13/11/2008 às 17:06

Tiago Velasco lança seu primeiro livro e diz que é “meio autista ao escutar música”

Adilson Pereira

Sempre que você vir alguma referência a “amigos desta página”, esteja certo de que entre eles pode estar o Tiago Velasco. Fã de Ramones, Buzzcocks, Canastra e Do Amor, ele é daquele tipo que, OK, dá um boi para não entrar numa discussão. Mas… Com ele não tem a história de dar uma boiada para não sair. Ele não sai. Simplesmente, não sai. Velasco, figurinha fácil em bons shows e bons botecos do Rio de Janeiro, é um sujeito com quem dá prazer de conversar porque ele mergulha nos assuntos. Te ensina sobre economia, se for o caso. E não desiste de dizer que aquele timinho, o Flamengo, é algo verdadeiramente divertido e apaixonante. No jornalismo, já provou sua eficiência e sensibilidade colaborando com diversas publicações e sites. Na ficção, estréia agora com um livro que revela - como ele mesmo diz, na entrevista abaixo - um pouco do seu universo. “Prazer da carne” será lançado em 25 de novembro.

1 - Bicho, você é jornalista. Tem que parar para pensar muito na hora de separar o jeito como se escreve ficção do jeito como se escreve “realidade”?
Não. Para mim, a diferença no estilo é bem clara. Na ficção, acho que desenvolvi um estilo, não sei se próprio, mas um estilo. Então, quando penso em escrever ficção, já penso no texto dessa forma que gosto de escrever, em geral bastante seca, às vezes, telegráfica até.
No jornalismo, por mais que eu tenha trabalhado em grande parte das vezes com música/cultura, que te permite um texto mais solto, eu tento obedecer uma certa regra, com os assuntos mais importantes no início do texto. Além disso, tem as entrevistas, as aspas dos personagens das matérias, que te dão um norte. Mas, talvez por eu ter afinidade com a narrativa de ficção, eu imprima um jeito meu de escrever às matérias.
Falando sobre jornalismo e ficção, me lembrei que nos Estados Unidos ambos são chamados de escritores. Talvez seja por aí, vai depender mais de quem escreve e do veículo para que se escreve.

2 - Escrever sobre música é um flerte constante com a literatura, isto é, com o exercício de escrever sobre ficção?
Como eu falei antes, escrever em uma editoria de música/cultura permite que você exercite seu estilo nas matérias. No meu caso, então, que escrevi em revistas, que já te dão mais liberdade porque o texto é naturalmente maior, e de música independente, esse exercício estilístico é até estimulado. Para mim, é ótimo, porque o trabalho sai do automático e entra em um campo criativo. Agora, quando você escreve em uma editoria mais “séria”, acho que o texto fica mais duro e objetivo, bem ao estilo dos manuais de redação.

3 - Lembro de ter lido, talvez uma página de Orkut, que você era “candidato a vagabundo”. As palavras eram suas mesmo. Era algo tipo você querer viver de escrever, mergulhando naquele modelo, digamos, romântico do sujeito que vive de contar histórias. Essa vontade, de ser “vagabundo”, ainda existe?
É, a frase está no meu perfil no Orkut.
Eu ainda não estou certo de que gosto de trabalhar. Quando eu falo de trabalhar, falo em algo que é feito com horário, disciplina, rotineiramente… Não sei se gosto disso, mas estou habituado e não vejo alternativa a esse modo de viver - só seu eu ganhar na megasena.
Sobre a visão romântica do escritor meio vagabundo… Talvez tenha a ver, sim. Quando escrevi isso, eu podia mesmo ter pensado num jeito Bukowski de viver. Não tenho mais o menor interesse em ser como o Bukowski, mas aquela aparente liberdade dele, em alguma época, já me atraiu bastante. Fora os relatos do Kerouac, com “On the road”, e do Fante, em “Pergunte ao pó” e “Sonhos de Bunker Hill”.

4 - Hoje você anda às voltas com “web-writting”, certo? A despeito das irritações que termos assim causam em determinadas pessoas, há algo de interessante no conceito disso aí. Tem a ver com uma nova maneira de escrever, imagino. Mais uma maneira na qual se pensar. No fundo, encarar a escrita como uma coisa só não facilitaria as coisas?
Estou escrevendo para um portal. Não vejo como estilo novo de escrita, a não ser que escrever menos e botar links ao logo do texto e vídeos do YouTube represente uma nova escrita. Não creio. Talvez seja uma nova forma de jornalismo, já que a internet é uma mídia audiovisual. Então, temos o texto escrito, mas temos que pensar sempre como ilustrá-lo. Como ele permite vídeos, se ater às fotografias empobrece o conteúdo. A grande diferença é que o repórter trabalha, de certa forma, também como editor, além de ele precisar ter alguns outros conhecimentos, como tratamento de fotografia e algo de html.
Essas mudanças na forma de atuar e a exigência de novos conhecimentos técnicos podem encher um pouco a paciência. Como você mesmo disse, se encararmos tudo como um trabalho de escrita, talvez tudo fique mais fácil. O que acontece é que esse dia-a-dia nem sempre é interessante. E o fato de o texto ser muito curto facilita aquilo que falei anteriormente, de escrever de forma automática.

5 - Fala aí do livro. Eu já li umas coisas. Mas é bom que você mesmo conte aos leitores do “Sambapunk”.
“Prazer da carne” é um livro de contos, com textos que venho fazendo desde 2002. O nome do livro foi tirado do conto de abertura. É difícil falar do livro. Por ser de contos, não há tanto uma unidade. Depois, é difícil falar sobre algo que você mesmo fez. Falta um distanciamento crítico para isso.
Mas vou tentar: grande parte das histórias apresentadas é de situações que poderiam ser reais, mas são elevadas ao nível do absurdo. Assim, há textos que flertam com o surrealismo e com realismo fantástico. Geralmente, os temas são tratados por meio de uma narrativa seca, bastante enxuta mesmo. A ironia e o cinismo estão bastante presentes. Gosto da idéia de fazer um texto em que não há um julgamento de valor sobre a situação narrada, por mais esdrúxula que ela possa ser. Isso não quer dizer que não haja uma intenção crítica. Sim, há.
Assim, um mendigo se mutila e come o próprio corpo para ganhar esmolas maiores, um garoto sem dinheiro vende a avó na feira de antigüidades, pessoas vão relaxar em um centro de entretenimento em que a diversão é matar crianças pobres, um rapaz fica preso em um engarrafamento durante dias e não faz nada, nem sai do carro com medo de o tráfego começar a andar… Mas há também aqueles textos mais leves, despretensiosos, que servem de contraponto às atrocidades. Nesses casos, até a minha forma de narrar muda, dando espaço para uma prolixidade cativante.

6 - O próximo passo é um romance?
Não sei. O mercado aceita mais um romance do que contos, mas ainda não me sinto preparado e nem tenho idéias para isso. Gosto muito de contos. Varias vezes prefiro ler contos de grandes escritores a seus romances. O conto, por ser curto, apresenta a idéia de cara, de forma crua, o impacto é instantâneo. Gosto dessa possibilidade de afetar o leitor rapidamente. Sem falar que acho o ato de escrever contos muito contemporâneo: a idéia da coisa curta, rápida, fragmentada, direta me parece perfeitamente integrada no mundo em que vivemos, de internet e milhões de janelas, informações de tudo o quanto é canto…

7 - E a relação com o jornalismo, sai fortalecida ou enfraquecida dessa história? Quer dizer, depois de sentir o gostinho de lançar um livro, perde a graça escrever em jornal, revista e internet?
Eu não posso dizer que sou um fã de jornalismo. Quando entrei em comunicação, não sabia se faria publicidade ou jornalismo. O que eu queria, naquela época, era trabalhar com música. Escrever foi a forma que encontrei para isso. Então, mesmo antes do livro, não sou um entusiasta em relação ao jornalismo. O que gosto é de escrever sobre assuntos que me interessam. Música é um deles. Mas podia ser cinema, comportamento, crônicas… Então, não tenho apreço por notícias, não acho escrever sobre bandas interessante (claro, quando a banda é foda, é muito legal, mas o veículo tem que deixar o texto solto, senão vira algo burocrático), prefiro falar sobre cenas, escrever sobre o mercado musical e as novas possibilidades, ou seja, pautas do dia-a-dia não me atraem. O que não quer dizer que eu refute a idéia de trabalhar com jornalismo, mas é cada vez mais improvável eu fazer isso em um grande veículo. E, se eu não entrei até agora, é improvável que eles me queiram também. Me interesso mais pelas revistas mesmo, e suas possibilidades de pautas criativas e textos mais elaborados.

8 - De onde você tira inspiração, cara? Você acredita em inspiração?
Cara, acredito em inspiração, mas acredito, também, em exercitar a inspiração, ou seja, fazer coisas que facilitem o surgimento de idéias. Uma delas é escrever sempre, de forma disciplinada. Confesso que não faço isso. Talvez essa seja a explicação para eu só ter conseguido fechar um livro depois de seis anos escrevendo ficção.
Mas sobre de onde eu tiro a inspiração… Da vida. Das coisas que vejo nas ruas, das situações do cotidiano, dos livros que leio, dos filmes a que assisto… Tiro muitas idéias de filmes. E não importa se eles são bons ou não. Adoro sair fervilhando de idéias quando assisto a um bom filme, mas às vezes filmes ruins te rendem algo.
No “Prazer da carne” tem pelo menos três contos inspirados em filmes: “Prazer da carne” foi inspirado em “Réquiem para um sonho”, principalmente a edição do filme; “Hora do rush” tem idéias tiradas de “Um dia de fúria” e “O anjo exterminador” e “Canto da sereia” têm referência à “American pie”, um dos exemplos de filmes ruins que me deram algo para escrever.
Mas a grande inspiração, acho, é a gente mesmo. Hoje, principalmente depois de quase um ano fazendo análise, consigo me enxergar em vários contos. E não estou falando do que está bem claro, mas do subtexto dos contos, algumas situações, alguns personagens e até frases que são irrelevantes para a maioria das pessoas, hoje, fazem bastante sentido para mim. Ao mesmo tempo que isso é legal, também dá um pouco de medo, porque me exponho bastante. Mas os textos não são apenas jorros do inconsciente. Tem vários textos pensados, que escrevo com a idéia clara do subtexto, da metáfora que eu quero construir.

9 - No que você acredita, Tiago Velasco?
Ah,ah,ah,ah… essa é boa. Cara, acredito em pouca coisa. Acredito na razão, nas pessoas, na capacidade de tornar sonhos em realidade. Mas, como você sabe, não acredito em respostas sobrenaturais para as coisas. Daí, a minha crença nas pessoas e no poder modificador delas.

10 - Você ouve música, quando escreve?
Não. Só seu eu tiver que entregar uma resenha de um disco e tiver sem tempo. Sou meio autista ao escutar música. Fico de frente para o som, parado. Raramente uso música como pano de fundo. Quando ouço música, ela é a atividade principal na hora. Mas tenho ouvido música mais no iPod ultimamente. É bom quando se está andando na rua, no metrô ou no ônibus.

11 - O que você tá lendo?
Não tenho lido muita ficção ultimamente. Os textos para o mestrado acabam sendo minha principal leitura. O último livro que li, e acabei há pouco, foi o do Midani.

12 - O que está ouvindo? Pintou algum sonzinho bom, ultimamente?
Não sou muito de procurar som novo. Digo que as últimas bandas de que gostei de verdade foram o White Stripes e o Strokes - e isso já faz uns sete anos. Gosto das velharias de sempre: Iggy and the Stooges, David Bowie, Rolling Stones, Beatles, Nirvana, Kinks, Sonics, Velvet Underground, Ramones, Buzzcocks. Dos brasileiros, gosto do Los Hermanos, Canastra e Do Amor. Ah, taí uma banda nova que eu gosto. Mas eu sou parcial em relação ao Do Amor.

