Garota FM
SAmbaPUNk » Direto de Madri

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagine se você chega a um lugar e alguém te convida para ver o jogo do filho do Pelé… entre a expectativa e a realidade pode haver uma distância irreconciliável e, pior, traumática); (c) eu não tinha a menor ideia do que esse rapaz tocaria e a explicação do release do clube gerava o máximo de suspeitas (dizia textualmente: “misturando a (música) eletrônica contemporânea mais elegante (?!) com ritmos quebrados.” Deu para entender?!). Mas, beleza, queria conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam – é preciso dizer que fui incluído na lista de VIP graças a Fernando Roqueta, um amigo, DJ espanhol, grande conhecedor de jazz, música latina, brasileira, jamaicana, funk …

A sala de espetáculo era, digamos, demasiado aconchegante, mas parecia que não haveria muito público (aliás, descobri que os madrilenos são como os cariocas, chegam a tudo com 30 minutos de atraso), mas com um sistema de som de dar inveja a qualquer casa brasileira (tudo bem, neste caso não se precisa fazer muito esforço) e acabou sendo perfeita para o espetáculo. Afinal, Taylor é uma banda de um homem só (na verdade, está iniciando esta sua “carreira solo”, ainda que tenha um grupo bem interessante de jazz, o The Cell Theory, que mistura Jazz com drum’n'bass, rap e outros ritmos contemporâneos – algo muito semelhante ao trabalho do trompetista suíço Erik Truffaz, em seu disco “The dawn”, de 1998). Está no palco com um Fender Rhodes, um notebook Mac, um teclado de comando para sintetizador virtual e um sampler – e o que faz com esta mínima parafernália é incrível.

Como seu pai, conhecido por emular o som de instrumentos de jazz com a voz, Taylor faz o mesmo, mas misturando com a prática do beatbox, isto é, sons de batidas de bateria com a voz. Mas não é somente isto: canta e toca o teclado. Claro, para isto utiliza o sampler para gravar cada imitação de instrumento que faz (primeiro o bumbo, depois a caixa, em seguida o contratempo, um prato e, depois, outro e assim sucessivamente), transforma isto em um loop que segue, enquanto toca suas composições e improvisa jazzisticamente. Em outras oportunidades, toca o sintetizador e, sobre cada sample, improvisa no beatbox.

A idéia é simples, mas poderosa se bem feita. E este é o caso: perfeita interação entre a voz e a máquina – McFerrin pai deve estar mesmo orgulhoso e feliz com a continuidade dada a seu trabalho.

Por mais que estivesse, digamos, abstrato em uma primeira avaliação, o release do show estava bastante correto, na verdade. Taylor conjuga melodias simples, mas muito bonitas e fortes com a estética da música eletrônica atual, ou seja, poucos acordes, samples e loops, variações de intensidade e andamentos, tudo isto mesclado harmonicamente com batidas fortes e dançantes de funk, R&B, rap, drum’n'bass (quebradeira total), acidjazz e até mesmo house (bem, não estou seguro que tenha sido mais esclarecedor que o texto de apresentação do concerto, mas, enfim …). A própria figura de Taylor faz com que as músicas funcionem bem ao vivo (o que nem sempre acontece neste tipo de proposta estética). É carismático e simpático, além de ter um groove invejável. A galera (que acabou chegando e lotando a pequena sala) saiu mais que satisfeita.

O melhor de tudo é que o cara é muito gente fina. Depois do concerto, ficou bebendo e conversando com todos no clube. Inclusive me disse que está muito a fim de chegar ao Brasil, especialmente ao Rio. Alguém se candidata a trazer esta banda de um home só?!

Quem quiser conhecer um pouco do trabalho de Taylor McFerrin, ouça em:

http://taylormcferrin.com/

http://www.myspace.com/taylormcferrinmusic

Crítica de show: Funk Como Le Gusta

Club Tempo, Madri, Espanha (13 de novembro de 2009)

