03/10/2008 às 23:04
Skank: no mainstream, sem rebeldia fake
Adilson PereiraUm pouco antes de sair para a entrevista com o Skank, este que vos digita havia dado de cara com uma série de mensagens, surgidas numa discussão sobre rock independente no Nordeste, sobre declarações de Samuel Rosa. O cantor do grupo mineiro teria dito, um dia antes, algo que produtores e músicos do circuito “alternativo” transformaram em polêmica. Era mais um assunto – além do lançamento do disco “Estandarte”, produzido por Dudu Marote – para o “Sambapunk” tratar com o quarteto que também inclui o baterista Haroldo Ferretti, o baixista Lelo Zanetti e o tecladista Henrique Portugal. Não houve engarrafamento no caminho entre Laranjeiras e Botafogo. De passagem pelo shopping center Rio Sul, a caminho da torre em que fica o escritório da Sony BMG, ainda deu tempo de matar a saudade do milkshake de chocolate do Viena. O tempo estava a favor do “Sambapunk”, porque ainda foi possÃvel, durante os dez minutos de espera na recepção, ver Lelo escovando os dentes enquanto conversava sobre música com a recepcionista. Aquele “desprendimento” todo era mais um assunto a ser abordado na entrevista.
Na sala em que estavam os caras, havia também malas e cuias. Eles partiriam dali direto para o aeroporto, onde embarcariam de volta para a sua BH natal. Antes de falar sobre a polêmica na lista de discussões sobre rock independente, os quatro percorreram o caminho que os havia levado até ali e fizeram – entre outras coisas – uma espécie de análise do mercado musical de hoje em dia. “A gente não está isento a nada. A gente sofre as conseqüências das constantes mudanças que acontecem na indústria. É uma adaptação, mas um caminho sem volta: não dá pro Skank voltar a ser independente. O Skank hoje está refém de uma indústria combalida”, começou Samuel Rosa, se tocando em seguida de que “refém” é uma palavra muito “forte”. “Apesar de todo mundo condenar, a indústria está viva, ainda. Não com a força que tinha… Estamos no 17º ano de existência, somos uma das bandas com maior longevidade dentro da gravadora. E renovando o contrato para mais discos. Quer dizer, o Skank ainda interessa à gravadora.”

A gravadora também ainda interessa ao grupo. Samuel disse isso claramente e todos os outros concordaram. “Por mais que o Skank tenha sido independente, um dia, e no nosso modo de tocar a carreira a gente guardou traços dessa época, a gente conservou esses traços que agora mais do que nunca estão sendo preciosos. Porque o mercado fonográfico já não encampa mais tudo. Não é mais piloto automático: grave um disco, lance o álbum, faça promoção na televisão e na rádio, venda milhões, faça os shows… Não é mais assim. Por outro lado, o Skank ainda tem a possibilidade de usufruir de uma situação confortável que a gente construiu ao longo dos anos. A maioria dos grupos da geração dos anos 90 já não existe. Mais do que nunca, a gente tem o direito de fazer um disco que não venda tanto, de onde não saia um grande hit sem que isso abale tanto. Porque hoje a gente tem uma história que acaba sustentando. Não só uma história remota, mas uma história recente, também. Ou seja, o Skank até hoje consegue despertar o interesse das pessoas. E isso é uma condição essencial, imprescindÃvel pra esse universo em que a gente está. Você está aqui porque tem um interesse; a gravadora quer renovação de contrato, as rádios quando tocam a música… Mas só a justificativa de fazer música, à nossa maneira, já seria suficiente para continuar tocando. E um público conectado com a banda completa o que precisa pra continuar existindo…”
Henrique Portugal pega daÃ: “A gente consegue despertar o interesse, e esse interesse não é só da gravadora. O público sai de casa para ver os shows. E o público faz com que o Skank seja, dentro dessa renovação, a primeira banda a ter um Celular de Ouro. É isso que nos seduz a ter uma coisa nova toda vez que vamos gravar um disco. Não é só “Vamos gravar um disco!”. Foi a primeira vez que a gente gravou sem parar de ir para a estrada. Foi uma opção por fazer diferente. O prazo foi extenso: seis meses. Por outro lado, foi legal, a gente ficava em estúdio, se afastava um pouco. E, quando a gente voltava, reavaliava. A gente foi pra Europa, fazer o Rock In Rio. Nós mudamos algumas coisas. Isso é legal, fazer de uma forma nova, gravar diferente. Gravamos muita coisa ao vivo. Eu gravei muita coisa amplificada, que à s vezes fica como guitarra. Demanda uma dedicação muito grande. Então, quando a gente vê que muitos pararam, lá atrás, a gente vê que não é fácil.”