13 - Você se preparou para responder perguntas, o que está achando dessa mudança? Você estava acostumado a fazer perguntas, certo?
Cara, não me preparei. Claro que fiquei imaginando o que as pessoas poderiam perguntar, tentando pensar em respostas, mas nada sério. Confesso que me dá um certo nervosismo, uma ansiedade. Mas o papel do entrevistador também me deixa assim, então, na verdade, as sensações são as mesmas, acho. A grande diferença é que eu tenho um trabalho como jornalista que eu acho que é bem feito e que já foi elogiado por alguns leitores. No caso da ficção, ainda é uma grande incógnita. O caminho está apenas começando.

14 - Depois disso, de responder em vez de perguntar, será que vai mudar a maneira como você faz entrevistas?
Talvez, né… Acho que todas as nossas experiências de vida são importantes e refletem na maneira que lidamos com as situações, seja uma fila de banco, seja uma entrevista ou a maneira que eu vou ler alguma coisa. Seguindo esse raciocínio, pode mudar minha maneira de fazer perguntas. Mas, também, por ser jornalista, devo ser um entrevistado um pouco diferente na hora de dar respostas.

15 - E depois de escrever um livro, vai mudar a maneira como você lê?
A maneira que eu leio vem mudando há alguns anos. Nos últimos cinco, pelo menos, presto atenção no estilo dos autores, como tratam os temas, quais os olhares sobre os assuntos eles têm. Já introjetei isso na minha forma de ler. Mas nem é só no texto escrito. Faço o mesmo com os diálogos dos filmes, com o texto dos telejornais…

16 - Você nunca pensou em ter uma banda, cara?
Já pensei. E tentei. Mas não rolou. Fizemos dois ou três ensaios. Nessa banda, que não tinha nome, o guitarrista era o Marcelo Callado, baterista do Do Amor. Era tudo música própria. As letras eram feitas por mim. Acho que foi minha primeira incursão pela escrita, já que quando comecei a escrever letras de música eu ainda estudava Economia. Mas na época dos ensaios eu já estava fazendo Comunicação.


Literatices


2 respostas


  1. 13/11/2008 às 17:06

    Leve a entrevista.
    Quem fez as fotos? Gostei. Mais da segunda. Adoro o trabalho de luz nas fotos.
    Ele é fofo (=> gracinha, gotoso, dá vontade de dar um abraço). Lógico, o texto da entrevista ajudou no conceito/julgamento.

    Se alguém me perguntasse sobre essa entrevista, sobre o livro, eu destacaria a resposta da pergunta 6.

    Também gosto mais de contos do que romances. E tudo o que Tiago disse, faço minhas palavras. Certo, então as colocaria entre aspas.

    Quem assina a capa?
    Vai ser vendido onde?
    Fiquei com água na boca.

  2. Tiago Velasco
    13/11/2008 às 17:06

    Obrigado pelos elogios.
    Vamos às informações complementares:
    Capa - Mateu Velasco (meu primo); foto - Ricardo B.S.
    lançamento: dia 25/11, Cinemathèque, Botafogo (RJ), 19h
    Além de ser vendido no lançamento, você pode comprar na sede da editora e no site http://www.editoramultifoco.com.br.
    O livro também será distribuído para algumas livrarias do Rio e de São Paulo, como a do Unibanco Arteplex e Prefácio, ambas no Rio, e na Cultura e na do espaço Unibanco, em SP.


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13/11/2008 às 17:06

Tiago Velasco lança seu primeiro livro e diz que é “meio autista ao escutar música”

Adilson Pereira

Sempre que você vir alguma referência a “amigos desta página”, esteja certo de que entre eles pode estar o Tiago Velasco. Fã de Ramones, Buzzcocks, Canastra e Do Amor, ele é daquele tipo que, OK, dá um boi para não entrar numa discussão. Mas… Com ele não tem a história de dar uma boiada para não sair. Ele não sai. Simplesmente, não sai. Velasco, figurinha fácil em bons shows e bons botecos do Rio de Janeiro, é um sujeito com quem dá prazer de conversar porque ele mergulha nos assuntos. Te ensina sobre economia, se for o caso. E não desiste de dizer que aquele timinho, o Flamengo, é algo verdadeiramente divertido e apaixonante. No jornalismo, já provou sua eficiência e sensibilidade colaborando com diversas publicações e sites. Na ficção, estréia agora com um livro que revela - como ele mesmo diz, na entrevista abaixo - um pouco do seu universo. “Prazer da carne” será lançado em 25 de novembro.

1 - Bicho, você é jornalista. Tem que parar para pensar muito na hora de separar o jeito como se escreve ficção do jeito como se escreve “realidade”?
Não. Para mim, a diferença no estilo é bem clara. Na ficção, acho que desenvolvi um estilo, não sei se próprio, mas um estilo. Então, quando penso em escrever ficção, já penso no texto dessa forma que gosto de escrever, em geral bastante seca, às vezes, telegráfica até.
No jornalismo, por mais que eu tenha trabalhado em grande parte das vezes com música/cultura, que te permite um texto mais solto, eu tento obedecer uma certa regra, com os assuntos mais importantes no início do texto. Além disso, tem as entrevistas, as aspas dos personagens das matérias, que te dão um norte. Mas, talvez por eu ter afinidade com a narrativa de ficção, eu imprima um jeito meu de escrever às matérias.
Falando sobre jornalismo e ficção, me lembrei que nos Estados Unidos ambos são chamados de escritores. Talvez seja por aí, vai depender mais de quem escreve e do veículo para que se escreve.

2 - Escrever sobre música é um flerte constante com a literatura, isto é, com o exercício de escrever sobre ficção?
Como eu falei antes, escrever em uma editoria de música/cultura permite que você exercite seu estilo nas matérias. No meu caso, então, que escrevi em revistas, que já te dão mais liberdade porque o texto é naturalmente maior, e de música independente, esse exercício estilístico é até estimulado. Para mim, é ótimo, porque o trabalho sai do automático e entra em um campo criativo. Agora, quando você escreve em uma editoria mais “séria”, acho que o texto fica mais duro e objetivo, bem ao estilo dos manuais de redação.

3 - Lembro de ter lido, talvez uma página de Orkut, que você era “candidato a vagabundo”. As palavras eram suas mesmo. Era algo tipo você querer viver de escrever, mergulhando naquele modelo, digamos, romântico do sujeito que vive de contar histórias. Essa vontade, de ser “vagabundo”, ainda existe?
É, a frase está no meu perfil no Orkut.
Eu ainda não estou certo de que gosto de trabalhar. Quando eu falo de trabalhar, falo em algo que é feito com horário, disciplina, rotineiramente… Não sei se gosto disso, mas estou habituado e não vejo alternativa a esse modo de viver - só seu eu ganhar na megasena.
Sobre a visão romântica do escritor meio vagabundo… Talvez tenha a ver, sim. Quando escrevi isso, eu podia mesmo ter pensado num jeito Bukowski de viver. Não tenho mais o menor interesse em ser como o Bukowski, mas aquela aparente liberdade dele, em alguma época, já me atraiu bastante. Fora os relatos do Kerouac, com “On the road”, e do Fante, em “Pergunte ao pó” e “Sonhos de Bunker Hill”.

4 - Hoje você anda às voltas com “web-writting”, certo? A despeito das irritações que termos assim causam em determinadas pessoas, há algo de interessante no conceito disso aí. Tem a ver com uma nova maneira de escrever, imagino. Mais uma maneira na qual se pensar. No fundo, encarar a escrita como uma coisa só não facilitaria as coisas?
Estou escrevendo para um portal. Não vejo como estilo novo de escrita, a não ser que escrever menos e botar links ao logo do texto e vídeos do YouTube represente uma nova escrita. Não creio. Talvez seja uma nova forma de jornalismo, já que a internet é uma mídia audiovisual. Então, temos o texto escrito, mas temos que pensar sempre como ilustrá-lo. Como ele permite vídeos, se ater às fotografias empobrece o conteúdo. A grande diferença é que o repórter trabalha, de certa forma, também como editor, além de ele precisar ter alguns outros conhecimentos, como tratamento de fotografia e algo de html.
Essas mudanças na forma de atuar e a exigência de novos conhecimentos técnicos podem encher um pouco a paciência. Como você mesmo disse, se encararmos tudo como um trabalho de escrita, talvez tudo fique mais fácil. O que acontece é que esse dia-a-dia nem sempre é interessante. E o fato de o texto ser muito curto facilita aquilo que falei anteriormente, de escrever de forma automática.

5 - Fala aí do livro. Eu já li umas coisas. Mas é bom que você mesmo conte aos leitores do “Sambapunk”.
“Prazer da carne” é um livro de contos, com textos que venho fazendo desde 2002. O nome do livro foi tirado do conto de abertura. É difícil falar do livro. Por ser de contos, não há tanto uma unidade. Depois, é difícil falar sobre algo que você mesmo fez. Falta um distanciamento crítico para isso.
Mas vou tentar: grande parte das histórias apresentadas é de situações que poderiam ser reais, mas são elevadas ao nível do absurdo. Assim, há textos que flertam com o surrealismo e com realismo fantástico. Geralmente, os temas são tratados por meio de uma narrativa seca, bastante enxuta mesmo. A ironia e o cinismo estão bastante presentes. Gosto da idéia de fazer um texto em que não há um julgamento de valor sobre a situação narrada, por mais esdrúxula que ela possa ser. Isso não quer dizer que não haja uma intenção crítica. Sim, há.
Assim, um mendigo se mutila e come o próprio corpo para ganhar esmolas maiores, um garoto sem dinheiro vende a avó na feira de antigüidades, pessoas vão relaxar em um centro de entretenimento em que a diversão é matar crianças pobres, um rapaz fica preso em um engarrafamento durante dias e não faz nada, nem sai do carro com medo de o tráfego começar a andar… Mas há também aqueles textos mais leves, despretensiosos, que servem de contraponto às atrocidades. Nesses casos, até a minha forma de narrar muda, dando espaço para uma prolixidade cativante.

6 - O próximo passo é um romance?
Não sei. O mercado aceita mais um romance do que contos, mas ainda não me sinto preparado e nem tenho idéias para isso. Gosto muito de contos. Varias vezes prefiro ler contos de grandes escritores a seus romances. O conto, por ser curto, apresenta a idéia de cara, de forma crua, o impacto é instantâneo. Gosto dessa possibilidade de afetar o leitor rapidamente. Sem falar que acho o ato de escrever contos muito contemporâneo: a idéia da coisa curta, rápida, fragmentada, direta me parece perfeitamente integrada no mundo em que vivemos, de internet e milhões de janelas, informações de tudo o quanto é canto…

7 - E a relação com o jornalismo, sai fortalecida ou enfraquecida dessa história? Quer dizer, depois de sentir o gostinho de lançar um livro, perde a graça escrever em jornal, revista e internet?
Eu não posso dizer que sou um fã de jornalismo. Quando entrei em comunicação, não sabia se faria publicidade ou jornalismo. O que eu queria, naquela época, era trabalhar com música. Escrever foi a forma que encontrei para isso. Então, mesmo antes do livro, não sou um entusiasta em relação ao jornalismo. O que gosto é de escrever sobre assuntos que me interessam. Música é um deles. Mas podia ser cinema, comportamento, crônicas… Então, não tenho apreço por notícias, não acho escrever sobre bandas interessante (claro, quando a banda é foda, é muito legal, mas o veículo tem que deixar o texto solto, senão vira algo burocrático), prefiro falar sobre cenas, escrever sobre o mercado musical e as novas possibilidades, ou seja, pautas do dia-a-dia não me atraem. O que não quer dizer que eu refute a idéia de trabalhar com jornalismo, mas é cada vez mais improvável eu fazer isso em um grande veículo. E, se eu não entrei até agora, é improvável que eles me queiram também. Me interesso mais pelas revistas mesmo, e suas possibilidades de pautas criativas e textos mais elaborados.

