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19/05/2009 às 2:39

Joseph K?: A periferia e os downloads

Colaboração especial

Felipe Gurgel

Ainda aos poucos, é verdade, o circuito independente percebe que a periferia das grandes cidades traz um público interessado. A fim de conhecer o novo. Para o trio Joseph K?, de Fortaleza (CE), isso é foco. O vocalista e líder do grupo, Talles Lucena, defende que essa galera ainda “sabe ser público”, como define na entrevista abaixo. Ele mantém o selo Panela Discos e traz, em maioria no seu cast, bandas da periferia da capital cearense.
 
O rumo do selo traz um dado interessante: a maioria dos lançamentos é totalmente virtual, apostando na proliferação de lan houses pelos bairros periféricos de Fortaleza. Com a própria banda, Talles não faz diferente. O Joseph K? lança seu segundo álbum virtual, “The full time rockers club”, no site do próprio selo: www.paneladiscos.com. São dez faixas de puro “rockão”, como já é comum chamarmos, entre rodas de conversa, o estilo mais clássico e direto do rock´n´roll. As músicas estão disponíveis para baixar desde 16 maio.
 
Joseph K / Foto de Divulgação

Sambapunk: O Joseph K? já fez um monte de coisa desde que o trabalho de vocês começou a ser notado em Fortaleza: show acústico, passou pelos principais festivais, palcos do centro e periferia. De onde vem tanto estímulo para ser pró-ativo?

Talles Lucena: A gente ama o que faz. E, apesar das adversidades, fazemos com orgulho. Onde estiver alguém que ainda não tenha nos escutado, ou que já nos conhece e tem dificuldades em nos ver, nós iremos também. Os shows pela periferia surgiram dessa necessidade, o formato acústico, também; de certa forma. Temos público hoje em dia para ambos os formatos: pessoas que adoram o normal, elétrico, e outras que adoram o acústico. A gente trabalha com música, realmente.

Sambapunk: Vocês fazem parte do Panela Discos, que hoje talvez seja o único selo que trabalha com a periferia de Fortaleza. Ao mesmo tempo que a banda lança os álbuns virtualmente, com poucas cópias físicas. Isso não pode ser interpretado como uma contradição? Já que o suporte virtual ainda não atende bem todos os perfis de público?

Talles Lucena: Não se trata de contradição, mas sim adequação às nossas necessidades. Desde que vi estudos sobre o número de lan houses na periferia de Fortaleza, fiquei impressionado com o tamanho das nossas possibilidades. Acho contraditório vender um produto para quem já tem suas dificuldades diárias: o mínimo que podemos fazer é distribuí-lo livremente na net. As bandas que trabalham conosco, no Panela Discos, tem um instinto de coletividade grande e natural. Não nos reunimos para pensar isso, apenas sabemos que se trata de algo bem importante.

Sambapunk: Ainda na periferia, quais os maiores trunfos de se trabalhar um selo focado nesse segmento da cena, hoje? Talvez a instabilidade do centro mais elitizado (Praia de Iracema e adjacências)?

Talles Lucena: O maior trunfo é saber que tem gente muito boa fora dos circuitos (se é que Fortaleza tem um) já batidos do perímetro Praia de Iracema-Aldeota-Dragão do Mar. A gente não tem cena, essa é a verdade. Somos segmentados. Acho que se não fosse pelo nosso trabalho do Panela, Fortaleza não teria acesso a algumas bandas que eu julgo importantes daqui, porque são marca registrada de regiões da cidade também, como Bonecas da Barra (Barra do Ceará) e o The Good Gardem – com “m” mesmo (Bom Jardim).

Sambapunk: E para o Joseph K?, o investimento na periferia trouxe retorno? Onde está o público da banda hoje?

Talles Lucena: Como bom produto do pop, nosso público está em todos os cantos e em lugar  nenhum. Mas temos fiéis seguidores, sim; poucos, mas significativos. Todo show na periferia é festa, maravilhoso. Acho que em poucos lugares de Fortaleza as pessoas sabem tanto ser público como lá. Em geral, as pessoas vão para os shows pra ficarem tecendo críticas, ou completamente alheios às pessoas no palco. Na periferia, não.

Sambapunk: O que ainda falta a banda fazer em Fortaleza?

Talles Lucena: Em termos de planejamento, queremos ainda gravar CD e DVD ao vivo. A curto prazo, seria lindo se a gente ganhasse um real por cada coisa que fazemos.


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