12/07/2008 às 23:48
Curumin groove show
Adilson Pereira
Curumin está ligado no presente e no passado. E, assim, vai construindo seu futuro. Um futuro musical. Luciano Nakata Albuquerque, que hoje tem 31 anos, é um neto de japoneses que se formou em psicologia, trampou em ONGs e escolas com projetos na área de educação. Mas é no mundo da música - produção e execução - que ele se realiza. E nessa vai deixando muitos ouvintes felizes/satisfeitos. É o que ele consegue com “Japan pop show”, seu segundo disco, que já está na praça. Um grande disco, cheeeio de referências, com muito groove, capaz de fazer você lembrar de umas cinco mil coisas. Entre elas, Beastie Boys.
No que diz respeito à s referências, o rapaz acha que este disco lançado agora é uma prova de que houve mudança na relação das pessoas com a música. “Hoje, você anda com quatro, cinco mil sons no iPod. Tem uma mistura de referências que é natural. Nos últimos anos, você ouve música africana, cubana, tudo ao mesmo tempo”, teoriza Curumin. Se ele argumentava assim nas salas de aula, dá para acreditar que não tinha dificuldade para convencer/ensinar os alunos. “Para mim, como baterista, ritmista, sempre tem forte a referência da música negra”, segue, referindo-se à linha que mais gosta de seguir.

Ele mergulhou na bateria antes dos 10 anos de idade. Aconteceu que, ainda um Curuminzinho, mudou de escola e trombou, aos 7 anos, com um camaradinha que era filho de músicos e tocava violão. Ficou fascinado. Quis também brincar com aquilo. Brincou. Depois, tipo com 8 anos, montou sua primeira banda. E aà rolou a história de amor com a bateria. Uma história que dura até hoje. “Uma idéia que eu tenho, hoje, é de que para andar para frente é preciso olhar para trás. Você tem que ver o que aconteceu no passado, perceber as coisas”, sugere.
O que nós vamos descobrir se olharmos para o passado desse cara? Que ele adorava Sidney Magal e Gretchen e, quando criança, chegou a imitar muito o sou-como-você-já-sabe-amante-latino. O que mais, o que mais há por lá nesse passado? “Ah, aquelas coisas dos anos 70, que chegavam atrasadas por aqui. Quando eu era pequeno, só havia uns cinco ou seis canais de TV, eram poucas as opções. Lembro de ficar vendo um programa na TV que se chamava ‘Japan pop show’”, diz, referindo-se à “comédia” de onde tirou o tÃtulo para seu novo disco.

Quando ele era pequeno, os pais - que nunca foram muito ligados em música, pelo que lembra - acharam fofo aquele garoto que queria brincar de ser artista. Quando ele era já um molecão de 17, aà os pais já não acharam graça nenhuma na história de o filho ser músico. De qualquer maneira, não foi difÃcil optar pela música: “Nunca consegui me ver fazendo outra coisa. Quando eu decidi, já tava decidido.”
E agora que está decidido-decidido-mesmo, ainda que à s vezes rolem momentos de grana curta, não há nenhum sinal de arrependimento. “O mais estressante é trabalhar à noite. Isso, à s vezes, é meio mala. Todo mundo muito louco, muita bagunça, tudo muito caótico… Te desorganiza um pouco. Você dorme tarde e acorda tarde, mas tem as coisas que precisa fazer durante o dia. Não tem previsão, não tem horário. O que pode ser estressante é que é fácil você se desorganizar. Tem gente que gosta, mas é foda viver numa balada… Eu gosto de produzir, mas um dia você enfia um pé na jaca e…”, preocupa-se, dizendo em seguida que por precaução raramente bebe.
A desorganização que o artista tanto teme tornaria impossÃvel gravar “Japan pop show” em três meses, como foi feito depois de seis meses de pesquisas e de criação do que ele chamou de “um banco de samples”. “O esquema foi começar pela voz e pelo violão. Depois, gravar batera. AÃ, fomos pro baixo. De uma certa forma, temos um padrãozinho. Quisemos fazer algo bem econômico, sem entulhar de informação”, lembra. Tudo em três meses, com muita organização. “Se demorar muito mais, você começa a rodar umas lâmpadas, quer dizer, começa a achar problema onde não tem”, ensina.
Por falar em problemas, escrever seu nome artÃstico com “m” no fim não seria exatamente um problema, mas ele quis mudar, optou por Curumin - com “n” - para ficar diferente do tupi-guarani. A palavra vem de quando ele era moleque. Um daqueles apelidos de criança. Um detalhe que reforça a teoria dele de olhar sempre para trás. Quando já não era tão criança, ali pelos 18, 19 anos, Curumin tocou numa banda que tinha Paula Lima nos vocais, a Zomba. “Quando a gente começou, naquela época, tinha uma onda de fazer som tipo americano. Eu gostava de Sly, James Brown. Paula gostava de coisas mais novas. A gente misturava. Acho que pra mim tinha a ver com coisa de moleque, de estudar para querer fazer igual”, teoriza.
Hoje, ele faz algumas coisas que, se não são iguais à s pérolas do passado, pelo menos carregam muito do clima de antigamente. Às vezes, este clima é tão presente que pede a participação de alguém daquela época. Foi o que aconteceu com a faixa “Dançando no escuro”, que tem a voz de Marku Ribas. “Além de ser um personagem cult do samba-rock, ele ressurgiu. Há uns cinco anos, vi um show dele e fiquei impressionado. E há dois ele veio morar em São Paulo. O cara é impressionante, é muito musical. E é acessÃvel”, diz sobre seu convidado especial. “A gente fez a música e achou que tinha tudo a ver chamar o Marku pra cantar. Assim como aconteceu com a outra em que participou o BNegão. A faixa que tem o Catatau também tinha tudo a ver com ele…”
“Eu o Curumin tamos sempre tocando juntos, somos camaradas e temos admiração um pelo trabalho um do outro. Escutei muito o primeiro CD dele. Já tinha feito uma colaboração num remix, feito pelo Turbo, de ‘Tudo bem, malandro’, botando um vocal. Isso saiu só na gringa. Tocamos juntos também no Cordão da Insônia, um ajuntamento de amigos do qual participam também a Céu, a Anelis Assumpção, o Beto Villares e tal. Daà ele disse que tinha esse som, que tava na pilha de fazer um miami com letra sobre polÃtica, que é um campo que eu tô dentro geral… daÃ, foi. Gravamos em SP, que é meio a minha segunda casa, hoje em dia. Tô sempre por lá”, comenta BNegão, num e-mail que chega pouco antes de este texto poder ser considerado pronto.
Se o público gosta das misturas e dos encontros? Pelo que diz o Curumin, o público é tão variado que uma parte, sim, deve gostar. “Mercado? Eu não sei direito. Está muito confuso. A gente não tem distribuição. O único lugar em que o cara vai achar o disco é nos shows. Poder baixar o som da internet aumentou o alcance. Hoje, quem for um pouco mais curioso, com a internet, constrói o próprio repertório”, acredita. Por falar em repertório, ele, que aos 31 já não pode ser chamado de moleque e tampouco tem as manias de antigamente, anda atento ao que acontece por aqui em termos de música. Agora, tem ouvidos não só para o que vem de fora. Cidadão Instigado, Céu, Fino Coletivo, Do Amor, BNegão, Hurmold, Lucas Santtana, Iara Rennó… todos estão naquele lote de quatro mil músicas que fazem o Curumin iPod Show.
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