8 - De onde você tira inspiração, cara? Você acredita em inspiração?
Cara, acredito em inspiração, mas acredito, também, em exercitar a inspiração, ou seja, fazer coisas que facilitem o surgimento de idéias. Uma delas é escrever sempre, de forma disciplinada. Confesso que não faço isso. Talvez essa seja a explicação para eu só ter conseguido fechar um livro depois de seis anos escrevendo ficção.
Mas sobre de onde eu tiro a inspiração… Da vida. Das coisas que vejo nas ruas, das situações do cotidiano, dos livros que leio, dos filmes a que assisto… Tiro muitas idéias de filmes. E não importa se eles são bons ou não. Adoro sair fervilhando de idéias quando assisto a um bom filme, mas às vezes filmes ruins te rendem algo.
No “Prazer da carne” tem pelo menos três contos inspirados em filmes: “Prazer da carne” foi inspirado em “Réquiem para um sonho”, principalmente a edição do filme; “Hora do rush” tem idéias tiradas de “Um dia de fúria” e “O anjo exterminador” e “Canto da sereia” têm referência à “American pie”, um dos exemplos de filmes ruins que me deram algo para escrever.
Mas a grande inspiração, acho, é a gente mesmo. Hoje, principalmente depois de quase um ano fazendo análise, consigo me enxergar em vários contos. E não estou falando do que está bem claro, mas do subtexto dos contos, algumas situações, alguns personagens e até frases que são irrelevantes para a maioria das pessoas, hoje, fazem bastante sentido para mim. Ao mesmo tempo que isso é legal, também dá um pouco de medo, porque me exponho bastante. Mas os textos não são apenas jorros do inconsciente. Tem vários textos pensados, que escrevo com a idéia clara do subtexto, da metáfora que eu quero construir.

9 - No que você acredita, Tiago Velasco?
Ah,ah,ah,ah… essa é boa. Cara, acredito em pouca coisa. Acredito na razão, nas pessoas, na capacidade de tornar sonhos em realidade. Mas, como você sabe, não acredito em respostas sobrenaturais para as coisas. Daí, a minha crença nas pessoas e no poder modificador delas.

10 - Você ouve música, quando escreve?
Não. Só seu eu tiver que entregar uma resenha de um disco e tiver sem tempo. Sou meio autista ao escutar música. Fico de frente para o som, parado. Raramente uso música como pano de fundo. Quando ouço música, ela é a atividade principal na hora. Mas tenho ouvido música mais no iPod ultimamente. É bom quando se está andando na rua, no metrô ou no ônibus.

11 - O que você tá lendo?
Não tenho lido muita ficção ultimamente. Os textos para o mestrado acabam sendo minha principal leitura. O último livro que li, e acabei há pouco, foi o do Midani.

12 - O que está ouvindo? Pintou algum sonzinho bom, ultimamente?
Não sou muito de procurar som novo. Digo que as últimas bandas de que gostei de verdade foram o White Stripes e o Strokes - e isso já faz uns sete anos. Gosto das velharias de sempre: Iggy and the Stooges, David Bowie, Rolling Stones, Beatles, Nirvana, Kinks, Sonics, Velvet Underground, Ramones, Buzzcocks. Dos brasileiros, gosto do Los Hermanos, Canastra e Do Amor. Ah, taí uma banda nova que eu gosto. Mas eu sou parcial em relação ao Do Amor.

13 - Você se preparou para responder perguntas, o que está achando dessa mudança? Você estava acostumado a fazer perguntas, certo?
Cara, não me preparei. Claro que fiquei imaginando o que as pessoas poderiam perguntar, tentando pensar em respostas, mas nada sério. Confesso que me dá um certo nervosismo, uma ansiedade. Mas o papel do entrevistador também me deixa assim, então, na verdade, as sensações são as mesmas, acho. A grande diferença é que eu tenho um trabalho como jornalista que eu acho que é bem feito e que já foi elogiado por alguns leitores. No caso da ficção, ainda é uma grande incógnita. O caminho está apenas começando.

14 - Depois disso, de responder em vez de perguntar, será que vai mudar a maneira como você faz entrevistas?
Talvez, né… Acho que todas as nossas experiências de vida são importantes e refletem na maneira que lidamos com as situações, seja uma fila de banco, seja uma entrevista ou a maneira que eu vou ler alguma coisa. Seguindo esse raciocínio, pode mudar minha maneira de fazer perguntas. Mas, também, por ser jornalista, devo ser um entrevistado um pouco diferente na hora de dar respostas.

15 - E depois de escrever um livro, vai mudar a maneira como você lê?
A maneira que eu leio vem mudando há alguns anos. Nos últimos cinco, pelo menos, presto atenção no estilo dos autores, como tratam os temas, quais os olhares sobre os assuntos eles têm. Já introjetei isso na minha forma de ler. Mas nem é só no texto escrito. Faço o mesmo com os diálogos dos filmes, com o texto dos telejornais…

16 - Você nunca pensou em ter uma banda, cara?
Já pensei. E tentei. Mas não rolou. Fizemos dois ou três ensaios. Nessa banda, que não tinha nome, o guitarrista era o Marcelo Callado, baterista do Do Amor. Era tudo música própria. As letras eram feitas por mim. Acho que foi minha primeira incursão pela escrita, já que quando comecei a escrever letras de música eu ainda estudava Economia. Mas na época dos ensaios eu já estava fazendo Comunicação.


Literatices


2 respostas


  1. 13/11/2008 às 17:06

    Leve a entrevista.
    Quem fez as fotos? Gostei. Mais da segunda. Adoro o trabalho de luz nas fotos.
    Ele é fofo (=> gracinha, gotoso, dá vontade de dar um abraço). Lógico, o texto da entrevista ajudou no conceito/julgamento.

    Se alguém me perguntasse sobre essa entrevista, sobre o livro, eu destacaria a resposta da pergunta 6.

    Também gosto mais de contos do que romances. E tudo o que Tiago disse, faço minhas palavras. Certo, então as colocaria entre aspas.

    Quem assina a capa?
    Vai ser vendido onde?
    Fiquei com água na boca.

  2. Tiago Velasco
    13/11/2008 às 17:06

    Obrigado pelos elogios.
    Vamos às informações complementares:
    Capa - Mateu Velasco (meu primo); foto - Ricardo B.S.
    lançamento: dia 25/11, Cinemathèque, Botafogo (RJ), 19h
    Além de ser vendido no lançamento, você pode comprar na sede da editora e no site http://www.editoramultifoco.com.br.
    O livro também será distribuído para algumas livrarias do Rio e de São Paulo, como a do Unibanco Arteplex e Prefácio, ambas no Rio, e na Cultura e na do espaço Unibanco, em SP.


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13/11/2008 às 17:06

Tiago Velasco lança seu primeiro livro e diz que é “meio autista ao escutar música”

Adilson Pereira

Sempre que você vir alguma referência a “amigos desta página”, esteja certo de que entre eles pode estar o Tiago Velasco. Fã de Ramones, Buzzcocks, Canastra e Do Amor, ele é daquele tipo que, OK, dá um boi para não entrar numa discussão. Mas… Com ele não tem a história de dar uma boiada para não sair. Ele não sai. Simplesmente, não sai. Velasco, figurinha fácil em bons shows e bons botecos do Rio de Janeiro, é um sujeito com quem dá prazer de conversar porque ele mergulha nos assuntos. Te ensina sobre economia, se for o caso. E não desiste de dizer que aquele timinho, o Flamengo, é algo verdadeiramente divertido e apaixonante. No jornalismo, já provou sua eficiência e sensibilidade colaborando com diversas publicações e sites. Na ficção, estréia agora com um livro que revela - como ele mesmo diz, na entrevista abaixo - um pouco do seu universo. “Prazer da carne” será lançado em 25 de novembro.

1 - Bicho, você é jornalista. Tem que parar para pensar muito na hora de separar o jeito como se escreve ficção do jeito como se escreve “realidade”?
Não. Para mim, a diferença no estilo é bem clara. Na ficção, acho que desenvolvi um estilo, não sei se próprio, mas um estilo. Então, quando penso em escrever ficção, já penso no texto dessa forma que gosto de escrever, em geral bastante seca, às vezes, telegráfica até.
No jornalismo, por mais que eu tenha trabalhado em grande parte das vezes com música/cultura, que te permite um texto mais solto, eu tento obedecer uma certa regra, com os assuntos mais importantes no início do texto. Além disso, tem as entrevistas, as aspas dos personagens das matérias, que te dão um norte. Mas, talvez por eu ter afinidade com a narrativa de ficção, eu imprima um jeito meu de escrever às matérias.
Falando sobre jornalismo e ficção, me lembrei que nos Estados Unidos ambos são chamados de escritores. Talvez seja por aí, vai depender mais de quem escreve e do veículo para que se escreve.

2 - Escrever sobre música é um flerte constante com a literatura, isto é, com o exercício de escrever sobre ficção?
Como eu falei antes, escrever em uma editoria de música/cultura permite que você exercite seu estilo nas matérias. No meu caso, então, que escrevi em revistas, que já te dão mais liberdade porque o texto é naturalmente maior, e de música independente, esse exercício estilístico é até estimulado. Para mim, é ótimo, porque o trabalho sai do automático e entra em um campo criativo. Agora, quando você escreve em uma editoria mais “séria”, acho que o texto fica mais duro e objetivo, bem ao estilo dos manuais de redação.

3 - Lembro de ter lido, talvez uma página de Orkut, que você era “candidato a vagabundo”. As palavras eram suas mesmo. Era algo tipo você querer viver de escrever, mergulhando naquele modelo, digamos, romântico do sujeito que vive de contar histórias. Essa vontade, de ser “vagabundo”, ainda existe?
É, a frase está no meu perfil no Orkut.
Eu ainda não estou certo de que gosto de trabalhar. Quando eu falo de trabalhar, falo em algo que é feito com horário, disciplina, rotineiramente… Não sei se gosto disso, mas estou habituado e não vejo alternativa a esse modo de viver - só seu eu ganhar na megasena.
Sobre a visão romântica do escritor meio vagabundo… Talvez tenha a ver, sim. Quando escrevi isso, eu podia mesmo ter pensado num jeito Bukowski de viver. Não tenho mais o menor interesse em ser como o Bukowski, mas aquela aparente liberdade dele, em alguma época, já me atraiu bastante. Fora os relatos do Kerouac, com “On the road”, e do Fante, em “Pergunte ao pó” e “Sonhos de Bunker Hill”.