Nada melhor para se aclimatar rapidamente em uma nova cidade do que encontrar bons e velhos conhecidos. Tive a felicidade de, estando pouco tempo em Madri, assistir a uma das bandas brasileiras de que mais gosto, o excelente Funk Como Le Gusta. O concerto era no mesmo clube, o aconchegante e intimista Tempo, e no mesmo palco do que se apresentara na noite anterior Taylor McFerrin. Se você leu a crítica anterior, perceberá que, de cara, havia um problema em potencial: como colocar aquela magnífica orquestra de dez músicos (desculpe-me se esqueço de contabilizar alguém) em um cubículo sem que ela perca a intensidade de seu espetáculo?! A dúvida era de todos que me acompanhavam. “Vão colocar todos estes homens aqui neste palco?” perguntou-me minha amiga Isabelle Sakena, na noite anterior. “Bem, sim, claro”, respondi convicto (na verdade, ainda tinha dúvidas. Pensava que, talvez, tivessem trazido apenas uma pequena parte do grupo, sei lá). Para tirar a dúvida, cheguei cedo ao clube. Todos os instrumentos estavam lá, um sobre o outro. Sobrou para as estantes com as partituras, obrigadas, coitadas, a ocupar parte da área reservada ao público. Mas a dúvida continuava: como iriam se sair?!

Esta dúvida demorou a ser sanada. Afinal, houve um considerável atraso (uns 40 minutos, talvez) para o início do show. Então, entraram os membros do Funk Como Le Gusta no pouco palco que lhes restava e logo se viu que a compressão de espaço faz a banda funcionar ainda melhor. Nada intimidados por uma platéia que estava não apenas muito próxima como também extremamente apreensiva, a fim de saber que tipo de som faz uma banda brasileira com nome em castelhano (quantos não me perguntaram “por que eles têm este nome?!”), estes experientes músicos deixaram seu funk rolar como se estivessem em casa. Na verdade, foi um típico concerto dos caras: sons clássicos e dançantes, simpatia a dar e vender. “Somos do funk”, “Agente 69″ e, claro, “16 Toneladas” não faltaram no repertório – como manda, aliás, o figurino. Covers também não. Destaque para as de Sandra de Sá e Gerson King Combo. Ah, e as coreografias da banda são mesmo empolgantes. Não basta ser um grande músico para tocar ali; tem de saber cativar. Talvez isto explique o êxito deste pessoal.

Agora, a melhor parte do concerto é, sem dúvida, quando os músicos saem do palco e invadem a pista, junto ao público, tocando percussão. Isto surpreendeu e impressionou os europeus, que não tardaram em aprovar e a bater palmas.

A grande decepção da noite foi descobrir que os caras não sabem falar espanhol! Com este nome, sempre imaginei que tivesse alguém na banda que fosse hispano-americano ou coisa que valha. Mas que nada. ¡Joder! (que é como se diz aqui p.q.p…)

Bem, de toda forma, isto em nada interferiu na conexão com o público. Pelo contrário. Todos, espanhóis, brasileiros, argentinos e demais nacionalidades que ali se encontravam dançaram da mesma forma. Como? “Daquele jeito”, parodiando uma das frases de suas músicas. Enfim, foi muito bom me sentir em casa. Valeu, FCLG!


Coluna, Música, Resenhas, Show


Sem resposta


Assine o RSS feed destes commentários

26/11/2009 às 22:12

Direto de Madri

Leonardo De Marchi - colunista

Crítica de show

Taylor McFerrin: Club Tempo, Madri, Espanha (12 de Novembro de 2009)

Ao ouvir o primeiro convite, admito que fiquei reticente. Imagine aquela situação na qual alguém vira para você e diz: “Vamos ao concerto do filho de Bob McFerrin?!” Ah, cabem algumas explicações contextuais: em virtude de meu doutorado, passarei seis meses na Espanha, baseado em Madri, com o apoio de bolsa da CAPES. Claro que o objetivo central é estudar, mas isto não me impede de realizar incursões culturais pela cidade, pelo país e, claro, pelo Velho Continente. Dito isto, logo em meu primeiro fim de semana in town, fui convidado por meus amigos locais a assistir Taylor McFerrin, filho do grande vocalista de jazz Bob McFerrin (que canta “Don’t worry be happy”, música que seguramente você já a ouviu em algum lugar, pode crer), num literalmente pequeno clube local, o Club Tempo. Bem, os problemas com a pergunta que me foi feita são os seguintes: (a) você chega a uma nova cidade e não quer sair gastando a (pouca) grana que tem; (b) essa coisa de ir ao show do “filho de alguém” quase sempre é uma furada (imagi