Lelo é convidado a dizer se uma das coisas diferentes que ele gosta de fazer é escovar os dentes fora do banheiro, como que num exercÃcio de desprendimento. O cara ri e confessa: “Quando rola de à s vezes estar escovando o dente… Coincidências, eu não sei se existem ou não… mas sempre entra alguém para dar uma cagada.” AÃ, todos rimos. “Tá explicado: tem sempre o cagão misterioso”, interfere Samuel, antes que Lelo retome seu raciocÃnio: “É tranqüilo. Essa coisa do Skank é um trâmite muito espontâneo mesmo. Acho que a gente lida assim com fãs, também. Um dos motivos para a gente não ter tido fãs histéricos é um pouco esse jeito nosso, meio informal. Bater papos normalmente na recepção…”

Os caras dizem que a simplicidade é mesmo uma caracterÃstica deles e que já foram postos em xeque por conta desta atitude. Samuel tinha um caso para contar a respeito disso: “Já teve um presidente da gravadora que, ali quando as vendas diminuÃram… Porque tinha que diminuir, ninguém consegue vender um milhão, depois outro milhão, e outro milhão, por mais que fosse uma indústria a pleno vapor, inchada, saudável. Ele me chamou pra conversar e parece que falou algo que sempre o incomodou e ele não tinha coragem de falar porque a banda vendia muito: ‘…e, Samuel, mais uma coisa: você não acha que devia se vestir de outro jeito?’”
‘Como assim, presidente?’
‘Sabe por quê? Eu tenho a sensação de que se tivesse um show aqui do lado você subiria no palco com essa roupa…’
‘Mas não é bom, isso? Não é legal?’
‘É… não sei… o palco é um lugar mágico… Diferente… As pessoas têm que se vestir diferente.’
Quer dizer: incomodava a ele, como acho que incomoda muita gente, esse desprendimento, essa falta de glamour. Não respondi nada. Eu não tinha que responder aquela pergunta. Pensei: ‘Agora, que não vendeu um milhão, você tá pensando isso. Porque quando vendia um milhão você estava achando lindo…’ Mas eu não falei. Porque era um cara com quem eu não tinha a menor conexão. Tenho muito mais com o (presidente) de agora. Sempre tive a impressão de que, por a gente ter sido trazido para a gravadora pelo diretor artÃstico, ele morria de ciúme.”
Os caras contam que vez ou outra eles são cobrados. É o cantor e guitarrista quem mais uma vez destrincha a história: “O Skank não está envolvido em polêmicas, tem esse bom-mocismo… Até hoje, ainda me assusta como as pessoas acreditam nesse clichê do rock. O pop rock está habitado por uma fauna incrÃvel. Tem o cara doido, o que é doido mesmo… tem o que finge, que pra mim é a maioria. E tem o que não é e não finge. Até quando as pessoas vão cobrar do Skank que pague esse pedágio? Parece que para ser artista tem que ter um desatino, uma coisa torta. E se forem procurar a gente tem. Mas não fazemos questão de mostrar isso pra sermos credenciados a subir no palco e tocar para duas mil pessoas. Não vejo a necessidade disso. Tem a rebeldia fake. E à s vezes há jornalistas que preferem acreditar naquilo. Quando na verdade está fácil de perceber que aquilo é uma jogada, uma mentira.”
A tarde meio nublada parece ser apropriada para compartilharmos causos. Samuel lembra então de uma vez em que viu o falecido jornalista Paulo Francis referir-se ao (também falecido) artista plástico Basquiat: “Achei engraçado… O Francis fala sobre o Basquiat: ‘Assim como o Andy Warhol: mero ilustrador. O pior do Basquiat é que ele suicidou para fazer graça.’ Está cheio de suicida que quer fazer graça. E antes ser a nossa levada normal do que se prestar a isso, né?” É.
Haroldo Ferreti diz que acha fundamental manter esta essência: “Se a gente tivesse se deslumbrado… não foi assim que o Skank foi feito. Quando a gente resolveu montar a banda, a opção era fazer shows e gravar um disco, tocar para gravar este disco, sem grandes perspectivas de vendas. A gente fez três mil cópias, pensando em vender talvez 1.500 para fazer o segundo. E, de lá pra cá, como aconteceu, acho que os acertos e os erros saÃram das nossas mãos. Nós é que decidimos tudo, 99% são responsabilidade nossa. Tanto quando vendeu um milhão quanto depois, quando não vendeu… foi muito natural.”