4 - Hoje você anda às voltas com “web-writting”, certo? A despeito das irritações que termos assim causam em determinadas pessoas, há algo de interessante no conceito disso aí. Tem a ver com uma nova maneira de escrever, imagino. Mais uma maneira na qual se pensar. No fundo, encarar a escrita como uma coisa só não facilitaria as coisas?
Estou escrevendo para um portal. Não vejo como estilo novo de escrita, a não ser que escrever menos e botar links ao logo do texto e vídeos do YouTube represente uma nova escrita. Não creio. Talvez seja uma nova forma de jornalismo, já que a internet é uma mídia audiovisual. Então, temos o texto escrito, mas temos que pensar sempre como ilustrá-lo. Como ele permite vídeos, se ater às fotografias empobrece o conteúdo. A grande diferença é que o repórter trabalha, de certa forma, também como editor, além de ele precisar ter alguns outros conhecimentos, como tratamento de fotografia e algo de html.
Essas mudanças na forma de atuar e a exigência de novos conhecimentos técnicos podem encher um pouco a paciência. Como você mesmo disse, se encararmos tudo como um trabalho de escrita, talvez tudo fique mais fácil. O que acontece é que esse dia-a-dia nem sempre é interessante. E o fato de o texto ser muito curto facilita aquilo que falei anteriormente, de escrever de forma automática.

5 - Fala aí do livro. Eu já li umas coisas. Mas é bom que você mesmo conte aos leitores do “Sambapunk”.
“Prazer da carne” é um livro de contos, com textos que venho fazendo desde 2002. O nome do livro foi tirado do conto de abertura. É difícil falar do livro. Por ser de contos, não há tanto uma unidade. Depois, é difícil falar sobre algo que você mesmo fez. Falta um distanciamento crítico para isso.
Mas vou tentar: grande parte das histórias apresentadas é de situações que poderiam ser reais, mas são elevadas ao nível do absurdo. Assim, há textos que flertam com o surrealismo e com realismo fantástico. Geralmente, os temas são tratados por meio de uma narrativa seca, bastante enxuta mesmo. A ironia e o cinismo estão bastante presentes. Gosto da idéia de fazer um texto em que não há um julgamento de valor sobre a situação narrada, por mais esdrúxula que ela possa ser. Isso não quer dizer que não haja uma intenção crítica. Sim, há.
Assim, um mendigo se mutila e come o próprio corpo para ganhar esmolas maiores, um garoto sem dinheiro vende a avó na feira de antigüidades, pessoas vão relaxar em um centro de entretenimento em que a diversão é matar crianças pobres, um rapaz fica preso em um engarrafamento durante dias e não faz nada, nem sai do carro com medo de o tráfego começar a andar… Mas há também aqueles textos mais leves, despretensiosos, que servem de contraponto às atrocidades. Nesses casos, até a minha forma de narrar muda, dando espaço para uma prolixidade cativante.

6 - O próximo passo é um romance?
Não sei. O mercado aceita mais um romance do que contos, mas ainda não me sinto preparado e nem tenho idéias para isso. Gosto muito de contos. Varias vezes prefiro ler contos de grandes escritores a seus romances. O conto, por ser curto, apresenta a idéia de cara, de forma crua, o impacto é instantâneo. Gosto dessa possibilidade de afetar o leitor rapidamente. Sem falar que acho o ato de escrever contos muito contemporâneo: a idéia da coisa curta, rápida, fragmentada, direta me parece perfeitamente integrada no mundo em que vivemos, de internet e milhões de janelas, informações de tudo o quanto é canto…

7 - E a relação com o jornalismo, sai fortalecida ou enfraquecida dessa história? Quer dizer, depois de sentir o gostinho de lançar um livro, perde a graça escrever em jornal, revista e internet?
Eu não posso dizer que sou um fã de jornalismo. Quando entrei em comunicação, não sabia se faria publicidade ou jornalismo. O que eu queria, naquela época, era trabalhar com música. Escrever foi a forma que encontrei para isso. Então, mesmo antes do livro, não sou um entusiasta em relação ao jornalismo. O que gosto é de escrever sobre assuntos que me interessam. Música é um deles. Mas podia ser cinema, comportamento, crônicas… Então, não tenho apreço por notícias, não acho escrever sobre bandas interessante (claro, quando a banda é foda, é muito legal, mas o veículo tem que deixar o texto solto, senão vira algo burocrático), prefiro falar sobre cenas, escrever sobre o mercado musical e as novas possibilidades, ou seja, pautas do dia-a-dia não me atraem. O que não quer dizer que eu refute a idéia de trabalhar com jornalismo, mas é cada vez mais improvável eu fazer isso em um grande veículo. E, se eu não entrei até agora, é improvável que eles me queiram também. Me interesso mais pelas revistas mesmo, e suas possibilidades de pautas criativas e textos mais elaborados.

8 - De onde você tira inspiração, cara? Você acredita em inspiração?
Cara, acredito em inspiração, mas acredito, também, em exercitar a inspiração, ou seja, fazer coisas que facilitem o surgimento de idéias. Uma delas é escrever sempre, de forma disciplinada. Confesso que não faço isso. Talvez essa seja a explicação para eu só ter conseguido fechar um livro depois de seis anos escrevendo ficção.
Mas sobre de onde eu tiro a inspiração… Da vida. Das coisas que vejo nas ruas, das situações do cotidiano, dos livros que leio, dos filmes a que assisto… Tiro muitas idéias de filmes. E não importa se eles são bons ou não. Adoro sair fervilhando de idéias quando assisto a um bom filme, mas às vezes filmes ruins te rendem algo.
No “Prazer da carne” tem pelo menos três contos inspirados em filmes: “Prazer da carne” foi inspirado em “Réquiem para um sonho”, principalmente a edição do filme; “Hora do rush” tem idéias tiradas de “Um dia de fúria” e “O anjo exterminador” e “Canto da sereia” têm referência à “American pie”, um dos exemplos de filmes ruins que me deram algo para escrever.
Mas a grande inspiração, acho, é a gente mesmo. Hoje, principalmente depois de quase um ano fazendo análise, consigo me enxergar em vários contos. E não estou falando do que está bem claro, mas do subtexto dos contos, algumas situações, alguns personagens e até frases que são irrelevantes para a maioria das pessoas, hoje, fazem bastante sentido para mim. Ao mesmo tempo que isso é legal, também dá um pouco de medo, porque me exponho bastante. Mas os textos não são apenas jorros do inconsciente. Tem vários textos pensados, que escrevo com a idéia clara do subtexto, da metáfora que eu quero construir.

9 - No que você acredita, Tiago Velasco?
Ah,ah,ah,ah… essa é boa. Cara, acredito em pouca coisa. Acredito na razão, nas pessoas, na capacidade de tornar sonhos em realidade. Mas, como você sabe, não acredito em respostas sobrenaturais para as coisas. Daí, a minha crença nas pessoas e no poder modificador delas.

10 - Você ouve música, quando escreve?
Não. Só seu eu tiver que entregar uma resenha de um disco e tiver sem tempo. Sou meio autista ao escutar música. Fico de frente para o som, parado. Raramente uso música como pano de fundo. Quando ouço música, ela é a atividade principal na hora. Mas tenho ouvido música mais no iPod ultimamente. É bom quando se está andando na rua, no metrô ou no ônibus.

11 - O que você tá lendo?
Não tenho lido muita ficção ultimamente. Os textos para o mestrado acabam sendo minha principal leitura. O último livro que li, e acabei há pouco, foi o do Midani.

12 - O que está ouvindo? Pintou algum sonzinho bom, ultimamente?
Não sou muito de procurar som novo. Digo que as últimas bandas de que gostei de verdade foram o White Stripes e o Strokes - e isso já faz uns sete anos. Gosto das velharias de sempre: Iggy and the Stooges, David Bowie, Rolling Stones, Beatles, Nirvana, Kinks, Sonics, Velvet Underground, Ramones, Buzzcocks. Dos brasileiros, gosto do Los Hermanos, Canastra e Do Amor. Ah, taí uma banda nova que eu gosto. Mas eu sou parcial em relação ao Do Amor.

13 - Você se preparou para responder perguntas, o que está achando dessa mudança? Você estava acostumado a fazer perguntas, certo?
Cara, não me preparei. Claro que fiquei imaginando o que as pessoas poderiam perguntar, tentando pensar em respostas, mas nada sério. Confesso que me dá um certo nervosismo, uma ansiedade. Mas o papel do entrevistador também me deixa assim, então, na verdade, as sensações são as mesmas, acho. A grande diferença é que eu tenho um trabalho como jornalista que eu acho que é bem feito e que já foi elogiado por alguns leitores. No caso da ficção, ainda é uma grande incógnita. O caminho está apenas começando.

14 - Depois disso, de responder em vez de perguntar, será que vai mudar a maneira como você faz entrevistas?
Talvez, né… Acho que todas as nossas experiências de vida são importantes e refletem na maneira que lidamos com as situações, seja uma fila de banco, seja uma entrevista ou a maneira que eu vou ler alguma coisa. Seguindo esse raciocínio, pode mudar minha maneira de fazer perguntas. Mas, também, por ser jornalista, devo ser um entrevistado um pouco diferente na hora de dar respostas.

15 - E depois de escrever um livro, vai mudar a maneira como você lê?
A maneira que eu leio vem mudando há alguns anos. Nos últimos cinco, pelo menos, presto atenção no estilo dos autores, como tratam os temas, quais os olhares sobre os assuntos eles têm. Já introjetei isso na minha forma de ler. Mas nem é só no texto escrito. Faço o mesmo com os diálogos dos filmes, com o texto dos telejornais…

16 - Você nunca pensou em ter uma banda, cara?
Já pensei. E tentei. Mas não rolou. Fizemos dois ou três ensaios. Nessa banda, que não tinha nome, o guitarrista era o Marcelo Callado, baterista do Do Amor. Era tudo música própria. As letras eram feitas por mim. Acho que foi minha primeira incursão pela escrita, já que quando comecei a escrever letras de música eu ainda estudava Economia. Mas na época dos ensaios eu já estava fazendo Comunicação.


Literatices


2 respostas


  1. 13/11/2008 às 17:06

    Leve a entrevista.
    Quem fez as fotos? Gostei. Mais da segunda. Adoro o trabalho de luz nas fotos.
    Ele é fofo (=> gracinha, gotoso, dá vontade de dar um abraço). Lógico, o texto da entrevista ajudou no conceito/julgamento.

    Se alguém me perguntasse sobre essa entrevista, sobre o livro, eu destacaria a resposta da pergunta 6.

    Também gosto mais de contos do que romances. E tudo o que Tiago disse, faço minhas palavras. Certo, então as colocaria entre aspas.

    Quem assina a capa?
    Vai ser vendido onde?
    Fiquei com água na boca.

  2. Tiago Velasco
    13/11/2008 às 17:06

    Obrigado pelos elogios.
    Vamos às informações complementares:
    Capa - Mateu Velasco (meu primo); foto - Ricardo B.S.
    lançamento: dia 25/11, Cinemathèque, Botafogo (RJ), 19h
    Além de ser vendido no lançamento, você pode comprar na sede da editora e no site http://www.editoramultifoco.com.br.
    O livro também será distribuído para algumas livrarias do Rio e de São Paulo, como a do Unibanco Arteplex e Prefácio, ambas no Rio, e na Cultura e na do espaço Unibanco, em SP.


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13/11/2008 às 17:06

Tiago Velasco lança seu primeiro livro e diz que é “meio autista ao escutar música”

Adilson Pereira

Sempre que você vir alguma referência a “amigos desta página”, esteja certo de que entre eles pode estar o Tiago Velasco. Fã de Ramones, Buzzcocks, Canastra e Do Amor, ele é daquele tipo que, OK, dá um boi para não entrar numa discussão. Mas… Com ele não tem a história de dar uma boiada para não sair. Ele não sai. Simplesmente, não sai. Velasco, figurinha fácil em bons shows e bons botecos do Rio de Janeiro, é um sujeito com quem dá prazer de conversar porque ele mergulha nos assuntos. Te ensina sobre economia, se for o caso. E não desiste de dizer que aquele timinho, o Flamengo, é algo verdadeiramente divertido e apaixonante. No jornalismo, já provou sua eficiência e sensibilidade colaborando com diversas publicações e sites. Na ficção, estréia agora com um livro que revela - como ele mesmo diz, na entrevista abaixo - um pouco do seu universo. “Prazer da carne” será lançado em 25 de novembro.

