesmo que repleta de coisas escritas da maneira errada. Espera aí, melhor colocar entre aspas: “errada”. Vai ver que elas só estão erradas para mim, tipo um escravo da rigidez do português.

Eu com essa minha mania de ouvir coisas “diferentes” e “legais”, tentando me desapegar do costume de empilhar discos, me relacionando de forma mais “livre” com a música, fico incomodado com o tanto de incorreções - no que diz respeito à escrita - que observo no universo musical. Até onde eu sabia, jogador de futebol é que não falava direito. As piadas clássicas, com “fingi que ia e não fui mas acabei fondo”, estavam aí para provar. Neguinho da música sabia - pelo menos minimamente - escrever. Era o que parecia, para mim. Parece que eu estava errado.

Houve quem condenasse muito o funk carioca, por causa do tanto de “erros” que escorre e escorria das letras, tempos atrás. Esse funk se intelectualizou um pouco e, hoje, muitos erros são assim de propósito. Erros tipo exportação. E na época em que houve a condenação pela, digamos, falta de erudição do pobre compositor das classes baixas, alguns deles chegaram colocar em suas letras palavras que nem mesmo os eruditos deviam usar com freqüência. Até hoje, não sei o que é o “adjudicar” que surgiu numa música da dupla Claudinho e Buchecha, na época em que eu trabalhava num jornal “popular” e tinha que escrever sobre eles.

Não tenho dúvidas de que o meu incômodo é um tanto mais nobre. Vamos dizer que ele é nobre, isso mesmo, porque não estou preocupado em excluir das telas de TV gente assim ou assada. Minha preocupação é com a língua mesmo, com o empobrecimento e a pulverização do código que é usado para registrar/transmitir idéias.

Lembram de “1984″? Aquele livro do George Orwell… Não é lá que tem a história da “novilíngua”, de os caras simplificarem/reduzirem ao máximo a utilização e o registro de palavras? Faziam isso porque acreditavam que com menos palavras as pessoas reduziriam sua capacidade de se expressar e, assim, seriam controladas mais facilmente. Tudo bem que hoje tem a tal da internet para quem quer se expressar… O artista se expressa no You Tube, no My Space, no Orkut, no Multiply… Ah, não, o Multiply não colou, é verdade… Bom, há todos estes lugares para as pessoas se expressarem… …da maneira “errada”. Será que estou testemunhando um momento de evolução/transformação da novilíngua, isto é, da velha língua?

Do que adianta este leque enorme de sítios virtuais em que as pessoas podem se expressar se elas, hoje, atolaram num lamaçal que é a pobreza de vocabulário? Uma incapacidade assustadora de construir frases minimamente organizadas… Somos 40 milhões de usuários de computadores, ases na arte da utilização de teclas de atalho… Control-cê-control-vê… Veja você.

E, agora, com tanta música circulando por aí, a gente vai atrás de informações sobre os artistas que fazem estas pérolas e dá de cara com um festival de bizarrices escritas. Os caras que capturam o cotidiano, que animam nossos dias e noites com canções e riffs escrevem tudo errado, sem o menor compromisso com a correção. É isso mesmo?


Artigo, Crônicas


Uma resposta

  1. Tiago Velasco
    06/11/2008 às 13:40

    Pois é, já olhei várias vezes no dicionário o significado de “adjudicar”, mas não entra na minha cabeça.
    Em relação à probreza da língua, duplipensar, músicos escreverem errado… Já falamos sobre isso algumas vezes, acho. Na minha opinião, são coisas diferentes.
    Quando um garoto escreve de maneira errada na internet, ele está criandouma nova linguagem, mesmo que isso represente grafias erradas e diminuição de vocabulário. Há uma transformação nos vocábulos, o que, por si só, já é uma riqueza.
    Não acho que isso tenha nada a ver com duplipensar por uma questão simples: havia uma imposição de baixo pra cima, política, com o intuito de controle. Este “duplipensar” internético está sendo desenvolvido por quem utiliza a web, sem imposição alguma.
    Além do mais, pode representar as mudanças na língua, que é uma parada dinãmica: “vossa mercê”, “vosmecê”, “você”, “cê”. Perdeu letras, mas não empobreceu de maneira alguma.
    Quanto a escrever errado, isto é, de uma maneira que não condiz com o meio e com a finalidade. è claro que não apóio.
    abs


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06/11/2008 às 13:40

Músicos e jogadores de futebol

Adilson Pereira

Estava visitando o site de um artista. Música tocando. Som legal, até, aquele que rolava lá. Mas - programadores bobos, feios e maus - não dão ao visitante a chance de diminuir o volume ou desligar o player. A primeira sensação de incômodo veio daí. Mas não foi a pior. Chato mesmo foi perceber a completa ausência de vírgulas em lugares certos, desde o textinho de abertura até as entranhas da bio que revelava a riqueza da vida daquele produto, digo, artista. Havia também letras maiúsculas onde elas deveriam ser minúsculas mesmo, e construções que tornavam a leitura confusa, quase um desafio.

Lembro do Renato Russo: “Eu canto em português errado…” Ê, saudosismo… Se todos os erros fossem os da Legião Urbana. Não que eu queira um mundo intelectualizado, que se reafirme/transforme o tempo todo em mesas de bar da Zona Sul carioca.

Fico pensando se sou exigente demais, se esta história de escrever “corretamente” é coisa do passado e se estou apegado a este tal passado. Desconfio de mim, nestas horas. Será que sou um jornalista enraivecido por não ter recebido uns trocados para editar aquele texto? E me entristeço porque estes trocados não vieram para o meu bolso e tampouco para o de alguém que tem a mínima intimidade com o português. O português, aqui, gente, é a língua, ok?

