29/07/2008 às 22:13

Wander Wildner: rumo à praia ou ao campo de golfe?

Adilson Pereira

Wander Wildner esteve no Rio para dois shows. Na sexta, 25, o gaúcho se apresentou para um público não muito grande mas que, em sua maioria, cantava as músicas junto com ele. Mesmo as que eram do disco que estava sendo lançado ali, “La cancion inesperada”, ganhavam um corinho de fazer gosto. Dava para ver que WW estava animado com aquilo. No dia seguinte, depois de almoçar com o pessoal da banda, ele cumpriu a promessa de conceder uma entrevista ao Sambapunk. Wander estava hospedado num hotel em Botafogo, mesmo bairro em que fica o Cinemathèque, bar em que ele havia se apresentado na noite anterior e onde faria um segundo show mais tarde. No quarto dividido com o guitarrista Jimi Joe, a TV estava ligada num canal que mostrava um torneio de golfe. Wander diz que começou a se interessar por aquilo há alguns anos. O torneio que está sendo exibido é feminino. “Tem a Lorena Ochoa, uma mexicana. Ela joga pra caralho”, ensina o artista, antes de falar sobre um modo de treinar que lhe parece muito mais apropriado: você começa de perto e, aos poucos, vai se afastando do buraco. “Aquelas tacadas mais longas, que são as mais difíceis, você só dá depois…”, diz, como que comemorando.

Ele acha que existe uma relação entre o gosto que adquiriu pelo golfe e a vida que vem levando, atualmente. Nas áreas em que se pratica o esporte de origem escocesa, tem aquele verde, aquela calma… E mais: “Tu tem que te preparar. Jogar uma partida de golfe é como fazer um disco, é como ensaiar… Tu é obrigado a te concentrar. É que nem a respiração. Pra respirar, tu tem que te concentrar no que tá fazendo. A gente não respira direito. Não faz nada direito.” Ele acha natural que agora, aos 48, se interesse por um esporte assim. Mais natural do que se isso acontecesse quando ele tinha 30 e poucos.

A chegada dos 50 parece não assustá-lo: “Vou fazer 49, este ano. 50, só ano que vem. É legal. É uma brincadeira, né? Só um número redondo que a gente tá acostumado a… Aos 36, tinha uma revolução… Se bem que agora eu tô noutra revolução, provavelmente. Vários ciclos astrológicos, que influenciam na vida da gente. E a mudança se dá com isso daí. A mudança é constante no ser humano. Tu muda o tempo inteiro. Como é que vai negar isso? Faz parte da vida. Não posso negar uma coisa que é da vida, negar alguma coisa que é natural.”

Além de aprender que não dá para ir contra certas coisas na vida, ele recentemente sacou que “um show não pode ser reto”. “Show de banda é igual; do começo ao fim, é igual”, reclama, dizendo que fez muito isso com Os Replicantes. Agora, ele e os Comancheros estão procurando uma dinâmica diferente. Muita dinâmica: “No meio da música, tem dinâmica. Nos blocos, tem dinâmica. Tem que ter um monte de coisa no show. Tu tem o som, o público, o dia como tu tá, o astral do lugar, a alma do lugar. Hoje em dia, optei por fazer shows só em lugares que eu gosto, em situações bacanas. Show para milhares de pessoas é distante, o palco é distante das pessoas. Não é verdade, não é legal. Show grande… eu nunca gostei de show grande. Só no começo dos Replicantes. As pessoas, nos lugares grandes, vão pela balada, pela história.”

O escriba faz uma piada que, se fosse uma tacada de golfe, não seria uma hole-in-one: palco grande só se for a torcida do Grêmio cantando “Bebendo vinho”… Wander faz que não ouviu. Ou está muito concentrado na loira da TV, que não é a Lorena Ochoa.

Falar de lugares grandes parece incomodar o veterano. Ele insiste no assunto: “Acho que antes eu imaginava um cenário alternativo, de ir melhorando ele. Aí, tu fica lutando com o Brasil. Não vou ficar lutando com o Brasil. O Brasil é assim, é natural ele ser assim, foda-se, vou fazer aquele show ali, tocar com os amigos, pra ser bacana. A gente tem que se sentir bem tocando, não pode ir além disso. Não pode deixar o ego te levar. Tu tá com a banda, aí a música tá saindo, vai pro público e volta. Manter isso é que é legal. Nós somos ao vivo como se estivéssemos num ensaio: tocando, pelo prazer. E isso tem que se manter pelo show inteiro. O barato de fazer um trabalho é isso.”

Esse músico que está de olho no prazer viu surgirem no circuito musical muitas coisas novas, ao longo dos anos. Não se mostra muito satisfeito com o que concorda ser um “circuito mais industrializado”. “É por isso que eu parei. Eu tava tentando manter sempre a coisa dentro disso. Ficar tentando com que as pessoas entendam a tua música, que saibam que tu lançou um disco, isso é horrível, não funciona. Me dei conta, agora, mês passado, que não era legal continuar desse jeito. Esses lugares todos que estão por aí são pra essas pessoas que pensam desse jeito. Eu não penso desse jeito. Então, vou ficar com as pessoas que tocam comigo. As pessoas que tocam comigo entendem como eu penso, também pensam desse jeito. E a gente vai onde tem pessoas que pensam desse jeito. Ficar tocando pras outras pessoas não é interessante, até porque elas não conhecem. E elas estão numa outra vibe. Essa vibe pra mim não interessa…”

O público se renova, diz, mas ainda é um público pequeno. A informação disponível sobre o trabalho de Wander, diz o próprio Wander, é pouca/pequena. “O público não cresce como cresce a população. É pequeno, sempre. Que é o tamanho da coisa que eu faço. Eu tava querendo ir sempre aumentando isso. Não. Isso não aumenta. Opa. Não tenho que aumentar. Se eu aumentar, vou além. O público que eu tenho é esse. Então, o que tenho que fazer? Descobrir em cada cidade um bar pra tocar. Esse é meu papel na música. Que é só um trabalho. Tem outros. Tem que fazer uns shows pequenos, simples. Não se desgastar, não ser estressado, ser tranqüilo. E estava sendo estressante. Vou ter que pagar uma assessoria de imprensa, pra sair uma matéria? Não, isso aí é caro. Não tenho dinheiro pra pagar. Assessoria? Não é legal pagar assessoria, como não é legal pagar o jabá na rádio. Entende? Não é legal fazer isso. É máfia! Tuas mãos ficam sujas de sangue. Não quero que minhas mãos fiquem sujas de sangue. Entende? Não quero. Não vou me meter com isso. Aí, eu me afasto disso. E aí a gente cria um novo mundo. Alternativo. Existe em todo o planeta, isso. Em todo o planeta, existem pessoas que pensam diferente. Uma outra forma de pensar. E você fica interligado com essas pessoas. Claro, isso cresce. Está crescendo. Esse universo é interessante, o outro não é interessante.”

Se isso é uma visão romântica, da vida e do trabalho? Depende de que romantismo se está falando. “Tem a primeira visão do romantismo, que é antiga, e tem a visão capitalista. São dois romantismos. É uma coisa que foi transformada. Toda a história da sociedade capitalista é transformar os fundamentos, pras pessoas perderem aquele fundamento antigo e terem o novo. Então, eles mudam tudo: amor, romantismo, trabalho. O capitalismo altera tudo. Porque se tu continuar com isso você não vai querer o capitalismo. Trabalho… não é por prazer, não é para produzir uma coisa boa. É pra ganhar dinheiro. Pra ir pra faculdade, pra comprar um carro, comprar um apartamento, pra…”

Se surgir um convite para aparecer num programa de TV, algo que pode fazer com que uma tiragem de CD se esgote (mais) rapidamente, Wander dirá “Nãããoo!”. Na verdade, o artista acha que não tem como acontecer essa história de ele ser convidado porque, para que tal coisa aconteça, o cara precisa fazer coisas que levem a isso. Parece que WW está mesmo fugindo disso. Mas ele diz que não é fuga. “Tenho outro caminho. Pra isso (convite para um programa de TV) acontecer, você vai ter que ter uma gravadora, vai ter que fazer um disco com o Rick Bonadio, pra lançar pela Arsenal, pra fazer o Jô, pra fazer todos os programas. Mas aí tu tá te metendo com aquelas pessoas que pensam daquele jeito. Não vou me meter com elas. Não é compatível uma coisa com a outra. Não faço. Antes, eu já não fazia. Hoje, eu não faço mais nada. Nem entrevista. Tô falando contigo, aqui, porque é tu, porque te conheço. Mas… não me interessa mais ir na MTV fazer os programas. Eles nem sabem, mas… Fazia, porque era legal. Porque eram meus amigos. Não precisava fazer nada que eu não quisesse, na MTV. Eles me respeitavam. Eles me respeitam e eu respeito eles. Então, sempre que eu ia lá era para falar o que eu quisesse. Mas hoje nem me interessa falar isso mais. Só a música tem que se bastar…”

Se esta seqüência de declarações fosse uma seqüência de tacadas de golfe, o certo seria o leitor imaginar tacadas cada vez mais fortes. Mas não furiosas. Wander se expressa com calma e firmeza. Bebe uns goles de água, dá tragadas num cigarro daqueles que vêm num estojinho de lata. E mantém a conversa com o entrevistador ao mesmo tempo em que continua atento às meninas jogando golfe: “Tu vai limpando a história, né?”, ele recomeça. “Tem um problema, ali. Vai lá e resolve. Tu já não deixa mais o problema, porque sabe que não vai ser legal. Não posterga mais. Vai sendo seletivo. Junto com a aventura de cada dia ser um novo dia. Não é se acomodar. Tu não te acomoda, quando fica mais seletivo. A qualidade de vida melhora. Só isso.”

Por falar em seleção, tem a história de fazer outros trabalhos. Sem sair do universo da música, isso significa para Wander dedicar-se à produção dos shows, de material gráfico para divulgação. Mas ele vai além. Trabalhos diferentes, hoje, significam também uma volta ao universo do cinema e do teatro - que foi por onde ele começou. “Até agora, sempre imaginava que ia aumentando a história da música. Mas vi que não dá. Então, tenho que fazer mais outras coisas. A música é isso: vou fazer alguns shows, em alguns lugares, isso não vai me dar dinheiro suficiente. Em vez de tentar aumentar isso, vou gastar tempo noutros trabalhos. Tô fazendo um curta que fala sobre mudança. O cara deixa de fazer o que tá fazendo pra fazer uma outra coisa. Porque o vídeo é uma coisa legal. É um trabalho coletivo também ou tu pode fazer sozinho, mas é uma forma de contar história…”

Ele ri e diz que, sim, há algo de autobiográfico nesta produção: “É um cara que deixa a música para ser caddie de golfe. É totalmente biográfico, mas também é ficção. É tudo aumentado. Se vou fazer um filme, pensei, difícil é escrever a história. ‘Que história vou escrever? Vou fazer uma história minha, então. Meu primeiro filme, já vou ter que chamar um monte de gente pra ajudar, e vou falar de outro? Não, vou falar do meu universo, porque o meu universo eu domino mais.’ O processo de produzir alguma coisa ajuda a resolver problemas. Fazendo um filme, vou analisando as minhas coisas, botando as minhas coisas no filme, vou pensando sobre elas. Depois do filme pronto, vou estar alterado. E vou ter um trabalho realizado. Acho que a coisa do trabalho é muito forte. Como descendente de imigrante… Quer dizer, acho que pra todo mundo o trabalho é a base. Produzir alguma coisa pra colher outra, pra sobreviver. Tenho que trabalhar, fazer outras coisas. Fico imaginando o que vou fazer, já que a música é aquilo ali e não sei se ela vai dar o sustento, não posso ficar… Porque aí eu vou querer fazer mais shows, entende? Isso eu não posso fazer. Então, vou fazer outras coisas, já que tenho tempo. Outras coisas que vão me render trocas ou dinheiro. O que eu posso fazer que nunca pensei? Hoje, será que eu quero fazer um bar? (Risos). Quem é que vai num bar? Vai todo mundo. Será que quero atender todo mundo? Fico querendo fazer outras coisas. De repente, alguém me chama pra fazer um filme que vai ser bacana. Fiz um, há um ano e meio, que não ficou pronto. É frustrante. Tu vai lá, faz, gosta, e o processo pára. Isso é horrível.”