1 - Bicho, você é jornalista. Tem que parar para pensar muito na hora de separar o jeito como se escreve ficção do jeito como se escreve “realidade”?
Não. Para mim, a diferença no estilo é bem clara. Na ficção, acho que desenvolvi um estilo, não sei se próprio, mas um estilo. Então, quando penso em escrever ficção, já penso no texto dessa forma que gosto de escrever, em geral bastante seca, às vezes, telegráfica até.
No jornalismo, por mais que eu tenha trabalhado em grande parte das vezes com música/cultura, que te permite um texto mais solto, eu tento obedecer uma certa regra, com os assuntos mais importantes no início do texto. Além disso, tem as entrevistas, as aspas dos personagens das matérias, que te dão um norte. Mas, talvez por eu ter afinidade com a narrativa de ficção, eu imprima um jeito meu de escrever às matérias.
Falando sobre jornalismo e ficção, me lembrei que nos Estados Unidos ambos são chamados de escritores. Talvez seja por aí, vai depender mais de quem escreve e do veículo para que se escreve.

2 - Escrever sobre música é um flerte constante com a literatura, isto é, com o exercício de escrever sobre ficção?
Como eu falei antes, escrever em uma editoria de música/cultura permite que você exercite seu estilo nas matérias. No meu caso, então, que escrevi em revistas, que já te dão mais liberdade porque o texto é naturalmente maior, e de música independente, esse exercício estilístico é até estimulado. Para mim, é ótimo, porque o trabalho sai do automático e entra em um campo criativo. Agora, quando você escreve em uma editoria mais “séria”, acho que o texto fica mais duro e objetivo, bem ao estilo dos manuais de redação.

3 - Lembro de ter lido, talvez uma página de Orkut, que você era “candidato a vagabundo”. As palavras eram suas mesmo. Era algo tipo você querer viver de escrever, mergulhando naquele modelo, digamos, romântico do sujeito que vive de contar histórias. Essa vontade, de ser “vagabundo”, ainda existe?
É, a frase está no meu perfil no Orkut.
Eu ainda não estou certo de que gosto de trabalhar. Quando eu falo de trabalhar, falo em algo que é feito com horário, disciplina, rotineiramente… Não sei se gosto disso, mas estou habituado e não vejo alternativa a esse modo de viver - só seu eu ganhar na megasena.
Sobre a visão romântica do escritor meio vagabundo… Talvez tenha a ver, sim. Quando escrevi isso, eu podia mesmo ter pensado num jeito Bukowski de viver. Não tenho mais o menor interesse em ser como o Bukowski, mas aquela aparente liberdade dele, em alguma época, já me atraiu bastante. Fora os relatos do Kerouac, com “On the road”, e do Fante, em “Pergunte ao pó” e “Sonhos de Bunker Hill”.

4 - Hoje você anda às voltas com “web-writting”, certo? A despeito das irritações que termos assim causam em determinadas pessoas, há algo de interessante no conceito disso aí. Tem a ver com uma nova maneira de escrever, imagino. Mais uma maneira na qual se pensar. No fundo, encarar a escrita como uma coisa só não facilitaria as coisas?
Estou escrevendo para um portal. Não vejo como estilo novo de escrita, a não ser que escrever menos e botar links ao logo do texto e vídeos do YouTube represente uma nova escrita. Não creio. Talvez seja uma nova forma de jornalismo, já que a internet é uma mídia audiovisual. Então, temos o texto escrito, mas temos que pensar sempre como ilustrá-lo. Como ele permite vídeos, se ater às fotografias empobrece o conteúdo. A grande diferença é que o repórter trabalha, de certa forma, também como editor, além de ele precisar ter alguns outros conhecimentos, como tratamento de fotografia e algo de html.
Essas mudanças na forma de atuar e a exigência de novos conhecimentos técnicos podem encher um pouco a paciência. Como você mesmo disse, se encararmos tudo como um trabalho de escrita, talvez tudo fique mais fácil. O que acontece é que esse dia-a-dia nem sempre é interessante. E o fato de o texto ser muito curto facilita aquilo que falei anteriormente, de escrever de forma automática.

5 - Fala aí do livro. Eu já li umas coisas. Mas é bom que você mesmo conte aos leitores do “Sambapunk”.
“Prazer da carne” é um livro de contos, com textos que venho fazendo desde 2002. O nome do livro foi tirado do conto de abertura. É difícil falar do livro. Por ser de contos, não há tanto uma unidade. Depois, é difícil falar sobre algo que você mesmo fez. Falta um distanciamento crítico para isso.
Mas vou tentar: grande parte das histórias apresentadas é de situações que poderiam ser reais, mas são elevadas ao nível do absurdo. Assim, há textos que flertam com o surrealismo e com realismo fantástico. Geralmente, os temas são tratados por meio de uma narrativa seca, bastante enxuta mesmo. A ironia e o cinismo estão bastante presentes. Gosto da idéia de fazer um texto em que não há um julgamento de valor sobre a situação narrada, por mais esdrúxula que ela possa ser. Isso não quer dizer que não haja uma intenção crítica. Sim, há.
Assim, um mendigo se mutila e come o próprio corpo para ganhar esmolas maiores, um garoto sem dinheiro vende a avó na feira de antigüidades, pessoas vão relaxar em um centro de entretenimento em que a diversão é matar crianças pobres, um rapaz fica preso em um engarrafamento durante dias e não faz nada, nem sai do carro com medo de o tráfego começar a andar… Mas há também aqueles textos mais leves, despretensiosos, que servem de contraponto às atrocidades. Nesses casos, até a minha forma de narrar muda, dando espaço para uma prolixidade cativante.

6 - O próximo passo é um romance?
Não sei. O mercado aceita mais um romance do que contos, mas ainda não me sinto preparado e nem tenho idéias para isso. Gosto muito de contos. Varias vezes prefiro ler contos de grandes escritores a seus romances. O conto, por ser curto, apresenta a idéia de cara, de forma crua, o impacto é instantâneo. Gosto dessa possibilidade de afetar o leitor rapidamente. Sem falar que acho o ato de escrever contos muito contemporâneo: a idéia da coisa curta, rápida, fragmentada, direta me parece perfeitamente integrada no mundo em que vivemos, de internet e milhões de janelas, informações de tudo o quanto é canto…

7 - E a relação com o jornalismo, sai fortalecida ou enfraquecida dessa história? Quer dizer, depois de sentir o gostinho de lançar um livro, perde a graça escrever em jornal, revista e internet?
Eu não posso dizer que sou um fã de jornalismo. Quando entrei em comunicação, não sabia se faria publicidade ou jornalismo. O que eu queria, naquela época, era trabalhar com música. Escrever foi a forma que encontrei para isso. Então, mesmo antes do livro, não sou um entusiasta em relação ao jornalismo. O que gosto é de escrever sobre assuntos que me interessam. Música é um deles. Mas podia ser cinema, comportamento, crônicas… Então, não tenho apreço por notícias, não acho escrever sobre bandas interessante (claro, quando a banda é foda, é muito legal, mas o veículo tem que deixar o texto solto, senão vira algo burocrático), prefiro falar sobre cenas, escrever sobre o mercado musical e as novas possibilidades, ou seja, pautas do dia-a-dia não me atraem. O que não quer dizer que eu refute a idéia de trabalhar com jornalismo, mas é cada vez mais improvável eu fazer isso em um grande veículo. E, se eu não entrei até agora, é improvável que eles me queiram também. Me interesso mais pelas revistas mesmo, e suas possibilidades de pautas criativas e textos mais elaborados.

8 - De onde você tira inspiração, cara? Você acredita em inspiração?
Cara, acredito em inspiração, mas acredito, também, em exercitar a inspiração, ou seja, fazer coisas que facilitem o surgimento de idéias. Uma delas é escrever sempre, de forma disciplinada. Confesso que não faço isso. Talvez essa seja a explicação para eu só ter conseguido fechar um livro depois de seis anos escrevendo ficção.
Mas sobre de onde eu tiro a inspiração… Da vida. Das coisas que vejo nas ruas, das situações do cotidiano, dos livros que leio, dos filmes a que assisto… Tiro muitas idéias de filmes. E não importa se eles são bons ou não. Adoro sair fervilhando de idéias quando assisto a um bom filme, mas às vezes filmes ruins te rendem algo.
No “Prazer da carne” tem pelo menos três contos inspirados em filmes: “Prazer da carne” foi inspirado em “Réquiem para um sonho”, principalmente a edição do filme; “Hora do rush” tem idéias tiradas de “Um dia de fúria” e “O anjo exterminador” e “Canto da sereia” têm referência à “American pie”, um dos exemplos de filmes ruins que me deram algo para escrever.
Mas a grande inspiração, acho, é a gente mesmo. Hoje, principalmente depois de quase um ano fazendo análise, consigo me enxergar em vários contos. E não estou falando do que está bem claro, mas do subtexto dos contos, algumas situações, alguns personagens e até frases que são irrelevantes para a maioria das pessoas, hoje, fazem bastante sentido para mim. Ao mesmo tempo que isso é legal, também dá um pouco de medo, porque me exponho bastante. Mas os textos não são apenas jorros do inconsciente. Tem vários textos pensados, que escrevo com a idéia clara do subtexto, da metáfora que eu quero construir.

9 - No que você acredita, Tiago Velasco?
Ah,ah,ah,ah… essa é boa. Cara, acredito em pouca coisa. Acredito na razão, nas pessoas, na capacidade de tornar sonhos em realidade. Mas, como você sabe, não acredito em respostas sobrenaturais para as coisas. Daí, a minha crença nas pessoas e no poder modificador delas.

10 - Você ouve música, quando escreve?
Não. Só seu eu tiver que entregar uma resenha de um disco e tiver sem tempo. Sou meio autista ao escutar música. Fico de frente para o som, parado. Raramente uso música como pano de fundo. Quando ouço música, ela é a atividade principal na hora. Mas tenho ouvido música mais no iPod ultimamente. É bom quando se está andando na rua, no metrô ou no ônibus.

11 - O que você tá lendo?
Não tenho lido muita ficção ultimamente. Os textos para o mestrado acabam sendo minha principal leitura. O último livro que li, e acabei há pouco, foi o do Midani.

12 - O que está ouvindo? Pintou algum sonzinho bom, ultimamente?
Não sou muito de procurar som novo. Digo que as últimas bandas de que gostei de verdade foram o White Stripes e o Strokes - e isso já faz uns sete anos. Gosto das velharias de sempre: Iggy and the Stooges, David Bowie, Rolling Stones, Beatles, Nirvana, Kinks, Sonics, Velvet Underground, Ramones, Buzzcocks. Dos brasileiros, gosto do Los Hermanos, Canastra e Do Amor. Ah, taí uma banda nova que eu gosto. Mas eu sou parcial em relação ao Do Amor.

13 - Você se preparou para responder perguntas, o que está achando dessa mudança? Você estava acostumado a fazer perguntas, certo?
Cara, não me preparei. Claro que fiquei imaginando o que as pessoas poderiam perguntar, tentando pensar em respostas, mas nada sério. Confesso que me dá um certo nervosismo, uma ansiedade. Mas o papel do entrevistador também me deixa assim, então, na verdade, as sensações são as mesmas, acho. A grande diferença é que eu tenho um trabalho como jornalista que eu acho que é bem feito e que já foi elogiado por alguns leitores. No caso da ficção, ainda é uma grande incógnita. O caminho está apenas começando.