Talvez os valores importantes, hoje, sejam outros. Talvez tenham a ver com a velocidade. É possível que passem pela capacidade de colocar uma página no ar, na rede mundial de computadores, mesmo que repleta de coisas escritas da maneira errada. Espera aí, melhor colocar entre aspas: “errada”. Vai ver que elas só estão erradas para mim, tipo um escravo da rigidez do português.

Eu com essa minha mania de ouvir coisas “diferentes” e “legais”, tentando me desapegar do costume de empilhar discos, me relacionando de forma mais “livre” com a música, fico incomodado com o tanto de incorreções - no que diz respeito à escrita - que observo no universo musical. Até onde eu sabia, jogador de futebol é que não falava direito. As piadas clássicas, com “fingi que ia e não fui mas acabei fondo”, estavam aí para provar. Neguinho da música sabia - pelo menos minimamente - escrever. Era o que parecia, para mim. Parece que eu estava errado.

Houve quem condenasse muito o funk carioca, por causa do tanto de “erros” que escorre e escorria das letras, tempos atrás. Esse funk se intelectualizou um pouco e, hoje, muitos erros são assim de propósito. Erros tipo exportação. E na época em que houve a condenação pela, digamos, falta de erudição do pobre compositor das classes baixas, alguns deles chegaram colocar em suas letras palavras que nem mesmo os eruditos deviam usar com freqüência. Até hoje, não sei o que é o “adjudicar” que surgiu numa música da dupla Claudinho e Buchecha, na época em que eu trabalhava num jornal “popular” e tinha que escrever sobre eles.

Não tenho dúvidas de que o meu incômodo é um tanto mais nobre. Vamos dizer que ele é nobre, isso mesmo, porque não estou preocupado em excluir das telas de TV gente assim ou assada. Minha preocupação é com a língua mesmo, com o empobrecimento e a pulverização do código que é usado para registrar/transmitir idéias.

Lembram de “1984″? Aquele livro do George Orwell… Não é lá que tem a história da “novilíngua”, de os caras simplificarem/reduzirem ao máximo a utilização e o registro de palavras? Faziam isso porque acreditavam que com menos palavras as pessoas reduziriam sua capacidade de se expressar e, assim, seriam controladas mais facilmente. Tudo bem que hoje tem a tal da internet para quem quer se expressar… O artista se expressa no You Tube, no My Space, no Orkut, no Multiply… Ah, não, o Multiply não colou, é verdade… Bom, há todos estes lugares para as pessoas se expressarem… …da maneira “errada”. Será que estou testemunhando um momento de evolução/transformação da novilíngua, isto é, da velha língua?

Do que adianta este leque enorme de sítios virtuais em que as pessoas podem se expressar se elas, hoje, atolaram num lamaçal que é a pobreza de vocabulário? Uma incapacidade assustadora de construir frases minimamente organizadas… Somos 40 milhões de usuários de computadores, ases na arte da utilização de teclas de atalho… Control-cê-control-vê… Veja você.

E, agora, com tanta música circulando por aí, a gente vai atrás de informações sobre os artistas que fazem estas pérolas e dá de cara com um festival de bizarrices escritas. Os caras que capturam o cotidiano, que animam nossos dias e noites com canções e riffs escrevem tudo errado, sem o menor compromisso com a correção. É isso mesmo?


Artigo, Crônicas


Uma resposta

  1. Tiago Velasco
    06/11/2008 às 13:40

    Pois é, já olhei várias vezes no dicionário o significado de “adjudicar”, mas não entra na minha cabeça.
    Em relação à probreza da língua, duplipensar, músicos escreverem errado… Já falamos sobre isso algumas vezes, acho. Na minha opinião, são coisas diferentes.
    Quando um garoto escreve de maneira errada na internet, ele está criandouma nova linguagem, mesmo que isso represente grafias erradas e diminuição de vocabulário. Há uma transformação nos vocábulos, o que, por si só, já é uma riqueza.
    Não acho que isso tenha nada a ver com duplipensar por uma questão simples: havia uma imposição de baixo pra cima, política, com o intuito de controle. Este “duplipensar” internético está sendo desenvolvido por quem utiliza a web, sem imposição alguma.
    Além do mais, pode representar as mudanças na língua, que é uma parada dinãmica: “vossa mercê”, “vosmecê”, “você”, “cê”. Perdeu letras, mas não empobreceu de maneira alguma.
    Quanto a escrever errado, isto é, de uma maneira que não condiz com o meio e com a finalidade. è claro que não apóio.
    abs


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06/11/2008 às 13:40

Músicos e jogadores de futebol

Adilson Pereira

Estava visitando o site de um artista. Música tocando. Som legal, até, aquele que rolava lá. Mas - programadores bobos, feios e maus - não dão ao visitante a chance de diminuir o volume ou desligar o player. A primeira sensação de incômodo veio daí. Mas não foi a pior. Chato mesmo foi perceber a completa ausência de vírgulas em lugares certos, desde o textinho de abertura até as entranhas da bio que revelava a riqueza da vida daquele produto, digo, artista. Havia também letras maiúsculas onde elas deveriam ser minúsculas mesmo, e construções que tornavam a leitura confusa, quase um desafio.

Lembro do Renato Russo: “Eu canto em português errado…” Ê, saudosismo… Se todos os erros fossem os da Legião Urbana. Não que eu queira um mundo intelectualizado, que se reafirme/transforme o tempo todo em mesas de bar da Zona Sul carioca.

Fico pensando se sou exigente demais, se esta história de escrever “corretamente” é coisa do passado e se estou apegado a este tal passado. Desconfio de mim, nestas horas. Será que sou um jornalista enraivecido por não ter recebido uns trocados para editar aquele texto? E me entristeço porque estes trocados não vieram para o meu bolso e tampouco para o de alguém que tem a mínima intimidade com o português. O português, aqui, gente, é a língua, ok?

Talvez os valores importantes, hoje, sejam outros. Talvez tenham a ver com a velocidade. É possível que passem pela capacidade de colocar uma página no ar, na rede mundial de computadores, mesmo que repleta de coisas escritas da maneira errada. Espera aí, melhor colocar entre aspas: “errada”. Vai ver que elas só estão erradas para mim, tipo um escravo da rigidez do português.

Eu com essa minha mania de ouvir coisas “diferentes” e “legais”, tentando me desapegar do costume de empilhar discos, me relacionando de forma mais “livre” com a música, fico incomodado com o tanto de incorreções - no que diz respeito à escrita - que observo no universo musical. Até onde eu sabia, jogador de futebol é que não falava direito. As piadas clássicas, com “fingi que ia e não fui mas acabei fondo”, estavam aí para provar. Neguinho da música sabia - pelo menos minimamente - escrever. Era o que parecia, para mim. Parece que eu estava errado.

Houve quem condenasse muito o funk carioca, por causa do tanto de “erros” que escorre e escorria das letras, tempos atrás. Esse funk se intelectualizou um pouco e, hoje, muitos erros são assim de propósito. Erros tipo exportação. E na época em que houve a condenação pela, digamos, falta de erudição do pobre compositor das classes baixas, alguns deles chegaram colocar em suas letras palavras que nem mesmo os eruditos deviam usar com freqüência. Até hoje, não sei o que é o “adjudicar” que surgiu numa música da dupla Claudinho e Buchecha, na época em que eu trabalhava num jornal “popular” e tinha que escrever sobre eles.

Não tenho dúvidas de que o meu incômodo é um tanto mais nobre. Vamos dizer que ele é nobre, isso mesmo, porque não estou preocupado em excluir das telas de TV gente assim ou assada. Minha preocupação é com a língua mesmo, com o empobrecimento e a pulverização do código que é usado para registrar/transmitir idéias.

Lembram de “1984″? Aquele livro do George Orwell… Não é lá que tem a história da “novilíngua”, de os caras simplificarem/reduzirem ao máximo a utilização e o registro de palavras? Faziam isso porque acreditavam que com menos palavras as pessoas reduziriam sua capacidade de se expressar e, assim, seriam controladas mais facilmente. Tudo bem que hoje tem a tal da internet para quem quer se expressar… O artista se expressa no You Tube, no My Space, no Orkut, no Multiply… Ah, não, o Multiply não colou, é verdade… Bom, há todos estes lugares para as pessoas se expressarem… …da maneira “errada”. Será que estou testemunhando um momento de evolução/transformação da novilíngua, isto é, da velha língua?

Do que adianta este leque enorme de sítios virtuais em que as pessoas podem se expressar se elas, hoje, atolaram num lamaçal que é a pobreza de vocabulário? Uma incapacidade assustadora de construir frases minimamente organizadas… Somos 40 milhões de usuários de computadores, ases na arte da utilização de teclas de atalho… Control-cê-control-vê… Veja você.

E, agora, com tanta música circulando por aí, a gente vai atrás de informações sobre os artistas que fazem estas pérolas e dá de cara com um festival de bizarrices escritas. Os caras que capturam o cotidiano, que animam nossos dias e noites com canções e riffs escrevem tudo errado, sem o menor compromisso com a correção. É isso mesmo?


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  1. Tiago Velasco
    06/11/2008 às 13:40

    Pois é, já olhei várias vezes no dicionário o significado de “adjudicar”, mas não entra na minha cabeça.
    Em relação à probreza da língua, duplipensar, músicos escreverem errado… Já falamos sobre isso algumas vezes, acho. Na minha opinião, são coisas diferentes.
    Quando um garoto escreve de maneira errada na internet, ele está criandouma nova linguagem, mesmo que isso represente grafias erradas e diminuição de vocabulário. Há uma transformação nos vocábulos, o que, por si só, já é uma riqueza.
    Não acho que isso tenha nada a ver com duplipensar por uma questão simples: havia uma imposição de baixo pra cima, política, com o intuito de controle. Este “duplipensar” internético está sendo desenvolvido por quem utiliza a web, sem imposição alguma.
    Além do mais, pode representar as mudanças na língua, que é uma parada dinãmica: “vossa mercê”, “vosmecê”, “você”, “cê”. Perdeu letras, mas não empobreceu de maneira alguma.
    Quanto a escrever errado, isto é, de uma maneira que não condiz com o meio e com a finalidade. è claro que não apóio.
    abs


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Músicos e jogadores de futebol

Adilson Pereira

Estava visitando o site de um artista. Música tocando. Som legal, até, aquele que rolava lá. Mas - programadores bobos, feios e maus - não dão ao visitante a chance de diminuir o volume ou desligar o player. A primeira sensação de incômodo veio daí. Mas não foi a pior. Chato mesmo foi perceber a completa ausência de vírgulas em lugares certos, desde o textinho de abertura até as entranhas da bio que revelava a riqueza da vida daquele produto, digo, artista. Havia também letras maiúsculas onde elas deveriam ser minúsculas mesmo, e construções que tornavam a leitura confusa, quase um desafio.

Lembro do Renato Russo: “Eu canto em português errado…” Ê, saudosismo… Se todos os erros fossem os da Legião Urbana. Não que eu queira um mundo intelectualizado, que se reafirme/transforme o tempo todo em mesas de bar da Zona Sul carioca.

Fico pensando se sou exigente demais, se esta história de escrever “corretamente” é coisa do passado e se estou apegado a este tal passado. Desconfio de mim, nestas horas. Será que sou um jornalista enraivecido por não ter recebido uns trocados para editar aquele texto? E me entristeço porque estes trocados não vieram para o meu bolso e tampouco para o de alguém que tem a mínima intimidade com o português. O português, aqui, gente, é a língua, ok?

Talvez os valores importantes, hoje, sejam outros. Talvez tenham a ver com a velocidade. É possível que passem pela capacidade de colocar uma página no ar, na rede mundial de computadores, mesmo que repleta de coisas escritas da maneira errada. Espera aí, melhor colocar entre aspas: “errada”. Vai ver que elas só estão erradas para mim, tipo um escravo da rigidez do português.