Antes de entrar para Os Replicantes, Wander trabalhava com cinema. Fazia parte de um grupo que produzia em super oito. “A gente ia pra Gramado todo ano, com um filme, um curta. Até que um ano foi um longa. Ia toda a turma. Ficava na casa do (Carlos) Gerbase (outro integrante dos Replicantes). Ou conseguia dois quartos de hotel, aí ficavam dez em dois quartos.” Não há muitas outras idéias antigas que voltam socando a porta, com força, como acontece(u) com o cinema. “Esporte é uma coisa que eu fiz. No começo, não fazia. Depois, fiz, parei, voltei”, lembra o fã da golfista mexicana. “Tu faz porque é macaco. Alguém tá fazendo e tu tá fazendo também. A consciência pode vir de várias formas. Tu visualiza. Isso já é um processo que vem há alguns anos. Há uns cinco anos. E as últimas músicas que eu compus já fiz há uns três anos e meio. Começa essa coisa de falar dos sonhos, em vez de falar do passado, das histórias de amor que não deram certo. É, porque e vi que tinha que carregar pra sempre aquelas músicas. Cantar uma história que já não é mais, eu não penso mais aquilo, cantar uma música que tu já não concorda mais com ela. Aí, naquela época, vi que não era legal fazer isso. Eu fazia música por intuição total, na época dos Replicantes. Ninguém pensava em nada. E aí com o tempo comecei a pensar mais. Primeiro, foi com um show que eu ia fazer, ia chamar ‘Inverno sombrio’. Eu tava tocando aquela música dos Replicantes, ‘Inverno sombrio’. Aí, um médico meu, na época, contei pra ele e ele falou ‘Bah, Inverno sombrio? É isso que tu quer pra ti?’ Aí, me dei conta, falei ‘Bah, não!’ e mudei. Virou ‘Rodando el mundo’. Foi quando eu tinha composto ‘Rodando el mundo’. Aí, depois, fiz o ‘Buenos dias’, e aí eu pensei ‘Ah, as músicas são essas… mas o que eu quero? Aí, pus o nome de ‘Buenos dias’. Podia ter sido ‘Porto Alegre é uma merda’, porque era um disco muito sobre Porto Alegre, eu tinha voltado pra lá. Eu digo ‘Não, não vou botar no disco o que ele é, mas o que eu quero’. O nome do disco vai ser o futuro. Tu lança energia pra mais, não fica contigo ali só no presente. Comecei a ver o que eu estava cantando e o que eu quero cantar… É importante fazer o que tu gosta. O mundo hoje é um reflexo de coisas negativas. O que tu faz reflete. Se tu faz um trabalho que tu não gosta, vai refletir isso. Se a maioria das pessoas não gosta do casamento, não gosta do trabalho, isso vai se refletir. Hoje, é um reflexo. A maioria das pessoas tá fazendo a mesma coisa. Não tá pensando no que tá fazendo, tá fazendo só porque alguém faz, porque a TV diz…”, lamenta, para em seguida dar um refresco: “Não fosse a TV, eu não ia ver o golfe. Descobri o golfe vendo TV.”

Três anos e meio sem escrever nenhuma canção nova faz a gente imaginar que talvez ele ande vendo muita televisão. Não é exatamente isso. É um pouco mais assustador: “Logo depois, eu me dei conta de que eu não ia compor mais. Posso parar de tocar amanhã. Este pode ser o último show. Posso amanhã simplesmente ir pra Grécia. Trabalhar num bar, na beira da praia, tomar banho de mar todo dia e pronto. Tem a idéia da sobrevivência. Se ficar muito difícil, eu sei que existem lugares em que se precisa de menos dinheiro pra viver. Obviamente, eu vou estar numa praia daqui a algum tempo.” Pescando, não, porque ele não gosta de pensar. É provável, diz o inquieto gaúcho, que ele se dedique à jardinagem. “Mas não tenho… não imagino que eu vá compor uma música, gravar um disco. Imagina! Até tem uma idéia antiga de gravar um disco de ska. Ska punk, com música de carnaval. Mas já não… Vou fazer se acontecer de algum dia, se rolarem as coisas: ‘Ah, se lembra aquela vez que tu falou de gravar um disco…? Aí, pá, tem um estúdio pra gravar…’ Não sei o que vou fazer daqui a um tempo.”

Wander, e é confortável, isso?

E ele: “Nããããoo”.

Em seguida, vem uma risada.

“Por um lado, não. É inseguro. E ficar sem grana é ruim. Em São Paulo, é ruim. Em Florianópolis… Tu vai pra Florianópolis porque sabe que não tem grana e que vai viver com pouco, numa praia. Em São Paulo: precisa de dinheiro pra ficar lá. Mas não sei o que vou fazer. Vou ficar limpando e ver o que vai refletir. Fui na época do acústico. Tava morando na praia, surgiu o convite pro acústico e achei que seria legal ir pra SP já que ia rolar trabalho. Tava há um ano na praia e achei que não tava legal, que precisava viajar e fazer alguma coisa. Tem trabalho… Tem que aprender como funciona. Não é uma cidade como as outras, é uma cidade universal. Mas tu aprende a viver nela. É um bom lugar de ter uma base. Pra parar, não; teria outras. Imagino que Recife seja uma boa cidade, mais tranqüila. Mas aí tem que querer mais tranqüilidade. Nunca acho só um lugar interessante. Viajar é interessante. Encho o saco de um lugar. Mas eu não sei o que vou fazer, como vai ser o ano que vem. Vou ter feito show, o natural é fazer outro disco. Não… Vou ter que buscar uma saída. Talvez não seja preciso fazer outro disco. Agora, eu não componho. Pode ser que eu pegue o violão e saia alguma coisa. Agora, não me interessa dizer nada a mais. Ou o que me interessa dizer alguém já fez em música. Posso fazer show com a música de outros, eu sempre fui versionista. Mais do que compositor.”

Se depender do que ele anda ouvindo, hoje, para que seja construído um novo repertório, vai ser difícil… “Ouço pouca coisa. Não ouço muita música… Às vezes, me dou conta de que eu não tô ouvindo música. Não compro disco. A música é um fundo. Às vezes, passo um tempo trabalhando no computador e não tá rolando música, é só o barulho da rua. Às vezes, ponho música para fazer comida, pra lavar a casa. As coisas dali dos meus 15 pros 25, anos 70, começo de 80, é o que eu sempre volto a ouvir. Dylan, Neil Young, Ednardo, Novos Baianos, sabe? Sempre tem isso, é constante. Jovem guarda, que também é uma influência… Volto mais pras coisas antigas. Banda nova é uma coisa que… Descobri uma. Baixamos o disco na hora, todo o disco era bom. Uma guria e um cara. Um baterista e ela canta. Inglesa. Interessante. Boa pra academia. Ouço na academia, correndo. É onde eu ouço mais música. A música é tudo, a academia fica muito mais fácil. Ajuda na respiração, no ritmo. Aí, ela tem uma importância maior do que o fundo musical. Na academia, ela é protagonista.”


Música


Uma resposta

  1. DoSol » Blog Archive » DIRETO DA BLOGOSFERA…
    29/07/2008 às 22:13

    [...] 1- WANDER WILDNER FALA AO SAMBAPUNK [...]


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29/07/2008 às 22:13

Wander Wildner: rumo à praia ou ao campo de golfe?

Adilson Pereira

Wander Wildner esteve no Rio para dois shows. Na sexta, 25, o gaúcho se apresentou para um público não muito grande mas que, em sua maioria, cantava as músicas junto com ele. Mesmo as que eram do disco que estava sendo lançado ali, “La cancion inesperada”, ganhavam um corinho de fazer gosto. Dava para ver que WW estava animado com aquilo. No dia seguinte, depois de almoçar com o pessoal da banda, ele cumpriu a promessa de conceder uma entrevista ao Sambapunk. Wander estava hospedado num hotel em Botafogo, mesmo bairro em que fica o Cinemathèque, bar em que ele havia se apresentado na noite anterior e onde faria um segundo show mais tarde. No quarto dividido com o guitarrista Jimi Joe, a TV estava ligada num canal que mostrava um torneio de golfe. Wander diz que começou a se interessar por aquilo há alguns anos. O torneio que está sendo exibido é feminino. “Tem a Lorena Ochoa, uma mexicana. Ela joga pra caralho”, ensina o artista, antes de falar sobre um modo de treinar que lhe parece muito mais apropriado: você começa de perto e, aos poucos, vai se afastando do buraco. “Aquelas tacadas mais longas, que são as mais difíceis, você só dá depois…”, diz, como que comemorando.

Ele acha que existe uma relação entre o gosto que adquiriu pelo golfe e a vida que vem levando, atualmente. Nas áreas em que se pratica o esporte de origem escocesa, tem aquele verde, aquela calma… E mais: “Tu tem que te preparar. Jogar uma partida de golfe é como fazer um disco, é como ensaiar… Tu é obrigado a te concentrar. É que nem a respiração. Pra respirar, tu tem que te concentrar no que tá fazendo. A gente não respira direito. Não faz nada direito.” Ele acha natural que agora, aos 48, se interesse por um esporte assim. Mais natural do que se isso acontecesse quando ele tinha 30 e poucos.

A chegada dos 50 parece não assustá-lo: “Vou fazer 49, este ano. 50, só ano que vem. É legal. É uma brincadeira, né? Só um número redondo que a gente tá acostumado a… Aos 36, tinha uma revolução… Se bem que agora eu tô noutra revolução, provavelmente. Vários ciclos astrológicos, que influenciam na vida da gente. E a mudança se dá com isso daí. A mudança é constante no ser humano. Tu muda o tempo inteiro. Como é que vai negar isso? Faz parte da vida. Não posso negar uma coisa que é da vida, negar alguma coisa que é natural.”

Além de aprender que não dá para ir contra certas coisas na vida, ele recentemente sacou que “um show não pode ser reto”. “Show de banda é igual; do começo ao fim, é igual”, reclama, dizendo que fez muito isso com Os Replicantes. Agora, ele e os Comancheros estão procurando uma dinâmica diferente. Muita dinâmica: “No meio da música, tem dinâmica. Nos blocos, tem dinâmica. Tem que ter um monte de coisa no show. Tu tem o som, o público, o dia como tu tá, o astral do lugar, a alma do lugar. Hoje em dia, optei por fazer shows só em lugares que eu gosto, em situações bacanas. Show para milhares de pessoas é distante, o palco é distante das pessoas. Não é verdade, não é legal. Show grande… eu nunca gostei de show grande. Só no começo dos Replicantes. As pessoas, nos lugares grandes, vão pela balada, pela história.”

O escriba faz uma piada que, se fosse uma tacada de golfe, não seria uma hole-in-one: palco grande só se for a torcida do Grêmio cantando “Bebendo vinho”… Wander faz que não ouviu. Ou está muito concentrado na loira da TV, que não é a Lorena Ochoa.