14 - Depois disso, de responder em vez de perguntar, será que vai mudar a maneira como você faz entrevistas?
Talvez, né… Acho que todas as nossas experiências de vida são importantes e refletem na maneira que lidamos com as situações, seja uma fila de banco, seja uma entrevista ou a maneira que eu vou ler alguma coisa. Seguindo esse raciocínio, pode mudar minha maneira de fazer perguntas. Mas, também, por ser jornalista, devo ser um entrevistado um pouco diferente na hora de dar respostas.

15 - E depois de escrever um livro, vai mudar a maneira como você lê?
A maneira que eu leio vem mudando há alguns anos. Nos últimos cinco, pelo menos, presto atenção no estilo dos autores, como tratam os temas, quais os olhares sobre os assuntos eles têm. Já introjetei isso na minha forma de ler. Mas nem é só no texto escrito. Faço o mesmo com os diálogos dos filmes, com o texto dos telejornais…

16 - Você nunca pensou em ter uma banda, cara?
Já pensei. E tentei. Mas não rolou. Fizemos dois ou três ensaios. Nessa banda, que não tinha nome, o guitarrista era o Marcelo Callado, baterista do Do Amor. Era tudo música própria. As letras eram feitas por mim. Acho que foi minha primeira incursão pela escrita, já que quando comecei a escrever letras de música eu ainda estudava Economia. Mas na época dos ensaios eu já estava fazendo Comunicação.


Literatices


2 respostas


  1. 13/11/2008 às 17:06

    Leve a entrevista.
    Quem fez as fotos? Gostei. Mais da segunda. Adoro o trabalho de luz nas fotos.
    Ele é fofo (=> gracinha, gotoso, dá vontade de dar um abraço). Lógico, o texto da entrevista ajudou no conceito/julgamento.

    Se alguém me perguntasse sobre essa entrevista, sobre o livro, eu destacaria a resposta da pergunta 6.

    Também gosto mais de contos do que romances. E tudo o que Tiago disse, faço minhas palavras. Certo, então as colocaria entre aspas.

    Quem assina a capa?
    Vai ser vendido onde?
    Fiquei com água na boca.

  2. Tiago Velasco
    13/11/2008 às 17:06

    Obrigado pelos elogios.
    Vamos às informações complementares:
    Capa - Mateu Velasco (meu primo); foto - Ricardo B.S.
    lançamento: dia 25/11, Cinemathèque, Botafogo (RJ), 19h
    Além de ser vendido no lançamento, você pode comprar na sede da editora e no site http://www.editoramultifoco.com.br.
    O livro também será distribuído para algumas livrarias do Rio e de São Paulo, como a do Unibanco Arteplex e Prefácio, ambas no Rio, e na Cultura e na do espaço Unibanco, em SP.


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13/11/2008 às 17:06

Tiago Velasco lança seu primeiro livro e diz que é “meio autista ao escutar música”

Adilson Pereira

Sempre que você vir alguma referência a “amigos desta página”, esteja certo de que entre eles pode estar o Tiago Velasco. Fã de Ramones, Buzzcocks, Canastra e Do Amor, ele é daquele tipo que, OK, dá um boi para não entrar numa discussão. Mas… Com ele não tem a história de dar uma boiada para não sair. Ele não sai. Simplesmente, não sai. Velasco, figurinha fácil em bons shows e bons botecos do Rio de Janeiro, é um sujeito com quem dá prazer de conversar porque ele mergulha nos assuntos. Te ensina sobre economia, se for o caso. E não desiste de dizer que aquele timinho, o Flamengo, é algo verdadeiramente divertido e apaixonante. No jornalismo, já provou sua eficiência e sensibilidade colaborando com diversas publicações e sites. Na ficção, estréia agora com um livro que revela - como ele mesmo diz, na entrevista abaixo - um pouco do seu universo. “Prazer da carne” será lançado em 25 de novembro.

1 - Bicho, você é jornalista. Tem que parar para pensar muito na hora de separar o jeito como se escreve ficção do jeito como se escreve “realidade”?
Não. Para mim, a diferença no estilo é bem clara. Na ficção, acho que desenvolvi um estilo, não sei se próprio, mas um estilo. Então, quando penso em escrever ficção, já penso no texto dessa forma que gosto de escrever, em geral bastante seca, às vezes, telegráfica até.
No jornalismo, por mais que eu tenha trabalhado em grande parte das vezes com música/cultura, que te permite um texto mais solto, eu tento obedecer uma certa regra, com os assuntos mais importantes no início do texto. Além disso, tem as entrevistas, as aspas dos personagens das matérias, que te dão um norte. Mas, talvez por eu ter afinidade com a narrativa de ficção, eu imprima um jeito meu de escrever às matérias.
Falando sobre jornalismo e ficção, me lembrei que nos Estados Unidos ambos são chamados de escritores. Talvez seja por aí, vai depender mais de quem escreve e do veículo para que se escreve.

2 - Escrever sobre música é um flerte constante com a literatura, isto é, com o exercício de escrever sobre ficção?
Como eu falei antes, escrever em uma editoria de música/cultura permite que você exercite seu estilo nas matérias. No meu caso, então, que escrevi em revistas, que já te dão mais liberdade porque o texto é naturalmente maior, e de música independente, esse exercício estilístico é até estimulado. Para mim, é ótimo, porque o trabalho sai do automático e entra em um campo criativo. Agora, quando você escreve em uma editoria mais “séria”, acho que o texto fica mais duro e objetivo, bem ao estilo dos manuais de redação.

3 - Lembro de ter lido, talvez uma página de Orkut, que você era “candidato a vagabundo”. As palavras eram suas mesmo. Era algo tipo você querer viver de escrever, mergulhando naquele modelo, digamos, romântico do sujeito que vive de contar histórias. Essa vontade, de ser “vagabundo”, ainda existe?
É, a frase está no meu perfil no Orkut.
Eu ainda não estou certo de que gosto de trabalhar. Quando eu falo de trabalhar, falo em algo que é feito com horário, disciplina, rotineiramente… Não sei se gosto disso, mas estou habituado e não vejo alternativa a esse modo de viver - só seu eu ganhar na megasena.
Sobre a visão romântica do escritor meio vagabundo… Talvez tenha a ver, sim. Quando escrevi isso, eu podia mesmo ter pensado num jeito Bukowski de viver. Não tenho mais o menor interesse em ser como o Bukowski, mas aquela aparente liberdade dele, em alguma época, já me atraiu bastante. Fora os relatos do Kerouac, com “On the road”, e do Fante, em “Pergunte ao pó” e “Sonhos de Bunker Hill”.

4 - Hoje você anda às voltas com “web-writting”, certo? A despeito das irritações que termos assim causam em determinadas pessoas, há algo de interessante no conceito disso aí. Tem a ver com uma nova maneira de escrever, imagino. Mais uma maneira na qual se pensar. No fundo, encarar a escrita como uma coisa só não facilitaria as coisas?
Estou escrevendo para um portal. Não vejo como estilo novo de escrita, a não ser que escrever menos e botar links ao logo do texto e vídeos do YouTube represente uma nova escrita. Não creio. Talvez seja uma nova forma de jornalismo, já que a internet é uma mídia audiovisual. Então, temos o texto escrito, mas temos que pensar sempre como ilustrá-lo. Como ele permite vídeos, se ater às fotografias empobrece o conteúdo. A grande diferença é que o repórter trabalha, de certa forma, também como editor, além de ele precisar ter alguns outros conhecimentos, como tratamento de fotografia e algo de html.
Essas mudanças na forma de atuar e a exigência de novos conhecimentos técnicos podem encher um pouco a paciência. Como você mesmo disse, se encararmos tudo como um trabalho de escrita, talvez tudo fique mais fácil. O que acontece é que esse dia-a-dia nem sempre é interessante. E o fato de o texto ser muito curto facilita aquilo que falei anteriormente, de escrever de forma automática.

5 - Fala aí do livro. Eu já li umas coisas. Mas é bom que você mesmo conte aos leitores do “Sambapunk”.
“Prazer da carne” é um livro de contos, com textos que venho fazendo desde 2002. O nome do livro foi tirado do conto de abertura. É difícil falar do livro. Por ser de contos, não há tanto uma unidade. Depois, é difícil falar sobre algo que você mesmo fez. Falta um distanciamento crítico para isso.
Mas vou tentar: grande parte das histórias apresentadas é de situações que poderiam ser reais, mas são elevadas ao nível do absurdo. Assim, há textos que flertam com o surrealismo e com realismo fantástico. Geralmente, os temas são tratados por meio de uma narrativa seca, bastante enxuta mesmo. A ironia e o cinismo estão bastante presentes. Gosto da idéia de fazer um texto em que não há um julgamento de valor sobre a situação narrada, por mais esdrúxula que ela possa ser. Isso não quer dizer que não haja uma intenção crítica. Sim, há.
Assim, um mendigo se mutila e come o próprio corpo para ganhar esmolas maiores, um garoto sem dinheiro vende a avó na feira de antigüidades, pessoas vão relaxar em um centro de entretenimento em que a diversão é matar crianças pobres, um rapaz fica preso em um engarrafamento durante dias e não faz nada, nem sai do carro com medo de o tráfego começar a andar… Mas há também aqueles textos mais leves, despretensiosos, que servem de contraponto às atrocidades. Nesses casos, até a minha forma de narrar muda, dando espaço para uma prolixidade cativante.

6 - O próximo passo é um romance?
Não sei. O mercado aceita mais um romance do que contos, mas ainda não me sinto preparado e nem tenho idéias para isso. Gosto muito de contos. Varias vezes prefiro ler contos de grandes escritores a seus romances. O conto, por ser curto, apresenta a idéia de cara, de forma crua, o impacto é instantâneo. Gosto dessa possibilidade de afetar o leitor rapidamente. Sem falar que acho o ato de escrever contos muito contemporâneo: a idéia da coisa curta, rápida, fragmentada, direta me parece perfeitamente integrada no mundo em que vivemos, de internet e milhões de janelas, informações de tudo o quanto é canto…

7 - E a relação com o jornalismo, sai fortalecida ou enfraquecida dessa história? Quer dizer, depois de sentir o gostinho de lançar um livro, perde a graça escrever em jornal, revista e internet?
Eu não posso dizer que sou um fã de jornalismo. Quando entrei em comunicação, não sabia se faria publicidade ou jornalismo. O que eu queria, naquela época, era trabalhar com música. Escrever foi a forma que encontrei para isso. Então, mesmo antes do livro, não sou um entusiasta em relação ao jornalismo. O que gosto é de escrever sobre assuntos que me interessam. Música é um deles. Mas podia ser cinema, comportamento, crônicas… Então, não tenho apreço por notícias, não acho escrever sobre bandas interessante (claro, quando a banda é foda, é muito legal, mas o veículo tem que deixar o texto solto, senão vira algo burocrático), prefiro falar sobre cenas, escrever sobre o mercado musical e as novas possibilidades, ou seja, pautas do dia-a-dia não me atraem. O que não quer dizer que eu refute a idéia de trabalhar com jornalismo, mas é cada vez mais improvável eu fazer isso em um grande veículo. E, se eu não entrei até agora, é improvável que eles me queiram também. Me interesso mais pelas revistas mesmo, e suas possibilidades de pautas criativas e textos mais elaborados.