Eu com essa minha mania de ouvir coisas “diferentes” e “legais”, tentando me desapegar do costume de empilhar discos, me relacionando de forma mais “livre” com a música, fico incomodado com o tanto de incorreções - no que diz respeito à escrita - que observo no universo musical. Até onde eu sabia, jogador de futebol é que não falava direito. As piadas clássicas, com “fingi que ia e não fui mas acabei fondo”, estavam aí para provar. Neguinho da música sabia - pelo menos minimamente - escrever. Era o que parecia, para mim. Parece que eu estava errado.

Houve quem condenasse muito o funk carioca, por causa do tanto de “erros” que escorre e escorria das letras, tempos atrás. Esse funk se intelectualizou um pouco e, hoje, muitos erros são assim de propósito. Erros tipo exportação. E na época em que houve a condenação pela, digamos, falta de erudição do pobre compositor das classes baixas, alguns deles chegaram colocar em suas letras palavras que nem mesmo os eruditos deviam usar com freqüência. Até hoje, não sei o que é o “adjudicar” que surgiu numa música da dupla Claudinho e Buchecha, na época em que eu trabalhava num jornal “popular” e tinha que escrever sobre eles.

Não tenho dúvidas de que o meu incômodo é um tanto mais nobre. Vamos dizer que ele é nobre, isso mesmo, porque não estou preocupado em excluir das telas de TV gente assim ou assada. Minha preocupação é com a língua mesmo, com o empobrecimento e a pulverização do código que é usado para registrar/transmitir idéias.

Lembram de “1984″? Aquele livro do George Orwell… Não é lá que tem a história da “novilíngua”, de os caras simplificarem/reduzirem ao máximo a utilização e o registro de palavras? Faziam isso porque acreditavam que com menos palavras as pessoas reduziriam sua capacidade de se expressar e, assim, seriam controladas mais facilmente. Tudo bem que hoje tem a tal da internet para quem quer se expressar… O artista se expressa no You Tube, no My Space, no Orkut, no Multiply… Ah, não, o Multiply não colou, é verdade… Bom, há todos estes lugares para as pessoas se expressarem… …da maneira “errada”. Será que estou testemunhando um momento de evolução/transformação da novilíngua, isto é, da velha língua?

Do que adianta este leque enorme de sítios virtuais em que as pessoas podem se expressar se elas, hoje, atolaram num lamaçal que é a pobreza de vocabulário? Uma incapacidade assustadora de construir frases minimamente organizadas… Somos 40 milhões de usuários de computadores, ases na arte da utilização de teclas de atalho… Control-cê-control-vê… Veja você.

E, agora, com tanta música circulando por aí, a gente vai atrás de informações sobre os artistas que fazem estas pérolas e dá de cara com um festival de bizarrices escritas. Os caras que capturam o cotidiano, que animam nossos dias e noites com canções e riffs escrevem tudo errado, sem o menor compromisso com a correção. É isso mesmo?


Artigo, Crônicas


Uma resposta

  1. Tiago Velasco
    06/11/2008 às 13:40

    Pois é, já olhei várias vezes no dicionário o significado de “adjudicar”, mas não entra na minha cabeça.
    Em relação à probreza da língua, duplipensar, músicos escreverem errado… Já falamos sobre isso algumas vezes, acho. Na minha opinião, são coisas diferentes.
    Quando um garoto escreve de maneira errada na internet, ele está criandouma nova linguagem, mesmo que isso represente grafias erradas e diminuição de vocabulário. Há uma transformação nos vocábulos, o que, por si só, já é uma riqueza.
    Não acho que isso tenha nada a ver com duplipensar por uma questão simples: havia uma imposição de baixo pra cima, política, com o intuito de controle. Este “duplipensar” internético está sendo desenvolvido por quem utiliza a web, sem imposição alguma.
    Além do mais, pode representar as mudanças na língua, que é uma parada dinãmica: “vossa mercê”, “vosmecê”, “você”, “cê”. Perdeu letras, mas não empobreceu de maneira alguma.
    Quanto a escrever errado, isto é, de uma maneira que não condiz com o meio e com a finalidade. è claro que não apóio.
    abs


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06/11/2008 às 13:40

Músicos e jogadores de futebol

Adilson Pereira

Estava visitando o site de um artista. Música tocando. Som legal, até, aquele que rolava lá. Mas - programadores bobos, feios e maus - não dão ao visitante a chance de diminuir o volume ou desligar o player. A primeira sensação de incômodo veio daí. Mas não foi a pior. Chato mesmo foi perceber a completa ausência de vírgulas em lugares certos, desde o textinho de abertura até as entranhas da bio que revelava a riqueza da vida daquele produto, digo, artista. Havia também letras maiúsculas onde elas deveriam ser minúsculas mesmo, e construções que tornavam a leitura confusa, quase um desafio.

Lembro do Renato Russo: “Eu canto em português errado…” Ê, saudosismo… Se todos os erros fossem os da Legião Urbana. Não que eu queira um mundo intelectualizado, que se reafirme/transforme o tempo todo em mesas de bar da Zona Sul carioca.

Fico pensando se sou exigente demais, se esta história de escrever “corretamente” é coisa do passado e se estou apegado a este tal passado. Desconfio de mim, nestas horas. Será que sou um jornalista enraivecido por não ter recebido uns trocados para editar aquele texto? E me entristeço porque estes trocados não vieram para o meu bolso e tampouco para o de alguém que tem a mínima intimidade com o português. O português, aqui, gente, é a língua, ok?

Talvez os valores importantes, hoje, sejam outros. Talvez tenham a ver com a velocidade. É possível que passem pela capacidade de colocar uma página no ar, na rede mundial de computadores, mesmo que repleta de coisas escritas da maneira errada. Espera aí, melhor colocar entre aspas: “errada”. Vai ver que elas só estão erradas para mim, tipo um escravo da rigidez do português.