Falar de lugares grandes parece incomodar o veterano. Ele insiste no assunto: “Acho que antes eu imaginava um cenário alternativo, de ir melhorando ele. Aí, tu fica lutando com o Brasil. Não vou ficar lutando com o Brasil. O Brasil é assim, é natural ele ser assim, foda-se, vou fazer aquele show ali, tocar com os amigos, pra ser bacana. A gente tem que se sentir bem tocando, não pode ir além disso. Não pode deixar o ego te levar. Tu tá com a banda, aí a música tá saindo, vai pro público e volta. Manter isso é que é legal. Nós somos ao vivo como se estivéssemos num ensaio: tocando, pelo prazer. E isso tem que se manter pelo show inteiro. O barato de fazer um trabalho é isso.”

Esse músico que está de olho no prazer viu surgirem no circuito musical muitas coisas novas, ao longo dos anos. Não se mostra muito satisfeito com o que concorda ser um “circuito mais industrializado”. “É por isso que eu parei. Eu tava tentando manter sempre a coisa dentro disso. Ficar tentando com que as pessoas entendam a tua música, que saibam que tu lançou um disco, isso é horrível, não funciona. Me dei conta, agora, mês passado, que não era legal continuar desse jeito. Esses lugares todos que estão por aí são pra essas pessoas que pensam desse jeito. Eu não penso desse jeito. Então, vou ficar com as pessoas que tocam comigo. As pessoas que tocam comigo entendem como eu penso, também pensam desse jeito. E a gente vai onde tem pessoas que pensam desse jeito. Ficar tocando pras outras pessoas não é interessante, até porque elas não conhecem. E elas estão numa outra vibe. Essa vibe pra mim não interessa…”

O público se renova, diz, mas ainda é um público pequeno. A informação disponível sobre o trabalho de Wander, diz o próprio Wander, é pouca/pequena. “O público não cresce como cresce a população. É pequeno, sempre. Que é o tamanho da coisa que eu faço. Eu tava querendo ir sempre aumentando isso. Não. Isso não aumenta. Opa. Não tenho que aumentar. Se eu aumentar, vou além. O público que eu tenho é esse. Então, o que tenho que fazer? Descobrir em cada cidade um bar pra tocar. Esse é meu papel na música. Que é só um trabalho. Tem outros. Tem que fazer uns shows pequenos, simples. Não se desgastar, não ser estressado, ser tranqüilo. E estava sendo estressante. Vou ter que pagar uma assessoria de imprensa, pra sair uma matéria? Não, isso aí é caro. Não tenho dinheiro pra pagar. Assessoria? Não é legal pagar assessoria, como não é legal pagar o jabá na rádio. Entende? Não é legal fazer isso. É máfia! Tuas mãos ficam sujas de sangue. Não quero que minhas mãos fiquem sujas de sangue. Entende? Não quero. Não vou me meter com isso. Aí, eu me afasto disso. E aí a gente cria um novo mundo. Alternativo. Existe em todo o planeta, isso. Em todo o planeta, existem pessoas que pensam diferente. Uma outra forma de pensar. E você fica interligado com essas pessoas. Claro, isso cresce. Está crescendo. Esse universo é interessante, o outro não é interessante.”

Se isso é uma visão romântica, da vida e do trabalho? Depende de que romantismo se está falando. “Tem a primeira visão do romantismo, que é antiga, e tem a visão capitalista. São dois romantismos. É uma coisa que foi transformada. Toda a história da sociedade capitalista é transformar os fundamentos, pras pessoas perderem aquele fundamento antigo e terem o novo. Então, eles mudam tudo: amor, romantismo, trabalho. O capitalismo altera tudo. Porque se tu continuar com isso você não vai querer o capitalismo. Trabalho… não é por prazer, não é para produzir uma coisa boa. É pra ganhar dinheiro. Pra ir pra faculdade, pra comprar um carro, comprar um apartamento, pra…”

Se surgir um convite para aparecer num programa de TV, algo que pode fazer com que uma tiragem de CD se esgote (mais) rapidamente, Wander dirá “Nãããoo!”. Na verdade, o artista acha que não tem como acontecer essa história de ele ser convidado porque, para que tal coisa aconteça, o cara precisa fazer coisas que levem a isso. Parece que WW está mesmo fugindo disso. Mas ele diz que não é fuga. “Tenho outro caminho. Pra isso (convite para um programa de TV) acontecer, você vai ter que ter uma gravadora, vai ter que fazer um disco com o Rick Bonadio, pra lançar pela Arsenal, pra fazer o Jô, pra fazer todos os programas. Mas aí tu tá te metendo com aquelas pessoas que pensam daquele jeito. Não vou me meter com elas. Não é compatível uma coisa com a outra. Não faço. Antes, eu já não fazia. Hoje, eu não faço mais nada. Nem entrevista. Tô falando contigo, aqui, porque é tu, porque te conheço. Mas… não me interessa mais ir na MTV fazer os programas. Eles nem sabem, mas… Fazia, porque era legal. Porque eram meus amigos. Não precisava fazer nada que eu não quisesse, na MTV. Eles me respeitavam. Eles me respeitam e eu respeito eles. Então, sempre que eu ia lá era para falar o que eu quisesse. Mas hoje nem me interessa falar isso mais. Só a música tem que se bastar…”

Se esta seqüência de declarações fosse uma seqüência de tacadas de golfe, o certo seria o leitor imaginar tacadas cada vez mais fortes. Mas não furiosas. Wander se expressa com calma e firmeza. Bebe uns goles de água, dá tragadas num cigarro daqueles que vêm num estojinho de lata. E mantém a conversa com o entrevistador ao mesmo tempo em que continua atento às meninas jogando golfe: “Tu vai limpando a história, né?”, ele recomeça. “Tem um problema, ali. Vai lá e resolve. Tu já não deixa mais o problema, porque sabe que não vai ser legal. Não posterga mais. Vai sendo seletivo. Junto com a aventura de cada dia ser um novo dia. Não é se acomodar. Tu não te acomoda, quando fica mais seletivo. A qualidade de vida melhora. Só isso.”

Por falar em seleção, tem a história de fazer outros trabalhos. Sem sair do universo da música, isso significa para Wander dedicar-se à produção dos shows, de material gráfico para divulgação. Mas ele vai além. Trabalhos diferentes, hoje, significam também uma volta ao universo do cinema e do teatro - que foi por onde ele começou. “Até agora, sempre imaginava que ia aumentando a história da música. Mas vi que não dá. Então, tenho que fazer mais outras coisas. A música é isso: vou fazer alguns shows, em alguns lugares, isso não vai me dar dinheiro suficiente. Em vez de tentar aumentar isso, vou gastar tempo noutros trabalhos. Tô fazendo um curta que fala sobre mudança. O cara deixa de fazer o que tá fazendo pra fazer uma outra coisa. Porque o vídeo é uma coisa legal. É um trabalho coletivo também ou tu pode fazer sozinho, mas é uma forma de contar história…”

Ele ri e diz que, sim, há algo de autobiográfico nesta produção: “É um cara que deixa a música para ser caddie de golfe. É totalmente biográfico, mas também é ficção. É tudo aumentado. Se vou fazer um filme, pensei, difícil é escrever a história. ‘Que história vou escrever? Vou fazer uma história minha, então. Meu primeiro filme, já vou ter que chamar um monte de gente pra ajudar, e vou falar de outro? Não, vou falar do meu universo, porque o meu universo eu domino mais.’ O processo de produzir alguma coisa ajuda a resolver problemas. Fazendo um filme, vou analisando as minhas coisas, botando as minhas coisas no filme, vou pensando sobre elas. Depois do filme pronto, vou estar alterado. E vou ter um trabalho realizado. Acho que a coisa do trabalho é muito forte. Como descendente de imigrante… Quer dizer, acho que pra todo mundo o trabalho é a base. Produzir alguma coisa pra colher outra, pra sobreviver. Tenho que trabalhar, fazer outras coisas. Fico imaginando o que vou fazer, já que a música é aquilo ali e não sei se ela vai dar o sustento, não posso ficar… Porque aí eu vou querer fazer mais shows, entende? Isso eu não posso fazer. Então, vou fazer outras coisas, já que tenho tempo. Outras coisas que vão me render trocas ou dinheiro. O que eu posso fazer que nunca pensei? Hoje, será que eu quero fazer um bar? (Risos). Quem é que vai num bar? Vai todo mundo. Será que quero atender todo mundo? Fico querendo fazer outras coisas. De repente, alguém me chama pra fazer um filme que vai ser bacana. Fiz um, há um ano e meio, que não ficou pronto. É frustrante. Tu vai lá, faz, gosta, e o processo pára. Isso é horrível.”

Antes de entrar para Os Replicantes, Wander trabalhava com cinema. Fazia parte de um grupo que produzia em super oito. “A gente ia pra Gramado todo ano, com um filme, um curta. Até que um ano foi um longa. Ia toda a turma. Ficava na casa do (Carlos) Gerbase (outro integrante dos Replicantes). Ou conseguia dois quartos de hotel, aí ficavam dez em dois quartos.” Não há muitas outras idéias antigas que voltam socando a porta, com força, como acontece(u) com o cinema. “Esporte é uma coisa que eu fiz. No começo, não fazia. Depois, fiz, parei, voltei”, lembra o fã da golfista mexicana. “Tu faz porque é macaco. Alguém tá fazendo e tu tá fazendo também. A consciência pode vir de várias formas. Tu visualiza. Isso já é um processo que vem há alguns anos. Há uns cinco anos. E as últimas músicas que eu compus já fiz há uns três anos e meio. Começa essa coisa de falar dos sonhos, em vez de falar do passado, das histórias de amor que não deram certo. É, porque e vi que tinha que carregar pra sempre aquelas músicas. Cantar uma história que já não é mais, eu não penso mais aquilo, cantar uma música que tu já não concorda mais com ela. Aí, naquela época, vi que não era legal fazer isso. Eu fazia música por intuição total, na época dos Replicantes. Ninguém pensava em nada. E aí com o tempo comecei a pensar mais. Primeiro, foi com um show que eu ia fazer, ia chamar ‘Inverno sombrio’. Eu tava tocando aquela música dos Replicantes, ‘Inverno sombrio’. Aí, um médico meu, na época, contei pra ele e ele falou ‘Bah, Inverno sombrio? É isso que tu quer pra ti?’ Aí, me dei conta, falei ‘Bah, não!’ e mudei. Virou ‘Rodando el mundo’. Foi quando eu tinha composto ‘Rodando el mundo’. Aí, depois, fiz o ‘Buenos dias’, e aí eu pensei ‘Ah, as músicas são essas… mas o que eu quero? Aí, pus o nome de ‘Buenos dias’. Podia ter sido ‘Porto Alegre é uma merda’, porque era um disco muito sobre Porto Alegre, eu tinha voltado pra lá. Eu digo ‘Não, não vou botar no disco o que ele é, mas o que eu quero’. O nome do disco vai ser o futuro. Tu lança energia pra mais, não fica contigo ali só no presente. Comecei a ver o que eu estava cantando e o que eu quero cantar… É importante fazer o que tu gosta. O mundo hoje é um reflexo de coisas negativas. O que tu faz reflete. Se tu faz um trabalho que tu não gosta, vai refletir isso. Se a maioria das pessoas não gosta do casamento, não gosta do trabalho, isso vai se refletir. Hoje, é um reflexo. A maioria das pessoas tá fazendo a mesma coisa. Não tá pensando no que tá fazendo, tá fazendo só porque alguém faz, porque a TV diz…”, lamenta, para em seguida dar um refresco: “Não fosse a TV, eu não ia ver o golfe. Descobri o golfe vendo TV.”