Sorte? Ferretti acha que, sim, tem o fator sorte na equação skankiana: “Quando eu falo desses 99% que deram certo, põe sorte no meio. Estar no lugar certo, na hora certa, com a pessoa certa… Você não acha que é sorte estarmos os cinco, incluindo nosso empresário, estarmos concentrados, para não deixar o cavalo passar…? A sorte se encaixa nisso aÃ, também. Você tem que estar pronto, pra quando surgir a oportunidade.” Henrique Portugal concorda: “O que acontece muito, e eu vejo isso por causa do programa de música independente que eu tenho, é de a oportunidade passar e o cara ficar lá. O cara não está pronto… Não tem o CD…”
Por falar em sorte, eles não acham que este seja um bom momento para o pop rock. “AÃ, tem tudo: a indústria fonográfica não ganhando mais aquela grana toda, não pode bancar discos novos. O primeiro disco do Skank, que era o independente, não teve um grande hit. Se fosse nos dias de hoje, talvez o Skank tivesse sido mandado embora. Eu sei de bandas que não tiveram a segunda chance”, declara Samuel Rosa, antes de dizer que a sorte hoje em dia está do lado das músicas mais populares, do sertanejo. Henrique Portugal, rindo, interrompe para declarar que vivemos o momento do “sertanejo universitário”. E Samuel dá exemplos: “Esses caras fazem temporadas abarrotadas em SP, onde antes quem fazia temporada com bilheteria esgotada era a gente. O rock brasileiro renunciou a um legado muito bacana que vem dos anos 80, que é um pop rock abrangente, que consegue tocar as massas, o povão, o lavador de carros, o engenheiro… se pensar naqueles tempos da MTV que uma hora era Skank com ‘Garota nacional’ e noutra hora era Raimundos com ‘Mulher de fases’… É mais difÃcil. Não sei se é um fenômeno mundial. Fico pensando que, cada vez mais, vão minguando aquelas bandas que enchem Wembley: Oasis, Coldplay… E essas novÃssimas? Arctic Monkeys vai chegar a isso, um dia? O Kaiser Chiefs? Parece que não. Enquanto isso, o Bruce Springsteen está lá, lotando estádios.”

O momento não é de tensão. Mas dar umas risadas é sempre bom. Então, passamos alguns minutos zoando Bruce Springsteen. Eles, da banda, zoam o empresário, dizendo que o “pobre coitado” já viajou umas 15 vezes para ver shows do Springsteen. Alguém sugere uma parceria entre o gringo e Claudia Leitte e voltamos todos para os assuntos mais sérios. Era a hora de falar de rock independente, da polêmica na lista de discussão nordestina. Samuel afirma: “Existe uma renúncia, quase uma fobia ao mainstream. Comentei que se chegou até ao cúmulo de a maioria cantar em inglês. Cada um faz o que está a fim. Mas onde esses caras querem chegar? Eu não estou tentando ser doutrinador, é uma questão pessoal, mas fico querendo entender onde eles querem chegar cantando em inglês. Essa renúncia toda é por quê? Essa fobia… cantar em inglês não é fugir da briga boa, que é fazer rock em português? Encher a geladeira com música… O Brasil precisa de Ãdolos no rock também. Fico me perguntando: será que nessa, de ter essa fobia, de não querer flertar com o mainstream, a gente não está perdendo novos Renatos Russos, novos Cazuzas? Novos caras legais, geniais… E o Brasil vai ficar a ver navios, vai ficar esperando esses meninos…”
O grupo topa passar por um teste sobre bandas independentes. A regra é simples: o entrevistador diz um nome e eles dizem se conhecem ou não aquilo.
Vanguart. Todos falam que conhecem e Henrique completa: “Eles são de Cuiabá, estão em SP.” Samuel: “Eu conheço e gosto, mas cai nesse negócio de cantar em inglês…” Henrique: “O som deles está mais aberto.”
Los Porongas. Samuel diz que conhece o nome mais do que o som. Henrique marca mais um ponto: “É lá do Acre.”
O Jardim das Horas. Ninguém conhece. Explico que o grupo mudou o nome recentemente, que era O Quarto das Cinzas. Mas mesmo assim ninguém conhece. Depois de ouvirem sobre o que há n’O Jardim, parecem ter se interessado.
Cabaret. Ninguém conhece.
Superguidis. Henrique: “Os gaúchos lá do Senhor F… Mas não vai chegar a main. Entra na turma dos festivais. Não é essa coisa Radio Mix. Superguidis é uma coisa legal, mas eles ainda estão condizentes nesse circuito…” Samuel: “A rádio tem que incorporar isso. O povo não quer só comida, quer diversão e arte. Mas eu fico pensando em algo como Los Hermanos, que virou uma banda nacionalmente conhecida.” Henrique: “Talvez num próximo trabalho possam chegar a isso, com um produtor com a cabeça mais aberta.”
Filomedusa. Ninguém conhece.
Diego de Moraes e o Sindicato. Ninguém conhece. Samuel: “O Manu Chao conseguiu aquele sucesso todo porque ele colocava a mochila nas costas e ia a todos os lugares…”
Canastra. Todos conhecem. Henrique: “Canastra é aquele que tem aquela música ‘Vingança’? Bicho, essa música é boa demais.” Samuel: “Foi o Gabriel do Autoramas que me aplicou. Falei muito do Canastra com o diretor artÃstico daqui, o Bruno Batista. Mostrei o disco…”
MQN. Henrique: “MQN é o FabrÃcio, né?” Samuel: “FabrÃcio da Monstro?” Henrique: “Já coloquei no programa…”
Os Bonnies. Henrique diz que já colocou no programa, mas não lembra deles para falar a respeito.
Lucy And The Popsonics. Ninguém conhece.
Montage. Henrique: “É cearense, eletrônica…”
Manacá. Ninguém conhece.
Macaco Bong. Henrique: “De Cuiabá, instrumental.” Samuel: “Alguém aqui falou do Macaco Bong… a gente tava falando do Pata de Elefante…”
Supergalo. Samuel: “É do Fred…” Henrique: “…Fred dos Raimundos… Eles até conseguiram uma história de tocar no Leste Europeu.”
Galinha Preta. Ninguém conhece. Ao ouvir a informação de que a banda é de BrasÃlia, Henrique cita Sapatos Bicolores.”
Volver. Henrique: “Volver é mais pop, né?”
Retrofoguetes. Henrique: “Já ouvi falar.” Samuel: “Retrofoguetes é de onde, do Rio?”
Henrique leva a lista de artistas/bandas para incluir alguma coisa daquilo no seu programa. Depois, antes que a assessora de imprensa capoeirista dê pontapés no escriba para tirá-lo da sala, Samuel fala sobre algumas das músicas que estão no disco novo do Skank: “‘Escravo’ é das favoritas. Tem explicitamente traços dessa predileção do Skank. Tem os synths. Na letra, ela tem… não querendo profetizar nada, o rádio hoje está tão diferente, tão distante das coisas que o Skank tocava, que é algo politicamente incorreto. ‘Escravo’ é um cara dizendo assumidamente que não tem chances contra a mulher. Tem conotação sexual, sim. Dizer que você vai servir uma pessoa é um negócio pesado. É um cacoete do Chico. Ele não usa muito, talvez nesses momentos…” Falando sobre versos desta música, Samuel diz que o “fumo… é nada mais do que uma brincadeira. O fumo aà é um narguilé, né? De frutas, hortelã, menta…”
Os outros riem. E ele esquece de explicar sobre a citação ao Islã, que também aparece na letra. Melhor passar para a música seguinte: “Sutilmente”. Samuel explica: “Já é um pouco na onda… não é tão distante de algo que eu e Nando já tenhamos feito. Essa é uma das poucas músicas do álbum que eu musiquei em vez de mandar a melodia. Eu tive uma grande preocupação de não mexer muito, de tentar a coisa de uma forma simples. Essa letra tem uma resolução pop tão legal, ela é um exemplar da raça, uma coisa dita de forma direta, que as pessoas vão entender. Sem descambar pra pieguice. Ela tem um molejo na letra. Eu não podia atrapalhar essa letra, então, fiz uma melodia simples.”
Outra dele e de Nando Reis é “Pára-raio”: “O Nando é um parceiro de mais de dez anos. Apesar de nos discos ele não ser uma coisa majoritária. Recentemente, reclamei com ele: ‘Estou cansado de ser colocado na prateleira dos intérpretes das tuas músicas. Eu sou mais do que isso, eu sou um parceiro.’ E ele falou: ‘Você é um parceiro e atualmente talvez o único.’ E nesse disco eu encontrei ele incrivelmente disponÃvel. Tem mais uma música que eu fiz com o Nando que não entrou no álbum.”
Antes dos apertos de mão, Henrique faz questão de falar sobre a capa feita por Rafael Silveira, do grupo curitibano Los Diaños. A gente lembra que eles já lançaram um vinil e o pessoal do Skank se anima com esse assunto. Dizem que querem lançar um, também. Ficamos na espera. Ansiosos.
| Música | Um comentário |







Uma resposta
alexandre aquino
03/10/2008 às 23:04
Parabéns! bela matéria! Me fez ver o skank de outra maneira. Abração!
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