Eu com essa minha mania de ouvir coisas “diferentes” e “legais”, tentando me desapegar do costume de empilhar discos, me relacionando de forma mais “livre” com a música, fico incomodado com o tanto de incorreções - no que diz respeito à escrita - que observo no universo musical. Até onde eu sabia, jogador de futebol é que não falava direito. As piadas clássicas, com “fingi que ia e não fui mas acabei fondo”, estavam aí para provar. Neguinho da música sabia - pelo menos minimamente - escrever. Era o que parecia, para mim. Parece que eu estava errado.

Houve quem condenasse muito o funk carioca, por causa do tanto de “erros” que escorre e escorria das letras, tempos atrás. Esse funk se intelectualizou um pouco e, hoje, muitos erros são assim de propósito. Erros tipo exportação. E na época em que houve a condenação pela, digamos, falta de erudição do pobre compositor das classes baixas, alguns deles chegaram colocar em suas letras palavras que nem mesmo os eruditos deviam usar com freqüência. Até hoje, não sei o que é o “adjudicar” que surgiu numa música da dupla Claudinho e Buchecha, na época em que eu trabalhava num jornal “popular” e tinha que escrever sobre eles.

Não tenho dúvidas de que o meu incômodo é um tanto mais nobre. Vamos dizer que ele é nobre, isso mesmo, porque não estou preocupado em excluir das telas de TV gente assim ou assada. Minha preocupação é com a língua mesmo, com o empobrecimento e a pulverização do código que é usado para registrar/transmitir idéias.

Lembram de “1984″? Aquele livro do George Orwell… Não é lá que tem a história da “novilíngua”, de os caras simplificarem/reduzirem ao máximo a utilização e o registro de palavras? Faziam isso porque acreditavam que com menos palavras as pessoas reduziriam sua capacidade de se expressar e, assim, seriam controladas mais facilmente. Tudo bem que hoje tem a tal da internet para quem quer se expressar… O artista se expressa no You Tube, no My Space, no Orkut, no Multiply… Ah, não, o Multiply não colou, é verdade… Bom, há todos estes lugares para as pessoas se expressarem… …da maneira “errada”. Será que estou testemunhando um momento de evolução/transformação da novilíngua, isto é, da velha língua?

Do que adianta este leque enorme de sítios virtuais em que as pessoas podem se expressar se elas, hoje, atolaram num lamaçal que é a pobreza de vocabulário? Uma incapacidade assustadora de construir frases minimamente organizadas… Somos 40 milhões de usuários de computadores, ases na arte da utilização de teclas de atalho… Control-cê-control-vê… Veja você.

E, agora, com tanta música circulando por aí, a gente vai atrás de informações sobre os artistas que fazem estas pérolas e dá de cara com um festival de bizarrices escritas. Os caras que capturam o cotidiano, que animam nossos dias e noites com canções e riffs escrevem tudo errado, sem o menor compromisso com a correção. É isso mesmo?


Artigo, Crônicas


Uma resposta

  1. Tiago Velasco
    06/11/2008 às 13:40

    Pois é, já olhei várias vezes no dicionário o significado de “adjudicar”, mas não entra na minha cabeça.
    Em relação à probreza da língua, duplipensar, músicos escreverem errado… Já falamos sobre isso algumas vezes, acho. Na minha opinião, são coisas diferentes.
    Quando um garoto escreve de maneira errada na internet, ele está criandouma nova linguagem, mesmo que isso represente grafias erradas e diminuição de vocabulário. Há uma transformação nos vocábulos, o que, por si só, já é uma riqueza.
    Não acho que isso tenha nada a ver com duplipensar por uma questão simples: havia uma imposição de baixo pra cima, política, com o intuito de controle. Este “duplipensar” internético está sendo desenvolvido por quem utiliza a web, sem imposição alguma.
    Além do mais, pode representar as mudanças na língua, que é uma parada dinãmica: “vossa mercê”, “vosmecê”, “você”, “cê”. Perdeu letras, mas não empobreceu de maneira alguma.
    Quanto a escrever errado, isto é, de uma maneira que não condiz com o meio e com a finalidade. è claro que não apóio.
    abs


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06/11/2008 às 13:40

Músicos e jogadores de futebol

Adilson Pereira

Estava visitando o site de um artista. Música tocando. Som legal, até, aquele que rolava lá. Mas - programadores bobos, feios e maus - não dão ao visitante a chance de diminuir o volume ou desligar o player. A primeira sensação de incômodo veio daí. Mas não foi a pior. Chato mesmo foi perceber a completa ausência de vírgulas em lugares certos, desde o textinho de abertura até as entranhas da bio que revelava a riqueza da vida daquele produto, digo, artista. Havia também letras maiúsculas onde elas deveriam ser minúsculas mesmo, e construções que tornavam a leitura confusa, quase um desafio.

Lembro do Renato Russo: “Eu canto em português errado…” Ê, saudosismo… Se todos os erros fossem os da Legião Urbana. Não que eu queira um mundo intelectualizado, que se reafirme/transforme o tempo todo em mesas de bar da Zona Sul carioca.

Fico pensando se sou exigente demais, se esta história de escrever “corretamente” é coisa do passado e se estou apegado a este tal passado. Desconfio de mim, nestas horas. Será que sou um jornalista enraivecido por não ter recebido uns trocados para editar aquele texto? E me entristeço porque estes trocados não vieram para o meu bolso e tampouco para o de alguém que tem a mínima intimidade com o português. O português, aqui, gente, é a língua, ok?

Talvez os valores importantes, hoje, sejam outros. Talvez tenham a ver com a velocidade. É possível que passem pela capacidade de colocar uma página no ar, na rede mundial de computadores, mesmo que repleta de coisas escritas da maneira errada. Espera aí, melhor colocar entre aspas: “errada”. Vai ver que elas só estão erradas para mim, tipo um escravo da rigidez do português.