Três anos e meio sem escrever nenhuma canção nova faz a gente imaginar que talvez ele ande vendo muita televisão. Não é exatamente isso. É um pouco mais assustador: “Logo depois, eu me dei conta de que eu não ia compor mais. Posso parar de tocar amanhã. Este pode ser o último show. Posso amanhã simplesmente ir pra Grécia. Trabalhar num bar, na beira da praia, tomar banho de mar todo dia e pronto. Tem a idéia da sobrevivência. Se ficar muito difícil, eu sei que existem lugares em que se precisa de menos dinheiro pra viver. Obviamente, eu vou estar numa praia daqui a algum tempo.” Pescando, não, porque ele não gosta de pensar. É provável, diz o inquieto gaúcho, que ele se dedique à jardinagem. “Mas não tenho… não imagino que eu vá compor uma música, gravar um disco. Imagina! Até tem uma idéia antiga de gravar um disco de ska. Ska punk, com música de carnaval. Mas já não… Vou fazer se acontecer de algum dia, se rolarem as coisas: ‘Ah, se lembra aquela vez que tu falou de gravar um disco…? Aí, pá, tem um estúdio pra gravar…’ Não sei o que vou fazer daqui a um tempo.”

Wander, e é confortável, isso?

E ele: “Nããããoo”.

Em seguida, vem uma risada.

“Por um lado, não. É inseguro. E ficar sem grana é ruim. Em São Paulo, é ruim. Em Florianópolis… Tu vai pra Florianópolis porque sabe que não tem grana e que vai viver com pouco, numa praia. Em São Paulo: precisa de dinheiro pra ficar lá. Mas não sei o que vou fazer. Vou ficar limpando e ver o que vai refletir. Fui na época do acústico. Tava morando na praia, surgiu o convite pro acústico e achei que seria legal ir pra SP já que ia rolar trabalho. Tava há um ano na praia e achei que não tava legal, que precisava viajar e fazer alguma coisa. Tem trabalho… Tem que aprender como funciona. Não é uma cidade como as outras, é uma cidade universal. Mas tu aprende a viver nela. É um bom lugar de ter uma base. Pra parar, não; teria outras. Imagino que Recife seja uma boa cidade, mais tranqüila. Mas aí tem que querer mais tranqüilidade. Nunca acho só um lugar interessante. Viajar é interessante. Encho o saco de um lugar. Mas eu não sei o que vou fazer, como vai ser o ano que vem. Vou ter feito show, o natural é fazer outro disco. Não… Vou ter que buscar uma saída. Talvez não seja preciso fazer outro disco. Agora, eu não componho. Pode ser que eu pegue o violão e saia alguma coisa. Agora, não me interessa dizer nada a mais. Ou o que me interessa dizer alguém já fez em música. Posso fazer show com a música de outros, eu sempre fui versionista. Mais do que compositor.”

Se depender do que ele anda ouvindo, hoje, para que seja construído um novo repertório, vai ser difícil… “Ouço pouca coisa. Não ouço muita música… Às vezes, me dou conta de que eu não tô ouvindo música. Não compro disco. A música é um fundo. Às vezes, passo um tempo trabalhando no computador e não tá rolando música, é só o barulho da rua. Às vezes, ponho música para fazer comida, pra lavar a casa. As coisas dali dos meus 15 pros 25, anos 70, começo de 80, é o que eu sempre volto a ouvir. Dylan, Neil Young, Ednardo, Novos Baianos, sabe? Sempre tem isso, é constante. Jovem guarda, que também é uma influência… Volto mais pras coisas antigas. Banda nova é uma coisa que… Descobri uma. Baixamos o disco na hora, todo o disco era bom. Uma guria e um cara. Um baterista e ela canta. Inglesa. Interessante. Boa pra academia. Ouço na academia, correndo. É onde eu ouço mais música. A música é tudo, a academia fica muito mais fácil. Ajuda na respiração, no ritmo. Aí, ela tem uma importância maior do que o fundo musical. Na academia, ela é protagonista.”


Música


Uma resposta

  1. DoSol » Blog Archive » DIRETO DA BLOGOSFERA…
    29/07/2008 às 22:13

    [...] 1- WANDER WILDNER FALA AO SAMBAPUNK [...]


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29/07/2008 às 22:13

Wander Wildner: rumo à praia ou ao campo de golfe?

Adilson Pereira

Wander Wildner esteve no Rio para dois shows. Na sexta, 25, o gaúcho se apresentou para um público não muito grande mas que, em sua maioria, cantava as músicas junto com ele. Mesmo as que eram do disco que estava sendo lançado ali, “La cancion inesperada”, ganhavam um corinho de fazer gosto. Dava para ver que WW estava animado com aquilo. No dia seguinte, depois de almoçar com o pessoal da banda, ele cumpriu a promessa de conceder uma entrevista ao Sambapunk. Wander estava hospedado num hotel em Botafogo, mesmo bairro em que fica o Cinemathèque, bar em que ele havia se apresentado na noite anterior e onde faria um segundo show mais tarde. No quarto dividido com o guitarrista Jimi Joe, a TV estava ligada num canal que mostrava um torneio de golfe. Wander diz que começou a se interessar por aquilo há alguns anos. O torneio que está sendo exibido é feminino. “Tem a Lorena Ochoa, uma mexicana. Ela joga pra caralho”, ensina o artista, antes de falar sobre um modo de treinar que lhe parece muito mais apropriado: você começa de perto e, aos poucos, vai se afastando do buraco. “Aquelas tacadas mais longas, que são as mais difíceis, você só dá depois…”, diz, como que comemorando.

Ele acha que existe uma relação entre o gosto que adquiriu pelo golfe e a vida que vem levando, atualmente. Nas áreas em que se pratica o esporte de origem escocesa, tem aquele verde, aquela calma… E mais: “Tu tem que te preparar. Jogar uma partida de golfe é como fazer um disco, é como ensaiar… Tu é obrigado a te concentrar. É que nem a respiração. Pra respirar, tu tem que te concentrar no que tá fazendo. A gente não respira direito. Não faz nada direito.” Ele acha natural que agora, aos 48, se interesse por um esporte assim. Mais natural do que se isso acontecesse quando ele tinha 30 e poucos.

A chegada dos 50 parece não assustá-lo: “Vou fazer 49, este ano. 50, só ano que vem. É legal. É uma brincadeira, né? Só um número redondo que a gente tá acostumado a… Aos 36, tinha uma revolução… Se bem que agora eu tô noutra revolução, provavelmente. Vários ciclos astrológicos, que influenciam na vida da gente. E a mudança se dá com isso daí. A mudança é constante no ser humano. Tu muda o tempo inteiro. Como é que vai negar isso? Faz parte da vida. Não posso negar uma coisa que é da vida, negar alguma coisa que é natural.”

Além de aprender que não dá para ir contra certas coisas na vida, ele recentemente sacou que “um show não pode ser reto”. “Show de banda é igual; do começo ao fim, é igual”, reclama, dizendo que fez muito isso com Os Replicantes. Agora, ele e os Comancheros estão procurando uma dinâmica diferente. Muita dinâmica: “No meio da música, tem dinâmica. Nos blocos, tem dinâmica. Tem que ter um monte de coisa no show. Tu tem o som, o público, o dia como tu tá, o astral do lugar, a alma do lugar. Hoje em dia, optei por fazer shows só em lugares que eu gosto, em situações bacanas. Show para milhares de pessoas é distante, o palco é distante das pessoas. Não é verdade, não é legal. Show grande… eu nunca gostei de show grande. Só no começo dos Replicantes. As pessoas, nos lugares grandes, vão pela balada, pela história.”

O escriba faz uma piada que, se fosse uma tacada de golfe, não seria uma hole-in-one: palco grande só se for a torcida do Grêmio cantando “Bebendo vinho”… Wander faz que não ouviu. Ou está muito concentrado na loira da TV, que não é a Lorena Ochoa.

Falar de lugares grandes parece incomodar o veterano. Ele insiste no assunto: “Acho que antes eu imaginava um cenário alternativo, de ir melhorando ele. Aí, tu fica lutando com o Brasil. Não vou ficar lutando com o Brasil. O Brasil é assim, é natural ele ser assim, foda-se, vou fazer aquele show ali, tocar com os amigos, pra ser bacana. A gente tem que se sentir bem tocando, não pode ir além disso. Não pode deixar o ego te levar. Tu tá com a banda, aí a música tá saindo, vai pro público e volta. Manter isso é que é legal. Nós somos ao vivo como se estivéssemos num ensaio: tocando, pelo prazer. E isso tem que se manter pelo show inteiro. O barato de fazer um trabalho é isso.”

Esse músico que está de olho no prazer viu surgirem no circuito musical muitas coisas novas, ao longo dos anos. Não se mostra muito satisfeito com o que concorda ser um “circuito mais industrializado”. “É por isso que eu parei. Eu tava tentando manter sempre a coisa dentro disso. Ficar tentando com que as pessoas entendam a tua música, que saibam que tu lançou um disco, isso é horrível, não funciona. Me dei conta, agora, mês passado, que não era legal continuar desse jeito. Esses lugares todos que estão por aí são pra essas pessoas que pensam desse jeito. Eu não penso desse jeito. Então, vou ficar com as pessoas que tocam comigo. As pessoas que tocam comigo entendem como eu penso, também pensam desse jeito. E a gente vai onde tem pessoas que pensam desse jeito. Ficar tocando pras outras pessoas não é interessante, até porque elas não conhecem. E elas estão numa outra vibe. Essa vibe pra mim não interessa…”

O público se renova, diz, mas ainda é um público pequeno. A informação disponível sobre o trabalho de Wander, diz o próprio Wander, é pouca/pequena. “O público não cresce como cresce a população. É pequeno, sempre. Que é o tamanho da coisa que eu faço. Eu tava querendo ir sempre aumentando isso. Não. Isso não aumenta. Opa. Não tenho que aumentar. Se eu aumentar, vou além. O público que eu tenho é esse. Então, o que tenho que fazer? Descobrir em cada cidade um bar pra tocar. Esse é meu papel na música. Que é só um trabalho. Tem outros. Tem que fazer uns shows pequenos, simples. Não se desgastar, não ser estressado, ser tranqüilo. E estava sendo estressante. Vou ter que pagar uma assessoria de imprensa, pra sair uma matéria? Não, isso aí é caro. Não tenho dinheiro pra pagar. Assessoria? Não é legal pagar assessoria, como não é legal pagar o jabá na rádio. Entende? Não é legal fazer isso. É máfia! Tuas mãos ficam sujas de sangue. Não quero que minhas mãos fiquem sujas de sangue. Entende? Não quero. Não vou me meter com isso. Aí, eu me afasto disso. E aí a gente cria um novo mundo. Alternativo. Existe em todo o planeta, isso. Em todo o planeta, existem pessoas que pensam diferente. Uma outra forma de pensar. E você fica interligado com essas pessoas. Claro, isso cresce. Está crescendo. Esse universo é interessante, o outro não é interessante.”

