18/08/2009 às 11:11
Moby
Adilson Pereira
Se um disco precisa ser ouvido mais de dez vezes e da ajuda de sete páginas de anotações – faixa a faixa – para mudar de categoria (de “deprê” para “maneiro”), ele com certeza não é um disco “fácil”. Foi o que aconteceu com “Wait for me”, de Moby. Se você é daquelas pessoas suscetíveis demais, se o tempo está nublado aí na sua cidade, cuidado. O álbum, de cara, por causa dos desenhozinhos, pode ser encaixado na categoria “fofo”. Mas até os desenhos feitos por ele – um personagem/bicho/ET-com-anteninhas – traduzem um clima inicialmente meio down e… e aí, repetindo: cuidado com este disco, nos dias nublados.
No texto que acompanha a bolachinha, escrito pelo próprio Moby, ficamos sabendo que o negócio foi gravado no estúdio caseiro dele, no Lower Eats Side, em Manhattan. O cara brinca ao dar umas informações: “‘Estúdio’ me parece uma palavra exageradamente grandiosa para descrever um monte de equipamentos adaptados em um quarto de dormir.” E não brinca na hora de chiar. Citando David Lynch, que aponta como seu diretor de cinema favorito, Moby argumenta que a criatividade pode ser maravilhosa quando não há pressões de mercado. É um daqueles releases confessionais: “Decidi fazer algo que eu amasse, sem realmente me preocupar em como ele seria recebido pelo mercado. Como resultado, é mais suave e melódico, mais triste e pessoal do que um bocado de discos que criei no passado.”
Em tempo: estas frases aí no parágrafo anterior são de uma versão em português do release, que veio na sacola da EMI.

A tristeza a que o artista/produtor se refere surge, às vezes, num formato meio “canto gregoriano descolado”. Se não sacou, ouça a faixa de abertura, “Division”. Dali, partimos para o que é o verdadeiro chill in do álbum: “Pale horses”. Graças à voz de Amelia Ziria Brown, a faixa é candidata a melhor do conjunto de 16, com ares bluesies que se misturam a trip-hopeamentos que de tão agradáveis passam rápido demais.
Moby, ainda no release, faz piada sobre a música que vem em seguida, escolhida para ser o single do disco. “Se é que você pode chamar uma música instrumental, sem vocais, que estamos dando gratuitamente de ‘single’”, diz/escreve sobre “Shot in the back of the head”. Já que vem sem a mulher-de-verdade-Amelia, a faixa teria todas as chances de passar mesmo batida. Mas eis que entrou em cena David Lynch com a missão de fazer um clipe e… E ele deu uma essência/história à música, algo que ela não tinha. Por mais esquisitas e caóticas que sejam as imagens, numa seqüência de animação capaz de fazer par com qualquer desenho estranho de festival vanguardista de animação, elas trazem uma louvável essência-consistência para a música.
Como se não bastasse o “canto gregoriano descolado”, Moby parece valer-se também de um clima igrejinha de interior. Os acordes iniciais de “Study war” bem que poderiam ser sinos tocando, num domingo. Esqueça Amelia. Agora, a parada é com Starr Blackshere, uma voz black. Não, não, vozes não têm cor, isso é sabido, mas Starr imprime um climão black – quase funky – à sua interpretação. Aí, o fato de não escapar da sonoridade dos templos até é legal, porque o canto se assemelha a uma pregação, mas sem ser rap. Benza-o Deus.
Antes que alguém reclame a falta de algo mais “sensual” no repertório, Leela James nos abençoa com sua interpretação rouca. Ela consegue se sobrepor a um clima quase new-age, em “Walk with me”. Depois disso, uma seqüência incômoda de alguns segundos, “Stock radio”, e é a vez de o próprio Moby soltar o verbo. Soltar o verbo é o modo de dizer. O que ele solta mesmo é um “Tum… Tum… Tum…” que faz a gente ter a impressão de que a festa vai finalmente começar. A música funciona como um grito. Dá a impressão de que até ali tudo tinha sido só uma preparação. Amelia, a mulher de verdade, por pouco não vira uma dúvida.
Com cheiro de década retrasada, “Scream pilots” dá um salto cérebro adentro. E como que para reafirmar o climão espacial-fofo do encarte, há “JLTF – 1”. Ela emenda em “JTLF”, com um novo toque new-age. Assim como há quem diga que o homem nunca pisou na Lua (e que tudo não passou de um espetáculo de manipulação), aquilo que parece um coral em “A sealed night” pode não ser mais do que um efeito. Acredita quem quer.
Moby diz que este é um disco feito por amigos. Quando vem lá pelas tantas a faixa que dá título ao disco, “Wait for me”, é como se o papel dela fosse nos convencer de que ele tem amigos realmente especiais. Ou que cantam bem, pelo menos. A voz é de Kelli Scarr, uma das pessoas que ele diz que você só conhece se for morador de Fort Greene ou Washington Heights. Tem mais daquela coisa new-age. Uma pitada, mas está lá. Assim como em “Hope is gone”, cantada por outra mulher, Hilary Gardner, rola um climão ainda mais introspectivo que quase faz a bolachinha ficar hermética demais.
Muitas vozes, foco no umbigo, cabeça no mundo da lua, camaradas dizendo presente, bonequinho com cara de triste, efeitos e texturas, descompromisso, desafio, um new-agismo meio chato às vezes, um exercício de resistência. Pode levar um tempo – e muitas anotações – até que surjam todas as nuances que fazem deste um disco espacial/especial. Mas elas surgem.
| Mercado/Negócios, Música, Resenhas | Comente |







Sem resposta
Assine o RSS feed destes commentários