8 - De onde você tira inspiração, cara? Você acredita em inspiração?
Cara, acredito em inspiração, mas acredito, também, em exercitar a inspiração, ou seja, fazer coisas que facilitem o surgimento de idéias. Uma delas é escrever sempre, de forma disciplinada. Confesso que não faço isso. Talvez essa seja a explicação para eu só ter conseguido fechar um livro depois de seis anos escrevendo ficção.
Mas sobre de onde eu tiro a inspiração… Da vida. Das coisas que vejo nas ruas, das situações do cotidiano, dos livros que leio, dos filmes a que assisto… Tiro muitas idéias de filmes. E não importa se eles são bons ou não. Adoro sair fervilhando de idéias quando assisto a um bom filme, mas às vezes filmes ruins te rendem algo.
No “Prazer da carne” tem pelo menos três contos inspirados em filmes: “Prazer da carne” foi inspirado em “Réquiem para um sonho”, principalmente a edição do filme; “Hora do rush” tem idéias tiradas de “Um dia de fúria” e “O anjo exterminador” e “Canto da sereia” têm referência à “American pie”, um dos exemplos de filmes ruins que me deram algo para escrever.
Mas a grande inspiração, acho, é a gente mesmo. Hoje, principalmente depois de quase um ano fazendo análise, consigo me enxergar em vários contos. E não estou falando do que está bem claro, mas do subtexto dos contos, algumas situações, alguns personagens e até frases que são irrelevantes para a maioria das pessoas, hoje, fazem bastante sentido para mim. Ao mesmo tempo que isso é legal, também dá um pouco de medo, porque me exponho bastante. Mas os textos não são apenas jorros do inconsciente. Tem vários textos pensados, que escrevo com a idéia clara do subtexto, da metáfora que eu quero construir.

9 - No que você acredita, Tiago Velasco?
Ah,ah,ah,ah… essa é boa. Cara, acredito em pouca coisa. Acredito na razão, nas pessoas, na capacidade de tornar sonhos em realidade. Mas, como você sabe, não acredito em respostas sobrenaturais para as coisas. Daí, a minha crença nas pessoas e no poder modificador delas.

10 - Você ouve música, quando escreve?
Não. Só seu eu tiver que entregar uma resenha de um disco e tiver sem tempo. Sou meio autista ao escutar música. Fico de frente para o som, parado. Raramente uso música como pano de fundo. Quando ouço música, ela é a atividade principal na hora. Mas tenho ouvido música mais no iPod ultimamente. É bom quando se está andando na rua, no metrô ou no ônibus.

11 - O que você tá lendo?
Não tenho lido muita ficção ultimamente. Os textos para o mestrado acabam sendo minha principal leitura. O último livro que li, e acabei há pouco, foi o do Midani.

12 - O que está ouvindo? Pintou algum sonzinho bom, ultimamente?
Não sou muito de procurar som novo. Digo que as últimas bandas de que gostei de verdade foram o White Stripes e o Strokes - e isso já faz uns sete anos. Gosto das velharias de sempre: Iggy and the Stooges, David Bowie, Rolling Stones, Beatles, Nirvana, Kinks, Sonics, Velvet Underground, Ramones, Buzzcocks. Dos brasileiros, gosto do Los Hermanos, Canastra e Do Amor. Ah, taí uma banda nova que eu gosto. Mas eu sou parcial em relação ao Do Amor.

13 - Você se preparou para responder perguntas, o que está achando dessa mudança? Você estava acostumado a fazer perguntas, certo?
Cara, não me preparei. Claro que fiquei imaginando o que as pessoas poderiam perguntar, tentando pensar em respostas, mas nada sério. Confesso que me dá um certo nervosismo, uma ansiedade. Mas o papel do entrevistador também me deixa assim, então, na verdade, as sensações são as mesmas, acho. A grande diferença é que eu tenho um trabalho como jornalista que eu acho que é bem feito e que já foi elogiado por alguns leitores. No caso da ficção, ainda é uma grande incógnita. O caminho está apenas começando.

14 - Depois disso, de responder em vez de perguntar, será que vai mudar a maneira como você faz entrevistas?
Talvez, né… Acho que todas as nossas experiências de vida são importantes e refletem na maneira que lidamos com as situações, seja uma fila de banco, seja uma entrevista ou a maneira que eu vou ler alguma coisa. Seguindo esse raciocínio, pode mudar minha maneira de fazer perguntas. Mas, também, por ser jornalista, devo ser um entrevistado um pouco diferente na hora de dar respostas.

15 - E depois de escrever um livro, vai mudar a maneira como você lê?
A maneira que eu leio vem mudando há alguns anos. Nos últimos cinco, pelo menos, presto atenção no estilo dos autores, como tratam os temas, quais os olhares sobre os assuntos eles têm. Já introjetei isso na minha forma de ler. Mas nem é só no texto escrito. Faço o mesmo com os diálogos dos filmes, com o texto dos telejornais…

16 - Você nunca pensou em ter uma banda, cara?
Já pensei. E tentei. Mas não rolou. Fizemos dois ou três ensaios. Nessa banda, que não tinha nome, o guitarrista era o Marcelo Callado, baterista do Do Amor. Era tudo música própria. As letras eram feitas por mim. Acho que foi minha primeira incursão pela escrita, já que quando comecei a escrever letras de música eu ainda estudava Economia. Mas na época dos ensaios eu já estava fazendo Comunicação.


Literatices


2 respostas


  1. 13/11/2008 às 17:06

    Leve a entrevista.
    Quem fez as fotos? Gostei. Mais da segunda. Adoro o trabalho de luz nas fotos.
    Ele é fofo (=> gracinha, gotoso, dá vontade de dar um abraço). Lógico, o texto da entrevista ajudou no conceito/julgamento.

    Se alguém me perguntasse sobre essa entrevista, sobre o livro, eu destacaria a resposta da pergunta 6.

    Também gosto mais de contos do que romances. E tudo o que Tiago disse, faço minhas palavras. Certo, então as colocaria entre aspas.

    Quem assina a capa?
    Vai ser vendido onde?
    Fiquei com água na boca.

  2. Tiago Velasco
    13/11/2008 às 17:06

    Obrigado pelos elogios.
    Vamos às informações complementares:
    Capa - Mateu Velasco (meu primo); foto - Ricardo B.S.
    lançamento: dia 25/11, Cinemathèque, Botafogo (RJ), 19h
    Além de ser vendido no lançamento, você pode comprar na sede da editora e no site http://www.editoramultifoco.com.br.
    O livro também será distribuído para algumas livrarias do Rio e de São Paulo, como a do Unibanco Arteplex e Prefácio, ambas no Rio, e na Cultura e na do espaço Unibanco, em SP.


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13/11/2008 às 17:06

Tiago Velasco lança seu primeiro livro e diz que é “meio autista ao escutar música”

Adilson Pereira

Sempre que você vir alguma referência a “amigos desta página”, esteja certo de que entre eles pode estar o Tiago Velasco. Fã de Ramones, Buzzcocks, Canastra e Do Amor, ele é daquele tipo que, OK, dá um boi para não entrar numa discussão. Mas… Com ele não tem a história de dar uma boiada para não sair. Ele não sai. Simplesmente, não sai. Velasco, figurinha fácil em bons shows e bons botecos do Rio de Janeiro, é um sujeito com quem dá prazer de conversar porque ele mergulha nos assuntos. Te ensina sobre economia, se for o caso. E não desiste de dizer que aquele timinho, o Flamengo, é algo verdadeiramente divertido e apaixonante. No jornalismo, já provou sua eficiência e sensibilidade colaborando com diversas publicações e sites. Na ficção, estréia agora com um livro que revela - como ele mesmo diz, na entrevista abaixo - um pouco do seu universo. “Prazer da carne” será lançado em 25 de novembro.

1 - Bicho, você é jornalista. Tem que parar para pensar muito na hora de separar o jeito como se escreve ficção do jeito como se escreve “realidade”?
Não. Para mim, a diferença no estilo é bem clara. Na ficção, acho que desenvolvi um estilo, não sei se próprio, mas um estilo. Então, quando penso em escrever ficção, já penso no texto dessa forma que gosto de escrever, em geral bastante seca, às vezes, telegráfica até.
No jornalismo, por mais que eu tenha trabalhado em grande parte das vezes com música/cultura, que te permite um texto mais solto, eu tento obedecer uma certa regra, com os assuntos mais importantes no início do texto. Além disso, tem as entrevistas, as aspas dos personagens das matérias, que te dão um norte. Mas, talvez por eu ter afinidade com a narrativa de ficção, eu imprima um jeito meu de escrever às matérias.
Falando sobre jornalismo e ficção, me lembrei que nos Estados Unidos ambos são chamados de escritores. Talvez seja por aí, vai depender mais de quem escreve e do veículo para que se escreve.

2 - Escrever sobre música é um flerte constante com a literatura, isto é, com o exercício de escrever sobre ficção?
Como eu falei antes, escrever em uma editoria de música/cultura permite que você exercite seu estilo nas matérias. No meu caso, então, que escrevi em revistas, que já te dão mais liberdade porque o texto é naturalmente maior, e de música independente, esse exercício estilístico é até estimulado. Para mim, é ótimo, porque o trabalho sai do automático e entra em um campo criativo. Agora, quando você escreve em uma editoria mais “séria”, acho que o texto fica mais duro e objetivo, bem ao estilo dos manuais de redação.

3 - Lembro de ter lido, talvez uma página de Orkut, que você era “candidato a vagabundo”. As palavras eram suas mesmo. Era algo tipo você querer viver de escrever, mergulhando naquele modelo, digamos, romântico do sujeito que vive de contar histórias. Essa vontade, de ser “vagabundo”, ainda existe?
É, a frase está no meu perfil no Orkut.
Eu ainda não estou certo de que gosto de trabalhar. Quando eu falo de trabalhar, falo em algo que é feito com horário, disciplina, rotineiramente… Não sei se gosto disso, mas estou habituado e não vejo alternativa a esse modo de viver - só seu eu ganhar na megasena.
Sobre a visão romântica do escritor meio vagabundo… Talvez tenha a ver, sim. Quando escrevi isso, eu podia mesmo ter pensado num jeito Bukowski de viver. Não tenho mais o menor interesse em ser como o Bukowski, mas aquela aparente liberdade dele, em alguma época, já me atraiu bastante. Fora os relatos do Kerouac, com “On the road”, e do Fante, em “Pergunte ao pó” e “Sonhos de Bunker Hill”.

4 - Hoje você anda às voltas com “web-writting”, certo? A despeito das irritações que termos assim causam em determinadas pessoas, há algo de interessante no conceito disso aí. Tem a ver com uma nova maneira de escrever, imagino. Mais uma maneira na qual se pensar. No fundo, encarar a escrita como uma coisa só não facilitaria as coisas?
Estou escrevendo para um portal. Não vejo como estilo novo de escrita, a não ser que escrever menos e botar links ao logo do texto e vídeos do YouTube represente uma nova escrita. Não creio. Talvez seja uma nova forma de jornalismo, já que a internet é uma mídia audiovisual. Então, temos o texto escrito, mas temos que pensar sempre como ilustrá-lo. Como ele permite vídeos, se ater às fotografias empobrece o conteúdo. A grande diferença é que o repórter trabalha, de certa forma, também como editor, além de ele precisar ter alguns outros conhecimentos, como tratamento de fotografia e algo de html.
Essas mudanças na forma de atuar e a exigência de novos conhecimentos técnicos podem encher um pouco a paciência. Como você mesmo disse, se encararmos tudo como um trabalho de escrita, talvez tudo fique mais fácil. O que acontece é que esse dia-a-dia nem sempre é interessante. E o fato de o texto ser muito curto facilita aquilo que falei anteriormente, de escrever de forma automática.