Se isso é uma visão romântica, da vida e do trabalho? Depende de que romantismo se está falando. “Tem a primeira visão do romantismo, que é antiga, e tem a visão capitalista. São dois romantismos. É uma coisa que foi transformada. Toda a história da sociedade capitalista é transformar os fundamentos, pras pessoas perderem aquele fundamento antigo e terem o novo. Então, eles mudam tudo: amor, romantismo, trabalho. O capitalismo altera tudo. Porque se tu continuar com isso você não vai querer o capitalismo. Trabalho… não é por prazer, não é para produzir uma coisa boa. É pra ganhar dinheiro. Pra ir pra faculdade, pra comprar um carro, comprar um apartamento, pra…”

Se surgir um convite para aparecer num programa de TV, algo que pode fazer com que uma tiragem de CD se esgote (mais) rapidamente, Wander dirá “Nãããoo!”. Na verdade, o artista acha que não tem como acontecer essa história de ele ser convidado porque, para que tal coisa aconteça, o cara precisa fazer coisas que levem a isso. Parece que WW está mesmo fugindo disso. Mas ele diz que não é fuga. “Tenho outro caminho. Pra isso (convite para um programa de TV) acontecer, você vai ter que ter uma gravadora, vai ter que fazer um disco com o Rick Bonadio, pra lançar pela Arsenal, pra fazer o Jô, pra fazer todos os programas. Mas aí tu tá te metendo com aquelas pessoas que pensam daquele jeito. Não vou me meter com elas. Não é compatível uma coisa com a outra. Não faço. Antes, eu já não fazia. Hoje, eu não faço mais nada. Nem entrevista. Tô falando contigo, aqui, porque é tu, porque te conheço. Mas… não me interessa mais ir na MTV fazer os programas. Eles nem sabem, mas… Fazia, porque era legal. Porque eram meus amigos. Não precisava fazer nada que eu não quisesse, na MTV. Eles me respeitavam. Eles me respeitam e eu respeito eles. Então, sempre que eu ia lá era para falar o que eu quisesse. Mas hoje nem me interessa falar isso mais. Só a música tem que se bastar…”

Se esta seqüência de declarações fosse uma seqüência de tacadas de golfe, o certo seria o leitor imaginar tacadas cada vez mais fortes. Mas não furiosas. Wander se expressa com calma e firmeza. Bebe uns goles de água, dá tragadas num cigarro daqueles que vêm num estojinho de lata. E mantém a conversa com o entrevistador ao mesmo tempo em que continua atento às meninas jogando golfe: “Tu vai limpando a história, né?”, ele recomeça. “Tem um problema, ali. Vai lá e resolve. Tu já não deixa mais o problema, porque sabe que não vai ser legal. Não posterga mais. Vai sendo seletivo. Junto com a aventura de cada dia ser um novo dia. Não é se acomodar. Tu não te acomoda, quando fica mais seletivo. A qualidade de vida melhora. Só isso.”

Por falar em seleção, tem a história de fazer outros trabalhos. Sem sair do universo da música, isso significa para Wander dedicar-se à produção dos shows, de material gráfico para divulgação. Mas ele vai além. Trabalhos diferentes, hoje, significam também uma volta ao universo do cinema e do teatro - que foi por onde ele começou. “Até agora, sempre imaginava que ia aumentando a história da música. Mas vi que não dá. Então, tenho que fazer mais outras coisas. A música é isso: vou fazer alguns shows, em alguns lugares, isso não vai me dar dinheiro suficiente. Em vez de tentar aumentar isso, vou gastar tempo noutros trabalhos. Tô fazendo um curta que fala sobre mudança. O cara deixa de fazer o que tá fazendo pra fazer uma outra coisa. Porque o vídeo é uma coisa legal. É um trabalho coletivo também ou tu pode fazer sozinho, mas é uma forma de contar história…”

Ele ri e diz que, sim, há algo de autobiográfico nesta produção: “É um cara que deixa a música para ser caddie de golfe. É totalmente biográfico, mas também é ficção. É tudo aumentado. Se vou fazer um filme, pensei, difícil é escrever a história. ‘Que história vou escrever? Vou fazer uma história minha, então. Meu primeiro filme, já vou ter que chamar um monte de gente pra ajudar, e vou falar de outro? Não, vou falar do meu universo, porque o meu universo eu domino mais.’ O processo de produzir alguma coisa ajuda a resolver problemas. Fazendo um filme, vou analisando as minhas coisas, botando as minhas coisas no filme, vou pensando sobre elas. Depois do filme pronto, vou estar alterado. E vou ter um trabalho realizado. Acho que a coisa do trabalho é muito forte. Como descendente de imigrante… Quer dizer, acho que pra todo mundo o trabalho é a base. Produzir alguma coisa pra colher outra, pra sobreviver. Tenho que trabalhar, fazer outras coisas. Fico imaginando o que vou fazer, já que a música é aquilo ali e não sei se ela vai dar o sustento, não posso ficar… Porque aí eu vou querer fazer mais shows, entende? Isso eu não posso fazer. Então, vou fazer outras coisas, já que tenho tempo. Outras coisas que vão me render trocas ou dinheiro. O que eu posso fazer que nunca pensei? Hoje, será que eu quero fazer um bar? (Risos). Quem é que vai num bar? Vai todo mundo. Será que quero atender todo mundo? Fico querendo fazer outras coisas. De repente, alguém me chama pra fazer um filme que vai ser bacana. Fiz um, há um ano e meio, que não ficou pronto. É frustrante. Tu vai lá, faz, gosta, e o processo pára. Isso é horrível.”

Antes de entrar para Os Replicantes, Wander trabalhava com cinema. Fazia parte de um grupo que produzia em super oito. “A gente ia pra Gramado todo ano, com um filme, um curta. Até que um ano foi um longa. Ia toda a turma. Ficava na casa do (Carlos) Gerbase (outro integrante dos Replicantes). Ou conseguia dois quartos de hotel, aí ficavam dez em dois quartos.” Não há muitas outras idéias antigas que voltam socando a porta, com força, como acontece(u) com o cinema. “Esporte é uma coisa que eu fiz. No começo, não fazia. Depois, fiz, parei, voltei”, lembra o fã da golfista mexicana. “Tu faz porque é macaco. Alguém tá fazendo e tu tá fazendo também. A consciência pode vir de várias formas. Tu visualiza. Isso já é um processo que vem há alguns anos. Há uns cinco anos. E as últimas músicas que eu compus já fiz há uns três anos e meio. Começa essa coisa de falar dos sonhos, em vez de falar do passado, das histórias de amor que não deram certo. É, porque e vi que tinha que carregar pra sempre aquelas músicas. Cantar uma história que já não é mais, eu não penso mais aquilo, cantar uma música que tu já não concorda mais com ela. Aí, naquela época, vi que não era legal fazer isso. Eu fazia música por intuição total, na época dos Replicantes. Ninguém pensava em nada. E aí com o tempo comecei a pensar mais. Primeiro, foi com um show que eu ia fazer, ia chamar ‘Inverno sombrio’. Eu tava tocando aquela música dos Replicantes, ‘Inverno sombrio’. Aí, um médico meu, na época, contei pra ele e ele falou ‘Bah, Inverno sombrio? É isso que tu quer pra ti?’ Aí, me dei conta, falei ‘Bah, não!’ e mudei. Virou ‘Rodando el mundo’. Foi quando eu tinha composto ‘Rodando el mundo’. Aí, depois, fiz o ‘Buenos dias’, e aí eu pensei ‘Ah, as músicas são essas… mas o que eu quero? Aí, pus o nome de ‘Buenos dias’. Podia ter sido ‘Porto Alegre é uma merda’, porque era um disco muito sobre Porto Alegre, eu tinha voltado pra lá. Eu digo ‘Não, não vou botar no disco o que ele é, mas o que eu quero’. O nome do disco vai ser o futuro. Tu lança energia pra mais, não fica contigo ali só no presente. Comecei a ver o que eu estava cantando e o que eu quero cantar… É importante fazer o que tu gosta. O mundo hoje é um reflexo de coisas negativas. O que tu faz reflete. Se tu faz um trabalho que tu não gosta, vai refletir isso. Se a maioria das pessoas não gosta do casamento, não gosta do trabalho, isso vai se refletir. Hoje, é um reflexo. A maioria das pessoas tá fazendo a mesma coisa. Não tá pensando no que tá fazendo, tá fazendo só porque alguém faz, porque a TV diz…”, lamenta, para em seguida dar um refresco: “Não fosse a TV, eu não ia ver o golfe. Descobri o golfe vendo TV.”

Três anos e meio sem escrever nenhuma canção nova faz a gente imaginar que talvez ele ande vendo muita televisão. Não é exatamente isso. É um pouco mais assustador: “Logo depois, eu me dei conta de que eu não ia compor mais. Posso parar de tocar amanhã. Este pode ser o último show. Posso amanhã simplesmente ir pra Grécia. Trabalhar num bar, na beira da praia, tomar banho de mar todo dia e pronto. Tem a idéia da sobrevivência. Se ficar muito difícil, eu sei que existem lugares em que se precisa de menos dinheiro pra viver. Obviamente, eu vou estar numa praia daqui a algum tempo.” Pescando, não, porque ele não gosta de pensar. É provável, diz o inquieto gaúcho, que ele se dedique à jardinagem. “Mas não tenho… não imagino que eu vá compor uma música, gravar um disco. Imagina! Até tem uma idéia antiga de gravar um disco de ska. Ska punk, com música de carnaval. Mas já não… Vou fazer se acontecer de algum dia, se rolarem as coisas: ‘Ah, se lembra aquela vez que tu falou de gravar um disco…? Aí, pá, tem um estúdio pra gravar…’ Não sei o que vou fazer daqui a um tempo.”

Wander, e é confortável, isso?

E ele: “Nããããoo”.

Em seguida, vem uma risada.

“Por um lado, não. É inseguro. E ficar sem grana é ruim. Em São Paulo, é ruim. Em Florianópolis… Tu vai pra Florianópolis porque sabe que não tem grana e que vai viver com pouco, numa praia. Em São Paulo: precisa de dinheiro pra ficar lá. Mas não sei o que vou fazer. Vou ficar limpando e ver o que vai refletir. Fui na época do acústico. Tava morando na praia, surgiu o convite pro acústico e achei que seria legal ir pra SP já que ia rolar trabalho. Tava há um ano na praia e achei que não tava legal, que precisava viajar e fazer alguma coisa. Tem trabalho… Tem que aprender como funciona. Não é uma cidade como as outras, é uma cidade universal. Mas tu aprende a viver nela. É um bom lugar de ter uma base. Pra parar, não; teria outras. Imagino que Recife seja uma boa cidade, mais tranqüila. Mas aí tem que querer mais tranqüilidade. Nunca acho só um lugar interessante. Viajar é interessante. Encho o saco de um lugar. Mas eu não sei o que vou fazer, como vai ser o ano que vem. Vou ter feito show, o natural é fazer outro disco. Não… Vou ter que buscar uma saída. Talvez não seja preciso fazer outro disco. Agora, eu não componho. Pode ser que eu pegue o violão e saia alguma coisa. Agora, não me interessa dizer nada a mais. Ou o que me interessa dizer alguém já fez em música. Posso fazer show com a música de outros, eu sempre fui versionista. Mais do que compositor.”

Se depender do que ele anda ouvindo, hoje, para que seja construído um novo repertório, vai ser difícil… “Ouço pouca coisa. Não ouço muita música… Às vezes, me dou conta de que eu não tô ouvindo música. Não compro disco. A música é um fundo. Às vezes, passo um tempo trabalhando no computador e não tá rolando música, é só o barulho da rua. Às vezes, ponho música para fazer comida, pra lavar a casa. As coisas dali dos meus 15 pros 25, anos 70, começo de 80, é o que eu sempre volto a ouvir. Dylan, Neil Young, Ednardo, Novos Baianos, sabe? Sempre tem isso, é constante. Jovem guarda, que também é uma influência… Volto mais pras coisas antigas. Banda nova é uma coisa que… Descobri uma. Baixamos o disco na hora, todo o disco era bom. Uma guria e um cara. Um baterista e ela canta. Inglesa. Interessante. Boa pra academia. Ouço na academia, correndo. É onde eu ouço mais música. A música é tudo, a academia fica muito mais fácil. Ajuda na respiração, no ritmo. Aí, ela tem uma importância maior do que o fundo musical. Na academia, ela é protagonista.”