Eu com essa minha mania de ouvir coisas “diferentes” e “legais”, tentando me desapegar do costume de empilhar discos, me relacionando de forma mais “livre” com a música, fico incomodado com o tanto de incorreções - no que diz respeito à escrita - que observo no universo musical. Até onde eu sabia, jogador de futebol é que não falava direito. As piadas clássicas, com “fingi que ia e não fui mas acabei fondo”, estavam aí para provar. Neguinho da música sabia - pelo menos minimamente - escrever. Era o que parecia, para mim. Parece que eu estava errado.

Houve quem condenasse muito o funk carioca, por causa do tanto de “erros” que escorre e escorria das letras, tempos atrás. Esse funk se intelectualizou um pouco e, hoje, muitos erros são assim de propósito. Erros tipo exportação. E na época em que houve a condenação pela, digamos, falta de erudição do pobre compositor das classes baixas, alguns deles chegaram colocar em suas letras palavras que nem mesmo os eruditos deviam usar com freqüência. Até hoje, não sei o que é o “adjudicar” que surgiu numa música da dupla Claudinho e Buchecha, na época em que eu trabalhava num jornal “popular” e tinha que escrever sobre eles.

Não tenho dúvidas de que o meu incômodo é um tanto mais nobre. Vamos dizer que ele é nobre, isso mesmo, porque não estou preocupado em excluir das telas de TV gente assim ou assada. Minha preocupação é com a língua mesmo, com o empobrecimento e a pulverização do código que é usado para registrar/transmitir idéias.

Lembram de “1984″? Aquele livro do George Orwell… Não é lá que tem a história da “novilíngua”, de os caras simplificarem/reduzirem ao máximo a utilização e o registro de palavras? Faziam isso porque acreditavam que com menos palavras as pessoas reduziriam sua capacidade de se expressar e, assim, seriam controladas mais facilmente. Tudo bem que hoje tem a tal da internet para quem quer se expressar… O artista se expressa no You Tube, no My Space, no Orkut, no Multiply… Ah, não, o Multiply não colou, é verdade… Bom, há todos estes lugares para as pessoas se expressarem… …da maneira “errada”. Será que estou testemunhando um momento de evolução/transformação da novilíngua, isto é, da velha língua?

Do que adianta este leque enorme de sítios virtuais em que as pessoas podem se expressar se elas, hoje, atolaram num lamaçal que é a pobreza de vocabulário? Uma incapacidade assustadora de construir frases minimamente organizadas… Somos 40 milhões de usuários de computadores, ases na arte da utilização de teclas de atalho… Control-cê-control-vê… Veja você.

E, agora, com tanta música circulando por aí, a gente vai atrás de informações sobre os artistas que fazem estas pérolas e dá de cara com um festival de bizarrices escritas. Os caras que capturam o cotidiano, que animam nossos dias e noites com canções e riffs escrevem tudo errado, sem o menor compromisso com a correção. É isso mesmo?


Artigo, Crônicas


Uma resposta

  1. Tiago Velasco
    06/11/2008 às 13:40

    Pois é, já olhei várias vezes no dicionário o significado de “adjudicar”, mas não entra na minha cabeça.
    Em relação à probreza da língua, duplipensar, músicos escreverem errado… Já falamos sobre isso algumas vezes, acho. Na minha opinião, são coisas diferentes.
    Quando um garoto escreve de maneira errada na internet, ele está criandouma nova linguagem, mesmo que isso represente grafias erradas e diminuição de vocabulário. Há uma transformação nos vocábulos, o que, por si só, já é uma riqueza.
    Não acho que isso tenha nada a ver com duplipensar por uma questão simples: havia uma imposição de baixo pra cima, política, com o intuito de controle. Este “duplipensar” internético está sendo desenvolvido por quem utiliza a web, sem imposição alguma.
    Além do mais, pode representar as mudanças na língua, que é uma parada dinãmica: “vossa mercê”, “vosmecê”, “você”, “cê”. Perdeu letras, mas não empobreceu de maneira alguma.
    Quanto a escrever errado, isto é, de uma maneira que não condiz com o meio e com a finalidade. è claro que não apóio.
    abs


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06/11/2008 às 13:40

Músicos e jogadores de futebol

Adilson Pereira

Estava visitando o site de um artista. Música tocando. Som legal, até, aquele que rolava lá. Mas - programadores bobos, feios e maus - não dão ao visitante a chance de diminuir o volume ou desligar o player. A primeira sensação de incômodo veio daí. Mas não foi a pior. Chato mesmo foi perceber a completa ausência de vírgulas em lugares certos, desde o textinho de abertura até as entranhas da bio que revelava a riqueza da vida daquele produto, digo, artista. Havia também letras maiúsculas onde elas deveriam ser minúsculas mesmo, e construções que tornavam a leitura confusa, quase um desafio.

Lembro do Renato Russo: “Eu canto em português errado…” Ê, saudosismo… Se todos os erros fossem os da Legião Urbana. Não que eu queira um mundo intelectualizado, que se reafirme/transforme o tempo todo em mesas de bar da Zona Sul carioca.

Fico pensando se sou exigente demais, se esta história de escrever “corretamente” é coisa do passado e se estou apegado a este tal passado. Desconfio de mim, nestas horas. Será que sou um jornalista enraivecido por não ter recebido uns trocados para editar aquele texto? E me entristeço porque estes trocados não vieram para o meu bolso e tampouco para o de alguém que tem a mínima intimidade com o português. O português, aqui, gente, é a língua, ok?

Talvez os valores importantes, hoje, sejam outros. Talvez tenham a ver com a velocidade. É possível que passem pela capacidade de colocar uma página no ar, na rede mundial de computadores, mesmo que repleta de coisas escritas da maneira errada. Espera aí, melhor colocar entre aspas: “errada”. Vai ver que elas só estão erradas para mim, tipo um escravo da rigidez do português.

