Garota FM
SAmbaPUNk » Chuck

16/03/2009 às 20:11

Chuck

Adilson Pereira

A primeira informação a chegar por aqui dava conta de que o Forgotten Boys tinha acabado. Aqueles caras magrinhos que a gente via por aí e que, juntos, pareciam irmãos, não estariam mais tocando em conjunto. Em entrevista com Eduardo Hypolitho Benedito, o Chuck Hipolitho, baixo e voz do grupo, fica-se sabendo que não é que o FB tenha acabado… Chuck é que ralou peito de lá. Mas saiu na boa, garante. “Tudo era legal, mesmo. Mas, depois que começou não fazer muito sentido para mim, viajar de van era mais chato…”, diz, ao responder uma das perguntas feitas pelo SAmbaPUNk. “Mas, mesmo assim, era legal. Sou do tipo que gosta de colocar a mão em tudo, montar meu próprio equipamento, levar ferramentas, resolver problemas… me divertia”, completa o cara de 31 anos, casado com a atriz Débora Falabella e que começou a tocar com 13 anos de idade. Simpático, ele atende ao pedido do escriba e rascunha uma minibio: “Entrei no Forgotten em 99, no baixo. Sou apaixonado pela vida, e cresci no inteior, filho pais separados, mãe cozinheira e trabalhadora e pai ex-militar e atualmente motoqueiro ‘easy rider’.” O endereço de Chuck no My Space passou a ser o seguinte: www.myspace.com/chuckhipolitho. Agora, na hora de dar o formato final a este texto, surgiu uma dúvida: o sobrenome dele vem com “y”, mas quando usa o apelido, essa letra se transforma em “i”. O assunto acabou não sendo abordado com o rapaz. Várias outras coisas mais importantes tiveram preferência. Confira o pingue-pongue:

Sambapunk: Explica melhor por que você saiu do Forgotten Boys. Teve algum estresse?
Chuck Hipolitho: Olha, foi só mudança de rota mesmo, quando não faz mais sentido, não faz mais sentido. Queria fazer outras coisas, de outras maneiras, e em outros tempos… simples… não teve estresse, foi na boa!

Sambapunk: Todas as vezes que vi a banda, parecia que vocês eram “irmãos”. A convivência era muito difícil?
Chuck Hipolitho: Acho legal que parecia isso, de fato é isso, e acho bonito que transpareça isso vindo de uma banda. Existem parafusos a serem apertados durante todo o percurso, é natural, como em qualquer relacionamento, ainda mais profissional. Mas, geralmente, os frutos eram em maior quantidade que os parafusos.

Sambapunk: O que você acha que o FB representou/representa na cena rock do Brasil? Vocês se consideravam referência para muita gente?
Chuck Hipolitho: Eu acho que, principalmente no começo, foi um das bandas que resgatou algo aqui no Brasil, a simplicidade e a força e poder do rock and roll honesto, de verdade. Que tem muito a ver com o punkrock também. Ainda hoje acho que é uma banda referência no assunto.

Sambapunk: Dava para ganhar dinheiro com a banda?
Chuck Hipolitho: Pouco, mas, suficiente. A correria é muita, e todos querem ganhar o justo, mas, é difícil. Nunca foi a razão para desistir, até porque venho da época (que foi mais de 60%) em que não se ganhava praticamente nada, fazendo as contas.

Sambapunk: Tem alguma banda, do circuito independente, que seja uma referência para vocês, em termos de trabalho, isto é, na capacidade de percorrer este circuito e sobressair-se nele?
Chuck Hipolitho: Aqui? Antes da gente!? Creio que não… pelo menos para nossa cabeça na época. Hoje em dia, tenho praticamente toda minha atenção voltada para o que acontece aqui. Passei muito tempo olhando para fora, cheguei no momento de olhara para dentro.

Sambapunk: E lá fora, quem era/é referência para você?
Chuck Hipolitho: Os reis, o Rollings Stones, o Stooges, os Beatles, MC5, o rock, o reggae, o metal, tudo…

Sambapunk: Agora, depois da saída da banda, você tá fazendo o que, musicalmente?
Chuck Hipolitho: Tenho me dedicado à vida familiar e estou montando um estúdio onde pretendo produzir, gravar e aprender mais. E conhecer pessoas, banda, trabalhar com música sempre…

Sambapunk: A idéia é percorrer caminhos, artisticamente, completamente diferentes?
Chuck Hipolitho: Tenho feito músicas, bastante, e compondo com outras pessoas acho possível pisar num palco em breve… não vou conseguir ficar longe disso… mas vai tomar um tempo, e vai vir com leveza, sem pretensões profissionais ou comerciais…

Sambapunk: Em que medida uma atividade assim, numa banda, é importante para a sua vida? Você consegue se imaginar sem banda, hoje em dia?
Chuck Hipolitho: Me ensinou a levar a sério as coisas e as pessoas, e de estar fazendo arte. Isso foi fundamental para minha formação. Não consigo me imaginar longe de música, arte em geral.