Música


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  1. DoSol » Blog Archive » DIRETO DA BLOGOSFERA…
    29/07/2008 às 22:13

    [...] 1- WANDER WILDNER FALA AO SAMBAPUNK [...]


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29/07/2008 às 22:13

Wander Wildner: rumo à praia ou ao campo de golfe?

Adilson Pereira

Wander Wildner esteve no Rio para dois shows. Na sexta, 25, o gaúcho se apresentou para um público não muito grande mas que, em sua maioria, cantava as músicas junto com ele. Mesmo as que eram do disco que estava sendo lançado ali, “La cancion inesperada”, ganhavam um corinho de fazer gosto. Dava para ver que WW estava animado com aquilo. No dia seguinte, depois de almoçar com o pessoal da banda, ele cumpriu a promessa de conceder uma entrevista ao Sambapunk. Wander estava hospedado num hotel em Botafogo, mesmo bairro em que fica o Cinemathèque, bar em que ele havia se apresentado na noite anterior e onde faria um segundo show mais tarde. No quarto dividido com o guitarrista Jimi Joe, a TV estava ligada num canal que mostrava um torneio de golfe. Wander diz que começou a se interessar por aquilo há alguns anos. O torneio que está sendo exibido é feminino. “Tem a Lorena Ochoa, uma mexicana. Ela joga pra caralho”, ensina o artista, antes de falar sobre um modo de treinar que lhe parece muito mais apropriado: você começa de perto e, aos poucos, vai se afastando do buraco. “Aquelas tacadas mais longas, que são as mais difíceis, você só dá depois…”, diz, como que comemorando.

Ele acha que existe uma relação entre o gosto que adquiriu pelo golfe e a vida que vem levando, atualmente. Nas áreas em que se pratica o esporte de origem escocesa, tem aquele verde, aquela calma… E mais: “Tu tem que te preparar. Jogar uma partida de golfe é como fazer um disco, é como ensaiar… Tu é obrigado a te concentrar. É que nem a respiração. Pra respirar, tu tem que te concentrar no que tá fazendo. A gente não respira direito. Não faz nada direito.” Ele acha natural que agora, aos 48, se interesse por um esporte assim. Mais natural do que se isso acontecesse quando ele tinha 30 e poucos.

A chegada dos 50 parece não assustá-lo: “Vou fazer 49, este ano. 50, só ano que vem. É legal. É uma brincadeira, né? Só um número redondo que a gente tá acostumado a… Aos 36, tinha uma revolução… Se bem que agora eu tô noutra revolução, provavelmente. Vários ciclos astrológicos, que influenciam na vida da gente. E a mudança se dá com isso daí. A mudança é constante no ser humano. Tu muda o tempo inteiro. Como é que vai negar isso? Faz parte da vida. Não posso negar uma coisa que é da vida, negar alguma coisa que é natural.”

Além de aprender que não dá para ir contra certas coisas na vida, ele recentemente sacou que “um show não pode ser reto”. “Show de banda é igual; do começo ao fim, é igual”, reclama, dizendo que fez muito isso com Os Replicantes. Agora, ele e os Comancheros estão procurando uma dinâmica diferente. Muita dinâmica: “No meio da música, tem dinâmica. Nos blocos, tem dinâmica. Tem que ter um monte de coisa no show. Tu tem o som, o público, o dia como tu tá, o astral do lugar, a alma do lugar. Hoje em dia, optei por fazer shows só em lugares que eu gosto, em situações bacanas. Show para milhares de pessoas é distante, o palco é distante das pessoas. Não é verdade, não é legal. Show grande… eu nunca gostei de show grande. Só no começo dos Replicantes. As pessoas, nos lugares grandes, vão pela balada, pela história.”

O escriba faz uma piada que, se fosse uma tacada de golfe, não seria uma hole-in-one: palco grande só se for a torcida do Grêmio cantando “Bebendo vinho”… Wander faz que não ouviu. Ou está muito concentrado na loira da TV, que não é a Lorena Ochoa.

Falar de lugares grandes parece incomodar o veterano. Ele insiste no assunto: “Acho que antes eu imaginava um cenário alternativo, de ir melhorando ele. Aí, tu fica lutando com o Brasil. Não vou ficar lutando com o Brasil. O Brasil é assim, é natural ele ser assim, foda-se, vou fazer aquele show ali, tocar com os amigos, pra ser bacana. A gente tem que se sentir bem tocando, não pode ir além disso. Não pode deixar o ego te levar. Tu tá com a banda, aí a música tá saindo, vai pro público e volta. Manter isso é que é legal. Nós somos ao vivo como se estivéssemos num ensaio: tocando, pelo prazer. E isso tem que se manter pelo show inteiro. O barato de fazer um trabalho é isso.”

Esse músico que está de olho no prazer viu surgirem no circuito musical muitas coisas novas, ao longo dos anos. Não se mostra muito satisfeito com o que concorda ser um “circuito mais industrializado”. “É por isso que eu parei. Eu tava tentando manter sempre a coisa dentro disso. Ficar tentando com que as pessoas entendam a tua música, que saibam que tu lançou um disco, isso é horrível, não funciona. Me dei conta, agora, mês passado, que não era legal continuar desse jeito. Esses lugares todos que estão por aí são pra essas pessoas que pensam desse jeito. Eu não penso desse jeito. Então, vou ficar com as pessoas que tocam comigo. As pessoas que tocam comigo entendem como eu penso, também pensam desse jeito. E a gente vai onde tem pessoas que pensam desse jeito. Ficar tocando pras outras pessoas não é interessante, até porque elas não conhecem. E elas estão numa outra vibe. Essa vibe pra mim não interessa…”

O público se renova, diz, mas ainda é um público pequeno. A informação disponível sobre o trabalho de Wander, diz o próprio Wander, é pouca/pequena. “O público não cresce como cresce a população. É pequeno, sempre. Que é o tamanho da coisa que eu faço. Eu tava querendo ir sempre aumentando isso. Não. Isso não aumenta. Opa. Não tenho que aumentar. Se eu aumentar, vou além. O público que eu tenho é esse. Então, o que tenho que fazer? Descobrir em cada cidade um bar pra tocar. Esse é meu papel na música. Que é só um trabalho. Tem outros. Tem que fazer uns shows pequenos, simples. Não se desgastar, não ser estressado, ser tranqüilo. E estava sendo estressante. Vou ter que pagar uma assessoria de imprensa, pra sair uma matéria? Não, isso aí é caro. Não tenho dinheiro pra pagar. Assessoria? Não é legal pagar assessoria, como não é legal pagar o jabá na rádio. Entende? Não é legal fazer isso. É máfia! Tuas mãos ficam sujas de sangue. Não quero que minhas mãos fiquem sujas de sangue. Entende? Não quero. Não vou me meter com isso. Aí, eu me afasto disso. E aí a gente cria um novo mundo. Alternativo. Existe em todo o planeta, isso. Em todo o planeta, existem pessoas que pensam diferente. Uma outra forma de pensar. E você fica interligado com essas pessoas. Claro, isso cresce. Está crescendo. Esse universo é interessante, o outro não é interessante.”

Se isso é uma visão romântica, da vida e do trabalho? Depende de que romantismo se está falando. “Tem a primeira visão do romantismo, que é antiga, e tem a visão capitalista. São dois romantismos. É uma coisa que foi transformada. Toda a história da sociedade capitalista é transformar os fundamentos, pras pessoas perderem aquele fundamento antigo e terem o novo. Então, eles mudam tudo: amor, romantismo, trabalho. O capitalismo altera tudo. Porque se tu continuar com isso você não vai querer o capitalismo. Trabalho… não é por prazer, não é para produzir uma coisa boa. É pra ganhar dinheiro. Pra ir pra faculdade, pra comprar um carro, comprar um apartamento, pra…”

Se surgir um convite para aparecer num programa de TV, algo que pode fazer com que uma tiragem de CD se esgote (mais) rapidamente, Wander dirá “Nãããoo!”. Na verdade, o artista acha que não tem como acontecer essa história de ele ser convidado porque, para que tal coisa aconteça, o cara precisa fazer coisas que levem a isso. Parece que WW está mesmo fugindo disso. Mas ele diz que não é fuga. “Tenho outro caminho. Pra isso (convite para um programa de TV) acontecer, você vai ter que ter uma gravadora, vai ter que fazer um disco com o Rick Bonadio, pra lançar pela Arsenal, pra fazer o Jô, pra fazer todos os programas. Mas aí tu tá te metendo com aquelas pessoas que pensam daquele jeito. Não vou me meter com elas. Não é compatível uma coisa com a outra. Não faço. Antes, eu já não fazia. Hoje, eu não faço mais nada. Nem entrevista. Tô falando contigo, aqui, porque é tu, porque te conheço. Mas… não me interessa mais ir na MTV fazer os programas. Eles nem sabem, mas… Fazia, porque era legal. Porque eram meus amigos. Não precisava fazer nada que eu não quisesse, na MTV. Eles me respeitavam. Eles me respeitam e eu respeito eles. Então, sempre que eu ia lá era para falar o que eu quisesse. Mas hoje nem me interessa falar isso mais. Só a música tem que se bastar…”

Se esta seqüência de declarações fosse uma seqüência de tacadas de golfe, o certo seria o leitor imaginar tacadas cada vez mais fortes. Mas não furiosas. Wander se expressa com calma e firmeza. Bebe uns goles de água, dá tragadas num cigarro daqueles que vêm num estojinho de lata. E mantém a conversa com o entrevistador ao mesmo tempo em que continua atento às meninas jogando golfe: “Tu vai limpando a história, né?”, ele recomeça. “Tem um problema, ali. Vai lá e resolve. Tu já não deixa mais o problema, porque sabe que não vai ser legal. Não posterga mais. Vai sendo seletivo. Junto com a aventura de cada dia ser um novo dia. Não é se acomodar. Tu não te acomoda, quando fica mais seletivo. A qualidade de vida melhora. Só isso.”

Por falar em seleção, tem a história de fazer outros trabalhos. Sem sair do universo da música, isso significa para Wander dedicar-se à produção dos shows, de material gráfico para divulgação. Mas ele vai além. Trabalhos diferentes, hoje, significam também uma volta ao universo do cinema e do teatro - que foi por onde ele começou. “Até agora, sempre imaginava que ia aumentando a história da música. Mas vi que não dá. Então, tenho que fazer mais outras coisas. A música é isso: vou fazer alguns shows, em alguns lugares, isso não vai me dar dinheiro suficiente. Em vez de tentar aumentar isso, vou gastar tempo noutros trabalhos. Tô fazendo um curta que fala sobre mudança. O cara deixa de fazer o que tá fazendo pra fazer uma outra coisa. Porque o vídeo é uma coisa legal. É um trabalho coletivo também ou tu pode fazer sozinho, mas é uma forma de contar história…”

Ele ri e diz que, sim, há algo de autobiográfico nesta produção: “É um cara que deixa a música para ser caddie de golfe. É totalmente biográfico, mas também é ficção. É tudo aumentado. Se vou fazer um filme, pensei, difícil é escrever a história. ‘Que história vou escrever? Vou fazer uma história minha, então. Meu primeiro filme, já vou ter que chamar um monte de gente pra ajudar, e vou falar de outro? Não, vou falar do meu universo, porque o meu universo eu domino mais.’ O processo de produzir alguma coisa ajuda a resolver problemas. Fazendo um filme, vou analisando as minhas coisas, botando as minhas coisas no filme, vou pensando sobre elas. Depois do filme pronto, vou estar alterado. E vou ter um trabalho realizado. Acho que a coisa do trabalho é muito forte. Como descendente de imigrante… Quer dizer, acho que pra todo mundo o trabalho é a base. Produzir alguma coisa pra colher outra, pra sobreviver. Tenho que trabalhar, fazer outras coisas. Fico imaginando o que vou fazer, já que a música é aquilo ali e não sei se ela vai dar o sustento, não posso ficar… Porque aí eu vou querer fazer mais shows, entende? Isso eu não posso fazer. Então, vou fazer outras coisas, já que tenho tempo. Outras coisas que vão me render trocas ou dinheiro. O que eu posso fazer que nunca pensei? Hoje, será que eu quero fazer um bar? (Risos). Quem é que vai num bar? Vai todo mundo. Será que quero atender todo mundo? Fico querendo fazer outras coisas. De repente, alguém me chama pra fazer um filme que vai ser bacana. Fiz um, há um ano e meio, que não ficou pronto. É frustrante. Tu vai lá, faz, gosta, e o processo pára. Isso é horrível.”