Eu com essa minha mania de ouvir coisas “diferentes” e “legais”, tentando me desapegar do costume de empilhar discos, me relacionando de forma mais “livre” com a música, fico incomodado com o tanto de incorreções - no que diz respeito à escrita - que observo no universo musical. Até onde eu sabia, jogador de futebol é que não falava direito. As piadas clássicas, com “fingi que ia e não fui mas acabei fondo”, estavam aí para provar. Neguinho da música sabia - pelo menos minimamente - escrever. Era o que parecia, para mim. Parece que eu estava errado.

Houve quem condenasse muito o funk carioca, por causa do tanto de “erros” que escorre e escorria das letras, tempos atrás. Esse funk se intelectualizou um pouco e, hoje, muitos erros são assim de propósito. Erros tipo exportação. E na época em que houve a condenação pela, digamos, falta de erudição do pobre compositor das classes baixas, alguns deles chegaram colocar em suas letras palavras que nem mesmo os eruditos deviam usar com freqüência. Até hoje, não sei o que é o “adjudicar” que surgiu numa música da dupla Claudinho e Buchecha, na época em que eu trabalhava num jornal “popular” e tinha que escrever sobre eles.

Não tenho dúvidas de que o meu incômodo é um tanto mais nobre. Vamos dizer que ele é nobre, isso mesmo, porque não estou preocupado em excluir das telas de TV gente assim ou assada. Minha preocupação é com a língua mesmo, com o empobrecimento e a pulverização do código que é usado para registrar/transmitir idéias.

Lembram de “1984″? Aquele livro do George Orwell… Não é lá que tem a história da “novilíngua”, de os caras simplificarem/reduzirem ao máximo a utilização e o registro de palavras? Faziam isso porque acreditavam que com menos palavras as pessoas reduziriam sua capacidade de se expressar e, assim, seriam controladas mais facilmente. Tudo bem que hoje tem a tal da internet para quem quer se expressar… O artista se expressa no You Tube, no My Space, no Orkut, no Multiply… Ah, não, o Multiply não colou, é verdade… Bom, há todos estes lugares para as pessoas se expressarem… …da maneira “errada”. Será que estou testemunhando um momento de evolução/transformação da novilíngua, isto é, da velha língua?

Do que adianta este leque enorme de sítios virtuais em que as pessoas podem se expressar se elas, hoje, atolaram num lamaçal que é a pobreza de vocabulário? Uma incapacidade assustadora de construir frases minimamente organizadas… Somos 40 milhões de usuários de computadores, ases na arte da utilização de teclas de atalho… Control-cê-control-vê… Veja você.

E, agora, com tanta música circulando por aí, a gente vai atrás de informações sobre os artistas que fazem estas pérolas e dá de cara com um festival de bizarrices escritas. Os caras que capturam o cotidiano, que animam nossos dias e noites com canções e riffs escrevem tudo errado, sem o menor compromisso com a correção. É isso mesmo?


Artigo, Crônicas


Uma resposta

  1. Tiago Velasco
    06/11/2008 às 13:40

    Pois é, já olhei várias vezes no dicionário o significado de “adjudicar”, mas não entra na minha cabeça.
    Em relação à probreza da língua, duplipensar, músicos escreverem errado… Já falamos sobre isso algumas vezes, acho. Na minha opinião, são coisas diferentes.
    Quando um garoto escreve de maneira errada na internet, ele está criandouma nova linguagem, mesmo que isso represente grafias erradas e diminuição de vocabulário. Há uma transformação nos vocábulos, o que, por si só, já é uma riqueza.
    Não acho que isso tenha nada a ver com duplipensar por uma questão simples: havia uma imposição de baixo pra cima, política, com o intuito de controle. Este “duplipensar” internético está sendo desenvolvido por quem utiliza a web, sem imposição alguma.
    Além do mais, pode representar as mudanças na língua, que é uma parada dinãmica: “vossa mercê”, “vosmecê”, “você”, “cê”. Perdeu letras, mas não empobreceu de maneira alguma.
    Quanto a escrever errado, isto é, de uma maneira que não condiz com o meio e com a finalidade. è claro que não apóio.
    abs


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06/11/2008 às 13:40

Músicos e jogadores de futebol

Adilson Pereira

Estava visitando o site de um artista. Música tocando. Som legal, até, aquele que rolava lá. Mas - programadores bobos, feios e maus - não dão ao visitante a chance de diminuir o volume ou desligar o player. A primeira sensação de incômodo veio daí. Mas não foi a pior. Chato mesmo foi perceber a completa ausência de vírgulas em lugares certos, desde o textinho de abertura até as entranhas da bio que revelava a riqueza da vida daquele produto, digo, artista. Havia também letras maiúsculas onde elas deveriam ser minúsculas mesmo, e construções que tornavam a leitura confusa, quase um desafio.

Lembro do Renato Russo: “Eu canto em português errado…” Ê, saudosismo… Se todos os erros fossem os da Legião Urbana. Não que eu queira um mundo intelectualizado, que se reafirme/transforme o tempo todo em mesas de bar da Zona Sul carioca.

Fico pensando se sou exigente demais, se esta história de escrever “corretamente” é coisa do passado e se estou apegado a este tal passado. Desconfio de mim, nestas horas. Será que sou um jornalista enraivecido por não ter recebido uns trocados para editar aquele texto? E me entristeço porque estes trocados não vieram para o meu bolso e tampouco para o de alguém que tem a mínima intimidade com o português. O português, aqui, gente, é a língua, ok?

Talvez os valores importantes, hoje, sejam outros. Talvez tenham a ver com a velocidade. É possível que passem pela capacidade de colocar uma página no ar, na rede mundial de computadores, mesmo que repleta de coisas escritas da maneira errada. Espera aí, melhor colocar entre aspas: “errada”. Vai ver que elas só estão erradas para mim, tipo um escravo da rigidez do português.