5 - Fala aí do livro. Eu já li umas coisas. Mas é bom que você mesmo conte aos leitores do “Sambapunk”.
“Prazer da carne” é um livro de contos, com textos que venho fazendo desde 2002. O nome do livro foi tirado do conto de abertura. É difícil falar do livro. Por ser de contos, não há tanto uma unidade. Depois, é difícil falar sobre algo que você mesmo fez. Falta um distanciamento crítico para isso.
Mas vou tentar: grande parte das histórias apresentadas é de situações que poderiam ser reais, mas são elevadas ao nível do absurdo. Assim, há textos que flertam com o surrealismo e com realismo fantástico. Geralmente, os temas são tratados por meio de uma narrativa seca, bastante enxuta mesmo. A ironia e o cinismo estão bastante presentes. Gosto da idéia de fazer um texto em que não há um julgamento de valor sobre a situação narrada, por mais esdrúxula que ela possa ser. Isso não quer dizer que não haja uma intenção crítica. Sim, há.
Assim, um mendigo se mutila e come o próprio corpo para ganhar esmolas maiores, um garoto sem dinheiro vende a avó na feira de antigüidades, pessoas vão relaxar em um centro de entretenimento em que a diversão é matar crianças pobres, um rapaz fica preso em um engarrafamento durante dias e não faz nada, nem sai do carro com medo de o tráfego começar a andar… Mas há também aqueles textos mais leves, despretensiosos, que servem de contraponto às atrocidades. Nesses casos, até a minha forma de narrar muda, dando espaço para uma prolixidade cativante.

6 - O próximo passo é um romance?
Não sei. O mercado aceita mais um romance do que contos, mas ainda não me sinto preparado e nem tenho idéias para isso. Gosto muito de contos. Varias vezes prefiro ler contos de grandes escritores a seus romances. O conto, por ser curto, apresenta a idéia de cara, de forma crua, o impacto é instantâneo. Gosto dessa possibilidade de afetar o leitor rapidamente. Sem falar que acho o ato de escrever contos muito contemporâneo: a idéia da coisa curta, rápida, fragmentada, direta me parece perfeitamente integrada no mundo em que vivemos, de internet e milhões de janelas, informações de tudo o quanto é canto…

7 - E a relação com o jornalismo, sai fortalecida ou enfraquecida dessa história? Quer dizer, depois de sentir o gostinho de lançar um livro, perde a graça escrever em jornal, revista e internet?
Eu não posso dizer que sou um fã de jornalismo. Quando entrei em comunicação, não sabia se faria publicidade ou jornalismo. O que eu queria, naquela época, era trabalhar com música. Escrever foi a forma que encontrei para isso. Então, mesmo antes do livro, não sou um entusiasta em relação ao jornalismo. O que gosto é de escrever sobre assuntos que me interessam. Música é um deles. Mas podia ser cinema, comportamento, crônicas… Então, não tenho apreço por notícias, não acho escrever sobre bandas interessante (claro, quando a banda é foda, é muito legal, mas o veículo tem que deixar o texto solto, senão vira algo burocrático), prefiro falar sobre cenas, escrever sobre o mercado musical e as novas possibilidades, ou seja, pautas do dia-a-dia não me atraem. O que não quer dizer que eu refute a idéia de trabalhar com jornalismo, mas é cada vez mais improvável eu fazer isso em um grande veículo. E, se eu não entrei até agora, é improvável que eles me queiram também. Me interesso mais pelas revistas mesmo, e suas possibilidades de pautas criativas e textos mais elaborados.

8 - De onde você tira inspiração, cara? Você acredita em inspiração?
Cara, acredito em inspiração, mas acredito, também, em exercitar a inspiração, ou seja, fazer coisas que facilitem o surgimento de idéias. Uma delas é escrever sempre, de forma disciplinada. Confesso que não faço isso. Talvez essa seja a explicação para eu só ter conseguido fechar um livro depois de seis anos escrevendo ficção.
Mas sobre de onde eu tiro a inspiração… Da vida. Das coisas que vejo nas ruas, das situações do cotidiano, dos livros que leio, dos filmes a que assisto… Tiro muitas idéias de filmes. E não importa se eles são bons ou não. Adoro sair fervilhando de idéias quando assisto a um bom filme, mas às vezes filmes ruins te rendem algo.
No “Prazer da carne” tem pelo menos três contos inspirados em filmes: “Prazer da carne” foi inspirado em “Réquiem para um sonho”, principalmente a edição do filme; “Hora do rush” tem idéias tiradas de “Um dia de fúria” e “O anjo exterminador” e “Canto da sereia” têm referência à “American pie”, um dos exemplos de filmes ruins que me deram algo para escrever.
Mas a grande inspiração, acho, é a gente mesmo. Hoje, principalmente depois de quase um ano fazendo análise, consigo me enxergar em vários contos. E não estou falando do que está bem claro, mas do subtexto dos contos, algumas situações, alguns personagens e até frases que são irrelevantes para a maioria das pessoas, hoje, fazem bastante sentido para mim. Ao mesmo tempo que isso é legal, também dá um pouco de medo, porque me exponho bastante. Mas os textos não são apenas jorros do inconsciente. Tem vários textos pensados, que escrevo com a idéia clara do subtexto, da metáfora que eu quero construir.

9 - No que você acredita, Tiago Velasco?
Ah,ah,ah,ah… essa é boa. Cara, acredito em pouca coisa. Acredito na razão, nas pessoas, na capacidade de tornar sonhos em realidade. Mas, como você sabe, não acredito em respostas sobrenaturais para as coisas. Daí, a minha crença nas pessoas e no poder modificador delas.

10 - Você ouve música, quando escreve?
Não. Só seu eu tiver que entregar uma resenha de um disco e tiver sem tempo. Sou meio autista ao escutar música. Fico de frente para o som, parado. Raramente uso música como pano de fundo. Quando ouço música, ela é a atividade principal na hora. Mas tenho ouvido música mais no iPod ultimamente. É bom quando se está andando na rua, no metrô ou no ônibus.

11 - O que você tá lendo?
Não tenho lido muita ficção ultimamente. Os textos para o mestrado acabam sendo minha principal leitura. O último livro que li, e acabei há pouco, foi o do Midani.

12 - O que está ouvindo? Pintou algum sonzinho bom, ultimamente?
Não sou muito de procurar som novo. Digo que as últimas bandas de que gostei de verdade foram o White Stripes e o Strokes - e isso já faz uns sete anos. Gosto das velharias de sempre: Iggy and the Stooges, David Bowie, Rolling Stones, Beatles, Nirvana, Kinks, Sonics, Velvet Underground, Ramones, Buzzcocks. Dos brasileiros, gosto do Los Hermanos, Canastra e Do Amor. Ah, taí uma banda nova que eu gosto. Mas eu sou parcial em relação ao Do Amor.

13 - Você se preparou para responder perguntas, o que está achando dessa mudança? Você estava acostumado a fazer perguntas, certo?
Cara, não me preparei. Claro que fiquei imaginando o que as pessoas poderiam perguntar, tentando pensar em respostas, mas nada sério. Confesso que me dá um certo nervosismo, uma ansiedade. Mas o papel do entrevistador também me deixa assim, então, na verdade, as sensações são as mesmas, acho. A grande diferença é que eu tenho um trabalho como jornalista que eu acho que é bem feito e que já foi elogiado por alguns leitores. No caso da ficção, ainda é uma grande incógnita. O caminho está apenas começando.

14 - Depois disso, de responder em vez de perguntar, será que vai mudar a maneira como você faz entrevistas?
Talvez, né… Acho que todas as nossas experiências de vida são importantes e refletem na maneira que lidamos com as situações, seja uma fila de banco, seja uma entrevista ou a maneira que eu vou ler alguma coisa. Seguindo esse raciocínio, pode mudar minha maneira de fazer perguntas. Mas, também, por ser jornalista, devo ser um entrevistado um pouco diferente na hora de dar respostas.

15 - E depois de escrever um livro, vai mudar a maneira como você lê?
A maneira que eu leio vem mudando há alguns anos. Nos últimos cinco, pelo menos, presto atenção no estilo dos autores, como tratam os temas, quais os olhares sobre os assuntos eles têm. Já introjetei isso na minha forma de ler. Mas nem é só no texto escrito. Faço o mesmo com os diálogos dos filmes, com o texto dos telejornais…

16 - Você nunca pensou em ter uma banda, cara?
Já pensei. E tentei. Mas não rolou. Fizemos dois ou três ensaios. Nessa banda, que não tinha nome, o guitarrista era o Marcelo Callado, baterista do Do Amor. Era tudo música própria. As letras eram feitas por mim. Acho que foi minha primeira incursão pela escrita, já que quando comecei a escrever letras de música eu ainda estudava Economia. Mas na época dos ensaios eu já estava fazendo Comunicação.


Literatices


2 respostas


  1. 13/11/2008 às 17:06

    Leve a entrevista.
    Quem fez as fotos? Gostei. Mais da segunda. Adoro o trabalho de luz nas fotos.
    Ele é fofo (=> gracinha, gotoso, dá vontade de dar um abraço). Lógico, o texto da entrevista ajudou no conceito/julgamento.

    Se alguém me perguntasse sobre essa entrevista, sobre o livro, eu destacaria a resposta da pergunta 6.

    Também gosto mais de contos do que romances. E tudo o que Tiago disse, faço minhas palavras. Certo, então as colocaria entre aspas.

    Quem assina a capa?
    Vai ser vendido onde?
    Fiquei com água na boca.

  2. Tiago Velasco
    13/11/2008 às 17:06

    Obrigado pelos elogios.
    Vamos às informações complementares:
    Capa - Mateu Velasco (meu primo); foto - Ricardo B.S.
    lançamento: dia 25/11, Cinemathèque, Botafogo (RJ), 19h
    Além de ser vendido no lançamento, você pode comprar na sede da editora e no site http://www.editoramultifoco.com.br.
    O livro também será distribuído para algumas livrarias do Rio e de São Paulo, como a do Unibanco Arteplex e Prefácio, ambas no Rio, e na Cultura e na do espaço Unibanco, em SP.


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13/11/2008 às 17:06

Tiago Velasco lança seu primeiro livro e diz que é “meio autista ao escutar música”

Adilson Pereira

Sempre que você vir alguma referência a “amigos desta página”, esteja certo de que entre eles pode estar o Tiago Velasco. Fã de Ramones, Buzzcocks, Canastra e Do Amor, ele é daquele tipo que, OK, dá um boi para não entrar numa discussão. Mas… Com ele não tem a história de dar uma boiada para não sair. Ele não sai. Simplesmente, não sai. Velasco, figurinha fácil em bons shows e bons botecos do Rio de Janeiro, é um sujeito com quem dá prazer de conversar porque ele mergulha nos assuntos. Te ensina sobre economia, se for o caso. E não desiste de dizer que aquele timinho, o Flamengo, é algo verdadeiramente divertido e apaixonante. No jornalismo, já provou sua eficiência e sensibilidade colaborando com diversas publicações e sites. Na ficção, estréia agora com um livro que revela - como ele mesmo diz, na entrevista abaixo - um pouco do seu universo. “Prazer da carne” será lançado em 25 de novembro.

1 - Bicho, você é jornalista. Tem que parar para pensar muito na hora de separar o jeito como se escreve ficção do jeito como se escreve “realidade”?
Não. Para mim, a diferença no estilo é bem clara. Na ficção, acho que desenvolvi um estilo, não sei se próprio, mas um estilo. Então, quando penso em escrever ficção, já penso no texto dessa forma que gosto de escrever, em geral bastante seca, às ve