Antes de entrar para Os Replicantes, Wander trabalhava com cinema. Fazia parte de um grupo que produzia em super oito. “A gente ia pra Gramado todo ano, com um filme, um curta. Até que um ano foi um longa. Ia toda a turma. Ficava na casa do (Carlos) Gerbase (outro integrante dos Replicantes). Ou conseguia dois quartos de hotel, aí ficavam dez em dois quartos.” Não há muitas outras idéias antigas que voltam socando a porta, com força, como acontece(u) com o cinema. “Esporte é uma coisa que eu fiz. No começo, não fazia. Depois, fiz, parei, voltei”, lembra o fã da golfista mexicana. “Tu faz porque é macaco. Alguém tá fazendo e tu tá fazendo também. A consciência pode vir de várias formas. Tu visualiza. Isso já é um processo que vem há alguns anos. Há uns cinco anos. E as últimas músicas que eu compus já fiz há uns três anos e meio. Começa essa coisa de falar dos sonhos, em vez de falar do passado, das histórias de amor que não deram certo. É, porque e vi que tinha que carregar pra sempre aquelas músicas. Cantar uma história que já não é mais, eu não penso mais aquilo, cantar uma música que tu já não concorda mais com ela. Aí, naquela época, vi que não era legal fazer isso. Eu fazia música por intuição total, na época dos Replicantes. Ninguém pensava em nada. E aí com o tempo comecei a pensar mais. Primeiro, foi com um show que eu ia fazer, ia chamar ‘Inverno sombrio’. Eu tava tocando aquela música dos Replicantes, ‘Inverno sombrio’. Aí, um médico meu, na época, contei pra ele e ele falou ‘Bah, Inverno sombrio? É isso que tu quer pra ti?’ Aí, me dei conta, falei ‘Bah, não!’ e mudei. Virou ‘Rodando el mundo’. Foi quando eu tinha composto ‘Rodando el mundo’. Aí, depois, fiz o ‘Buenos dias’, e aí eu pensei ‘Ah, as músicas são essas… mas o que eu quero? Aí, pus o nome de ‘Buenos dias’. Podia ter sido ‘Porto Alegre é uma merda’, porque era um disco muito sobre Porto Alegre, eu tinha voltado pra lá. Eu digo ‘Não, não vou botar no disco o que ele é, mas o que eu quero’. O nome do disco vai ser o futuro. Tu lança energia pra mais, não fica contigo ali só no presente. Comecei a ver o que eu estava cantando e o que eu quero cantar… É importante fazer o que tu gosta. O mundo hoje é um reflexo de coisas negativas. O que tu faz reflete. Se tu faz um trabalho que tu não gosta, vai refletir isso. Se a maioria das pessoas não gosta do casamento, não gosta do trabalho, isso vai se refletir. Hoje, é um reflexo. A maioria das pessoas tá fazendo a mesma coisa. Não tá pensando no que tá fazendo, tá fazendo só porque alguém faz, porque a TV diz…”, lamenta, para em seguida dar um refresco: “Não fosse a TV, eu não ia ver o golfe. Descobri o golfe vendo TV.”

Três anos e meio sem escrever nenhuma canção nova faz a gente imaginar que talvez ele ande vendo muita televisão. Não é exatamente isso. É um pouco mais assustador: “Logo depois, eu me dei conta de que eu não ia compor mais. Posso parar de tocar amanhã. Este pode ser o último show. Posso amanhã simplesmente ir pra Grécia. Trabalhar num bar, na beira da praia, tomar banho de mar todo dia e pronto. Tem a idéia da sobrevivência. Se ficar muito difícil, eu sei que existem lugares em que se precisa de menos dinheiro pra viver. Obviamente, eu vou estar numa praia daqui a algum tempo.” Pescando, não, porque ele não gosta de pensar. É provável, diz o inquieto gaúcho, que ele se dedique à jardinagem. “Mas não tenho… não imagino que eu vá compor uma música, gravar um disco. Imagina! Até tem uma idéia antiga de gravar um disco de ska. Ska punk, com música de carnaval. Mas já não… Vou fazer se acontecer de algum dia, se rolarem as coisas: ‘Ah, se lembra aquela vez que tu falou de gravar um disco…? Aí, pá, tem um estúdio pra gravar…’ Não sei o que vou fazer daqui a um tempo.”

Wander, e é confortável, isso?

E ele: “Nããããoo”.

Em seguida, vem uma risada.

“Por um lado, não. É inseguro. E ficar sem grana é ruim. Em São Paulo, é ruim. Em Florianópolis… Tu vai pra Florianópolis porque sabe que não tem grana e que vai viver com pouco, numa praia. Em São Paulo: precisa de dinheiro pra ficar lá. Mas não sei o que vou fazer. Vou ficar limpando e ver o que vai refletir. Fui na época do acústico. Tava morando na praia, surgiu o convite pro acústico e achei que seria legal ir pra SP já que ia rolar trabalho. Tava há um ano na praia e achei que não tava legal, que precisava viajar e fazer alguma coisa. Tem trabalho… Tem que aprender como funciona. Não é uma cidade como as outras, é uma cidade universal. Mas tu aprende a viver nela. É um bom lugar de ter uma base. Pra parar, não; teria outras. Imagino que Recife seja uma boa cidade, mais tranqüila. Mas aí tem que querer mais tranqüilidade. Nunca acho só um lugar interessante. Viajar é interessante. Encho o saco de um lugar. Mas eu não sei o que vou fazer, como vai ser o ano que vem. Vou ter feito show, o natural é fazer outro disco. Não… Vou ter que buscar uma saída. Talvez não seja preciso fazer outro disco. Agora, eu não componho. Pode ser que eu pegue o violão e saia alguma coisa. Agora, não me interessa dizer nada a mais. Ou o que me interessa dizer alguém já fez em música. Posso fazer show com a música de outros, eu sempre fui versionista. Mais do que compositor.”

Se depender do que ele anda ouvindo, hoje, para que seja construído um novo repertório, vai ser difícil… “Ouço pouca coisa. Não ouço muita música… Às vezes, me dou conta de que eu não tô ouvindo música. Não compro disco. A música é um fundo. Às vezes, passo um tempo trabalhando no computador e não tá rolando música, é só o barulho da rua. Às vezes, ponho música para fazer comida, pra lavar a casa. As coisas dali dos meus 15 pros 25, anos 70, começo de 80, é o que eu sempre volto a ouvir. Dylan, Neil Young, Ednardo, Novos Baianos, sabe? Sempre tem isso, é constante. Jovem guarda, que também é uma influência… Volto mais pras coisas antigas. Banda nova é uma coisa que… Descobri uma. Baixamos o disco na hora, todo o disco era bom. Uma guria e um cara. Um baterista e ela canta. Inglesa. Interessante. Boa pra academia. Ouço na academia, correndo. É onde eu ouço mais música. A música é tudo, a academia fica muito mais fácil. Ajuda na respiração, no ritmo. Aí, ela tem uma importância maior do que o fundo musical. Na academia, ela é protagonista.”


Música


Uma resposta

  1. DoSol » Blog Archive » DIRETO DA BLOGOSFERA…
    29/07/2008 às 22:13

    [...] 1- WANDER WILDNER FALA AO SAMBAPUNK [...]


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29/07/2008 às 22:13

Wander Wildner: rumo à praia ou ao campo de golfe?

Adilson Pereira

Wander Wildner esteve no Rio para dois shows. Na sexta, 25, o gaúcho se apresentou para um público não muito grande mas que, em sua maioria, cantava as músicas junto com ele. Mesmo as que eram do disco que estava sendo lançado ali, “La cancion inesperada”, ganhavam um corinho de fazer gosto. Dava para ver que WW estava animado com aquilo. No dia seguinte, depois de almoçar com o pessoal da banda, ele cumpriu a promessa de conceder uma entrevista ao Sambapunk. Wander estava hospedado num hotel em Botafogo, mesmo bairro em que fica o Cinemathèque, bar em que ele havia se apresentado na noite anterior e onde faria um segundo show mais tarde. No quarto dividido com o guitarrista Jimi Joe, a TV estava ligada num canal que mostrava um torneio de golfe. Wander diz que começou a se interessar por aquilo há alguns anos. O torneio que está sendo exibido é feminino. “Tem a Lorena Ochoa, uma mexicana. Ela joga pra caralho”, ensina o artista, antes de falar sobre um modo de treinar que lhe parece muito mais apropriado: você começa de perto e, aos poucos, vai se afastando do buraco. “Aquelas tacadas mais longas, que são as mais difíceis, você só dá depois…”, diz, como que comemorando.

Ele acha que existe uma relação entre o gosto que adquiriu pelo golfe e a vida que vem levando, atualmente. Nas áreas em que se pratica o esporte de origem escocesa, tem aquele verde, aquela calma… E mais: “Tu tem que te preparar. Jogar uma partida de golfe é como fazer um disco, é como ensaiar… Tu é obrigado a te concentrar. É que nem a respiração. Pra respirar, tu tem que te concentrar no que tá fazendo. A gente não respira direito. Não faz nada direito.” Ele acha natural que agora, aos 48, se interesse por um esporte assim. Mais natural do que se isso acontecesse quando ele tinha 30 e poucos.

A chegada dos 50 parece não assustá-lo: “Vou fazer 49, este ano. 50, só ano que vem. É legal. É uma brincadeira, né? Só um número redondo que a gente tá acostumado a… Aos 36, tinha uma revolução… Se bem que agora eu tô noutra revolução, provavelmente. Vários ciclos astrológicos, que influenciam na vida da gente. E a mudança se dá com isso daí. A mudança é constante no ser humano. Tu muda o tempo inteiro. Como é que vai negar isso? Faz parte da vida. Não posso negar uma coisa que é da vida, negar alguma coisa que é natural.”

Além de aprender que não dá para ir contra certas coisas na vida, ele recentemente sacou que “um show não pode ser reto”. “Show de banda é igual; do começo ao fim, é igual”, reclama, dizendo que fez muito isso com Os Replicantes. Agora, ele e os Comancheros estão procurando uma dinâmica diferente. Muita dinâmica: “No meio da música, tem dinâmica. Nos blocos, tem dinâmica. Tem que ter um monte de coisa no show. Tu tem o som, o público, o dia como tu tá, o astral do lugar, a alma do lugar. Hoje em dia, optei por fazer shows só em lugares que eu gosto, em situações bacanas. Show para milhares de pessoas é distante, o palco é distante das pessoas. Não é verdade, não é legal. Show grande… eu nunca gostei de show grande. Só no começo dos Replicantes. As pessoas, nos lugares grandes, vão pela balada, pela história.”

O escriba faz uma piada que, se fosse uma tacada de golfe, não seria uma hole-in-one: palco grande só se for a torcida do Grêmio cantando “Bebendo vinho”… Wander faz que não ouviu. Ou está muito concentrado na loira da TV, que não é a Lorena Ochoa.