Eu com essa minha mania de ouvir coisas “diferentes” e “legais”, tentando me desapegar do costume de empilhar discos, me relacionando de forma mais “livre” com a música, fico incomodado com o tanto de incorreções - no que diz respeito à escrita - que observo no universo musical. Até onde eu sabia, jogador de futebol é que não falava direito. As piadas clássicas, com “fingi que ia e não fui mas acabei fondo”, estavam aí para provar. Neguinho da música sabia - pelo menos minimamente - escrever. Era o que parecia, para mim. Parece que eu estava errado.

Houve quem condenasse muito o funk carioca, por causa do tanto de “erros” que escorre e escorria das letras, tempos atrás. Esse funk se intelectualizou um pouco e, hoje, muitos erros são assim de propósito. Erros tipo exportação. E na época em que houve a condenação pela, digamos, falta de erudição do pobre compositor das classes baixas, alguns deles chegaram colocar em suas letras palavras que nem mesmo os eruditos deviam usar com freqüência. Até hoje, não sei o que é o “adjudicar” que surgiu numa música da dupla Claudinho e Buchecha, na época em que eu trabalhava num jornal “popular” e tinha que escrever sobre eles.

Não tenho dúvidas de que o meu incômodo é um tanto mais nobre. Vamos dizer que ele é nobre, isso mesmo, porque não estou preocupado em excluir das telas de TV gente assim ou assada. Minha preocupação é com a língua mesmo, com o empobrecimento e a pulverização do código que é usado para registrar/transmitir idéias.

Lembram de “1984″? Aquele livro do George Orwell… Não é lá que tem a história da “novilíngua”, de os caras simplificarem/reduzirem ao máximo a utilização e o registro de palavras? Faziam isso porque acreditavam que com menos palavras as pessoas reduziriam sua capacidade de se expressar e, assim, seriam controladas mais facilmente. Tudo bem que hoje tem a tal da internet para quem quer se expressar… O artista se expressa no You Tube, no My Space, no Orkut, no Multiply… Ah, não, o Multiply não colou, é verdade… Bom, há todos estes lugares para as pessoas se expressarem… …da maneira “errada”. Será que estou testemunhando um momento de evolução/transformação da novilíngua, isto é, da velha língua?

Do que adianta este leque enorme de sítios virtuais em que as pessoas podem se expressar se elas, hoje, atolaram num lamaçal que é a pobreza de vocabulário? Uma incapacidade assustadora de construir frases minimamente organizadas… Somos 40 milhões de usuários de computadores, ases na arte da utilização de teclas de atalho… Control-cê-control-vê… Veja você.

E, agora, com tanta música circulando por aí, a gente vai atrás de informações sobre os artistas que fazem estas pérolas e dá de cara com um festival de bizarrices escritas. Os caras que capturam o cotidiano, que animam nossos dias e noites com canções e riffs escrevem tudo errado, sem o menor compromisso com a correção. É isso mesmo?


Artigo, Crônicas


Uma resposta

  1. Tiago Velasco
    06/11/2008 às 13:40

    Pois é, já olhei várias vezes no dicionário o significado de “adjudicar”, mas não entra na minha cabeça.
    Em relação à probreza da língua, duplipensar, músicos escreverem errado… Já falamos sobre isso algumas vezes, acho. Na minha opinião, são coisas diferentes.
    Quando um garoto escreve de maneira errada na internet, ele está criandouma nova linguagem, mesmo que isso represente grafias erradas e diminuição de vocabulário. Há uma transformação nos vocábulos, o que, por si só, já é uma riqueza.
    Não acho que isso tenha nada a ver com duplipensar por uma questão simples: havia uma imposição de baixo pra cima, política, com o intuito de controle. Este “duplipensar” internético está sendo desenvolvido por quem utiliza a web, sem imposição alguma.
    Além do mais, pode representar as mudanças na língua, que é uma parada dinãmica: “vossa mercê”, “vosmecê”, “você”, “cê”. Perdeu letras, mas não empobreceu de maneira alguma.
    Quanto a escrever errado, isto é, de uma maneira que não condiz com o meio e com a finalidade. è claro que não apóio.
    abs


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06/11/2008 às 13:40

Músicos e jogadores de futebol

Adilson Pereira

Estava visitando o site de um artista. Música tocando. Som legal, até, aquele que rolava lá. Mas - programadores bobos, feios e maus - não dão ao visitante a chance de diminuir o volume ou desligar o player. A primeira sensação de incômodo veio daí. Mas não foi a pior. Chato mesmo foi perceber a completa ausência de vírgulas em lugares certos, desde o textinho de abertura até as entranhas da bio que revelava a riqueza da vida daquele produto, digo, artista. Havia também letras maiúsculas onde elas deveriam ser minúsculas mesmo, e construções que tornavam a leitura confusa, quase um desafio.

Lembro do Renato Russo: “Eu canto em português errado…” Ê, saudosismo… Se todos os erros fossem os da Legião Urbana. Não que eu queira um mundo intelectualizado, que se reafirme/transforme o tempo todo em mesas de bar da Zona Sul carioca.

Fico pensando se sou exigente demais, se esta história de escrever “corretamente” é coisa do passado e se estou apegado a este tal passado. Desconfio de mim, nestas horas. Será que sou um jornalista enraivecido por não ter recebido uns trocados para editar aquele texto? E me entristeço porque estes trocados não vieram para o meu bolso e tampouco para o de alguém que tem a mínima intimidade com o português. O português, aqui, gente, é a língua, ok?

Talvez os valores importantes, hoje, sejam outros. Talvez tenham a ver com a velocidade. É possível que passem pela capacidade de colocar uma página no ar, na rede mundial de computadores, mesmo que repleta de coisas escritas da maneira errada. Espera a