Sambapunk: O que você anda ouvindo? Alguma coisa nova surgiu no horizonte e te chamou a atenção?
Chuck Hipolitho: Public Enemy, Allman Brothers, Captain Beyond, Sahara Hotnights… Deep Purple, Abba… parece engraçado, mas, adorei conhecer o Abba.

Sambapunk: Qual foi o grande ensinamento aprendido durante a sua permanência no FB?
Chuck Hipolitho: Menos é mais.

Sambapunk: Ao longo dos últimos anos, você viu acontecer alguma mudança significativa no circuito de bandas independentes do Brasil?
Chuck Hipolitho: Sim, com a internet a coisa começou a se difundir legal, hoje existe um circuito legal… mas, para o brasileiro, ir a um show ainda é ir para a balada e ver uma banda, às 4 da manhã… gostaria que os shows alternativos começassem a ser tratados mais como uma performance artística e menos como qualquer coisa. Falta disciplina e estrutura ainda para a cena toda em geral. Sempre vai faltar alguma coisa.

Sambapunk: O que você acha do circuito de festivais, que temos hoje?
Chuck Hipolitho: Melhor que o de dez anos atrás, e pior que o de daqui a dez anos, espero.

Sambapunk: A internet é fundamental, hoje, para um artista como você divulgar o trabalho?
Chuck Hipolitho: Fundamental, mas, felizmente, nada substitui o palco.

Sambapunk: Como você usa a internet e o que você sugere ao pessoal que está começando?
Chuck Hipolitho: Atualmente eu tenho um MySpace, onde coloco minhas idéias, que hoje são praticamente qualquer coisa que faço… é um jeito de ainda manter contato com quem quer ficar em contato… mais para frente posso usar para de fato divulgar algo, por enquanto é só o “meu espaço”. Mas, não uso, e tenho aversão ao Orkut, por exemplo. Uso a internet mais para pesquisar e aprender do que para qualquer outra coisa.

Sambapunk: Aversão ao Orkut? Por quê? Questão de (falta de) privacidade?
Chuck Hipolitho: No Brasil, virou um monte de fofoca, e é um lugar maravilhoso para falsidade ideológica, e como as leis aqui são ótimas, acabou virando um lugar para fazer fofoca, prostituição e pedofilia… É a nossa própria oficina do diabo na internet… tem gente de bem lá também… mas, como nosso próprio país, não fazem nada para limpar a sujeira. E privacidade… só existe se você quiser, certo!? Eu tenho a minha.

Sambapunk: E o trabalho cotidiano, de ensaio, estúdio, produção etc? O que é mais importante nisso tudo?
Chuck Hipolitho: Acordar feliz, tomar café com leite frio, almoçar com minha mulher… sentar e ouvir música alguma hora do dia… ouvir a Bandnews no carro… essas coisas são mais importantes do que tudo.

Sambapunk: Qual você considera o seu grande talento, fora da banda? Você sabe assumir o lado “empresário”, por exemplo?
Chuck Hipolitho: Hum… acabei tomando conta dessa parte no começo… mas, era o começo, certo!? Acho que talento é interesse e curiosidade, por tudo na vida, o resto é músculo e suor.

Sambapunk: São Paulo, há muito tempo, parece ser um mercado gigante, capaz de se sustentar. Bandas do Nordeste, por exemplo, sempre vão morar aí… Isso é bom, na sua opinião? Como é a sua relação com a cena de São Paulo? E que outras cenas, no Brasil, você aprecia?
Chuck Hipolitho: Do resto do país, aprecio muito mais a gastronomia do que a música propriamente dita… porque acho que a música acaba não tendo “de onde”. Mas Sampa acaba sendo onde as coisas acontecem e estão… nossa Nova Iorque… eu sou apaixonado pela cidade, mas, gostaria que o país e a cena dessem condições para as pessoas serem bem-sucedidas profissionalmente perto de sua cultura local, e muitas vezes perto da família… e que São Paulo fosse somente um lugar para vir beber em novas fontes, e para turismo artístico… é cruel ter que vir para São Paulo para conseguir, as pessoas se tornam quase retirantes musicais. O lado bom, e que eu realmente gosto, é que os músicos aqui acabam se misturando e enriquecendo tudo em volta. Isso não há como negar que é demais de bom.


Música, Pingue-pongue Comente


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários