16/09/2009 às 14:59
Sorria, vagarosamente
Adilson Pereira
Mesmo lá atrás, naquelas épocas em que a informação não circulava tão velozmente, um intervalo de cinco anos entre dois álbuns era coisa demais. Hoje, já se enxerga outro lado nessa moeda aí: meia década continua significando um intervalo bastante grande e, numa era em que surgem cantoras a torto e a direito, essa “demora” pode dar a alguns a impressão de que fulana sumiu, desapareceu, escafedeu-se. Mas 1825 dias podem não significar muita coisa se, entre um projeto e outro, a artista soube manter-se em evidência divulgando seu potencial e marcando presença junto a um público formador de opinião. Com Céu, foi isso que aconteceu. E no ressurgimento dela, agora, com “Vagarosa”, parece que foi outro dia que ela apareceu para nos impressionar. Tal sensação, no entanto, mais do que confirmar qualquer teoria sobre o significado do tempo na sociedade contemporânea deixa claro – isso, sim – que estamos diante de um belo álbum.
Céu soube viajar por sonoridades, sem abrir demais o leque. E foi capaz de escolher bons parceiros, gente talentosa. “Espaçonave”, por exemplo, é dela com o celebrado Fernando Catatau. Uma música capaz de fazer o ouvinte ter a impressão de estar diante da obra de dois velhos conhecidos. Feita em parceria com Siba, “Nascente” é usada por Céu para provocar uma certa estranheza no início. Depois, ela aproveita os grooves e sopros suingados para brincar com a voz. “Bubuia”, feita por Céu com Thalma de Freitas e Anelis Assumpção, rende uma espécie de crônica lânguida, num tom confessional e intimista. De trio a quinteto: “Sonâmbulo” é um flerte com o rap feito por ela com Serginho Machado, Bruno Buarque, Lucas Martins, DJ Marco e Guilherme Ribeiro.
Com Beto Villares, a associação rendeu mais frutos. Ele não apenas é parceiro de Céu em três músicas como também aparece nos créditos como um dos produtores do disco. Também figuram nesta lista Gustavo Lenza e Gui Amabis, além da própria Céu. As três com Beto Villares são “Comadi”, “Grains de beauté”, “Cordão da insônia”. A primeira subverte um pouco o samba-reggae e é uma das várias músicas em que o baixo (neste caso, tocado por Lucas Martins) faz uma diferença danada, isto é, se sobressai. A última, que vem com vocais adicionais de BNegão, é para o(a) amigo(a) aí chegado(a) num reggaezinho.
Villares foi fundamental, tocando contrabaixo, para dar vida a “Cangote”, uma das cinco faixas compostas somente por Céu. Na verdade, o parceiro-produtor cuida também da guitarra e dos scratches em “Cangote”, ajudando a criar uma cozinha tango-soul-psicodélica ideal para a interpretação “manhosa” da dona do disco. Outra só dela, “Vira-lata”, ficou na medida para um interessante diálogo com Luiz Melodia, que participou da gravação que resultou num sambinha bem melancólico. Quer dizer, sambinha bem sambinha. Outro figurão que “participa” é Jorge Ben, de quem ela pegou “Rosa menina rosa”, única regravação do disco – que, com presença de Los Sebosos Postizos, começa meio psicodélica para depois descambar para uma espécie de samba-espacial. Isso aí, samba-espacial.
| Música, Resenhas | Comente |







Sem resposta
Assine o RSS feed destes commentários