Falar de lugares grandes parece incomodar o veterano. Ele insiste no assunto: “Acho que antes eu imaginava um cenário alternativo, de ir melhorando ele. Aí, tu fica lutando com o Brasil. Não vou ficar lutando com o Brasil. O Brasil é assim, é natural ele ser assim, foda-se, vou fazer aquele show ali, tocar com os amigos, pra ser bacana. A gente tem que se sentir bem tocando, não pode ir além disso. Não pode deixar o ego te levar. Tu tá com a banda, aí a música tá saindo, vai pro público e volta. Manter isso é que é legal. Nós somos ao vivo como se estivéssemos num ensaio: tocando, pelo prazer. E isso tem que se manter pelo show inteiro. O barato de fazer um trabalho é isso.”

Esse músico que está de olho no prazer viu surgirem no circuito musical muitas coisas novas, ao longo dos anos. Não se mostra muito satisfeito com o que concorda ser um “circuito mais industrializado”. “É por isso que eu parei. Eu tava tentando manter sempre a coisa dentro disso. Ficar tentando com que as pessoas entendam a tua música, que saibam que tu lançou um disco, isso é horrível, não funciona. Me dei conta, agora, mês passado, que não era legal continuar desse jeito. Esses lugares todos que estão por aí são pra essas pessoas que pensam desse jeito. Eu não penso desse jeito. Então, vou ficar com as pessoas que tocam comigo. As pessoas que tocam comigo entendem como eu penso, também pensam desse jeito. E a gente vai onde tem pessoas que pensam desse jeito. Ficar tocando pras outras pessoas não é interessante, até porque elas não conhecem. E elas estão numa outra vibe. Essa vibe pra mim não interessa…”

O público se renova, diz, mas ainda é um público pequeno. A informação disponível sobre o trabalho de Wander, diz o próprio Wander, é pouca/pequena. “O público não cresce como cresce a população. É pequeno, sempre. Que é o tamanho da coisa que eu faço. Eu tava querendo ir sempre aumentando isso. Não. Isso não aumenta. Opa. Não tenho que aumentar. Se eu aumentar, vou além. O público que eu tenho é esse. Então, o que tenho que fazer? Descobrir em cada cidade um bar pra tocar. Esse é meu papel na música. Que é só um trabalho. Tem outros. Tem que fazer uns shows pequenos, simples. Não se desgastar, não ser estressado, ser tranqüilo. E estava sendo estressante. Vou ter que pagar uma assessoria de imprensa, pra sair uma matéria? Não, isso aí é caro. Não tenho dinheiro pra pagar. Assessoria? Não é legal pagar assessoria, como não é legal pagar o jabá na rádio. Entende? Não é legal fazer isso. É máfia! Tuas mãos ficam sujas de sangue. Não quero que minhas mãos fiquem sujas de sangue. Entende? Não quero. Não vou me meter com isso. Aí, eu me afasto disso. E aí a gente cria um novo mundo. Alternativo. Existe em todo o planeta, isso. Em todo o planeta, existem pessoas que pensam diferente. Uma outra forma de pensar. E você fica interligado com essas pessoas. Claro, isso cresce. Está crescendo. Esse universo é interessante, o outro não é interessante.”

Se isso é uma visão romântica, da vida e do trabalho? Depende de que romantismo se está falando. “Tem a primeira visão do romantismo, que é antiga, e tem a visão capitalista. São dois romantismos. É uma coisa que foi transformada. Toda a história da sociedade capitalista é transformar os fundamentos, pras pessoas perderem aquele fundamento antigo e terem o novo. Então, eles mudam tudo: amor, romantismo, trabalho. O capitalismo altera tudo. Porque se tu continuar com isso você não vai querer o capitalismo. Trabalho… não é por prazer, não é para produzir uma coisa boa. É pra ganhar dinheiro. Pra ir pra faculdade, pra comprar um carro, comprar um apartamento, pra…”

Se surgir um convite para aparecer num programa de TV, algo que pode fazer com que uma tiragem de CD se esgote (mais) rapidamente, Wander dirá “Nãããoo!”. Na verdade, o artista acha que não tem como acontecer essa história de ele ser convidado porque, para que tal coisa aconteça, o cara precisa fazer coisas que levem a isso. Parece que WW está mesmo fugindo disso. Mas ele diz que não é fuga. “Tenho outro caminho. Pra isso (convite para um programa de TV) acontecer, você vai ter que ter uma gravadora, vai ter que fazer um disco com o Rick Bonadio, pra lançar pela Arsenal, pra fazer o Jô, pra fazer todos os programas. Mas aí tu tá te metendo com aquelas pessoas que pensam daquele jeito. Não vou me meter com elas. Não é compatível uma coisa com a outra. Não faço. Antes, eu já não fazia. Hoje, eu não faço mais nada. Nem entrevista. Tô falando contigo, aqui, porque é tu, porque te conheço. Mas… não me interessa mais ir na MTV fazer os programas. Eles nem sabem, mas… Fazia, porque era legal. Porque eram meus amigos. Não precisava fazer nada que eu não quisesse, na MTV. Eles me respeitavam. Eles me respeitam e eu respeito eles. Então, sempre que eu ia lá era para falar o que eu quisesse. Mas hoje nem me interessa falar isso mais. Só a música tem que se bastar…”

Se esta seqüência de declarações fosse uma seqüência de tacadas de golfe, o certo seria o leitor imaginar tacadas cada vez mais fortes. Mas não furiosas. Wander se expressa com calma e firmeza. Bebe uns goles de água, dá tragadas num cigarro daqueles que vêm num estojinho de lata. E mantém a conversa com o entrevistador ao mesmo tempo em que continua atento às meninas jogando golfe: “Tu vai limpando a história, né?”, ele recomeça. “Tem um problema, ali. Vai lá e resolve. Tu já não deixa mais o problema, porque sabe que não vai ser legal. Não posterga mais. Vai sendo seletivo. Junto com a aventura de cada dia ser um novo dia. Não é se acomodar. Tu não te acomoda, quando fica mais seletivo. A qualidade de vida melhora. Só isso.”

Por falar em seleção, tem a história de fazer outros trabalhos. Sem sair do universo da música, isso significa para Wander dedicar-se à produção dos shows, de material gráfico para divulgação. Mas ele vai além. Trabalhos diferentes, hoje, significam também uma volta ao universo do cinema e do teatro - que foi por onde ele começou. “Até agora, sempre imaginava que ia aumentando a história da música. Mas vi que não dá. Então, tenho que fazer mais outras coisas. A música é isso: vou fazer alguns shows, em alguns lugares, isso não vai me dar dinheiro suficiente. Em vez de tentar aumentar isso, vou gastar tempo noutros trabalhos. Tô fazendo um curta que fala sobre mudança. O cara deixa de fazer o que tá fazendo pra fazer uma outra coisa. Porque o vídeo é uma coisa legal. É um trabalho coletivo também ou tu pode fazer sozinho, mas é uma forma de contar história…”

Ele ri e diz que, sim, há algo de autobiográfico nesta produção: “É um cara que deixa a música para ser caddie de golfe. É totalmente biográfico, mas também é ficção. É tudo aumentado. Se vou fazer um filme, pensei, difícil é escrever a história. ‘Que história vou escrever? Vou fazer uma história minha, então. Meu primeiro filme, já vou ter que chamar um monte de gente pra ajudar, e vou falar de outro? Não, vou falar do meu universo, porque o meu universo eu domino mais.’ O processo de produzir alguma coisa ajuda a resolver problemas. Fazendo um filme, vou analisando as minhas coisas, botando as minhas coisas no filme, vou pensando sobre elas. Depois do filme pronto, vou estar alterado. E vou ter um trabalho realizado. Acho que a coisa do trabalho é muito forte. Como descendente de imigrante… Quer dizer, acho que pra todo mundo o trabalho é a base. Produzir alguma coisa pra colher outra, pra sobreviver. Tenho que trabalhar, fazer outras coisas. Fico imaginando o que vou fazer, já que a música é aquilo ali e não sei se ela vai dar o sustento, não posso ficar… Porque aí eu vou querer fazer mais shows, entende? Isso eu não posso fazer. Então, vou fazer outras coisas, já que tenho tempo. Outras coisas que vão me render trocas ou dinheiro. O que eu posso fazer que nunca pensei? Hoje, será que eu quero fazer um bar? (Risos). Quem é que vai num bar? Vai todo mundo. Será que quero atender todo mundo? Fico querendo fazer outras coisas. De repente, alguém me chama pra fazer um filme que vai ser bacana. Fiz um, há um ano e meio, que não ficou pronto. É frustrante. Tu vai lá, faz, gosta, e o processo pára. Isso é horrível.”

Antes de entrar para Os Replicantes, Wander trabalhava com cinema. Fazia parte de um grupo que produzia em super oito. “A gente ia pra Gramado todo ano, com um filme, um curta. Até que um ano foi um longa. Ia toda a turma. Ficava na casa do (Carlos) Gerbase (outro integrante dos Replicantes). Ou conseguia dois quartos de hotel, aí ficavam dez em dois quartos.” Não há muitas outras idéias antigas que voltam socando a porta, com força, como acontece(u) com o cinema. “Esporte é uma coisa que eu fiz. No começo, não fazia. Depois, fiz, parei, voltei”, lembra o fã da golfista mexicana. “Tu faz porque é macaco. Alguém tá fazendo e tu tá fazendo também. A consciência pode vir de várias formas. Tu visualiza. Isso já é um processo que vem há alguns anos. Há uns cinco anos. E as últimas músicas que eu compus já fiz há uns três anos e meio. Começa essa coisa de falar dos sonhos, em vez de falar do passado, das histórias de amor que não deram certo. É, porque e vi que tinha que carregar pra sempre aquelas músicas. Cantar uma história que já não é mais, eu não penso mais aquilo, cantar uma música que tu já não concorda mais com ela. Aí, naquela época, vi que não era legal fazer isso. Eu fazia música por intuição total, na época dos Replicantes. Ninguém pensava em nada. E aí com o tempo comecei a pensar mais. Primeiro, foi com um show que eu ia fazer, ia chamar ‘Inverno sombrio’. Eu tava tocando aquela música dos Replicantes, ‘Inverno sombrio’. Aí, um médico meu, na época, contei pra ele e ele falou ‘Bah, Inverno sombrio? É isso que tu quer pra ti?’ Aí, me dei conta, falei ‘Bah, não!’ e mudei. Virou ‘Rodando el mundo’. Foi quando eu tinha composto ‘Rodando el mundo’. Aí, depois, fiz o ‘Buenos dias’, e aí eu pensei ‘Ah, as músicas são essas… mas o que eu quero? Aí, pus o nome de ‘Buenos dias’. Podia ter sido ‘Porto Alegre é uma merda’, porque era um disco muito sobre Porto Alegre, eu tinha voltado pra lá. Eu digo ‘Não, não vou botar no disco o que ele é, mas o que eu quero’. O nome do disco vai ser o futuro. Tu lança energia pra mais, não fica contigo ali só no presente. Comecei a ver o que eu estava cantando e o que eu quero cantar… É importante fazer o que tu gosta. O mundo hoje é um reflexo de coisas negativas. O que tu faz reflete. Se tu faz um trabalho que tu não gosta, vai refletir isso. Se a maioria das pessoas não gosta do casamento, não gosta do trabalho, isso vai se refletir. Hoje, é um reflexo. A maioria das pessoas tá fazendo a mesma coisa. Não tá pensando no que tá fazendo, tá fazendo só porque alguém faz, porque a TV diz…”, lamenta, para em seguida dar um refresco: “Não fosse a TV, eu não ia ver o golfe. Descobri o golfe vendo TV.”

Três anos e meio sem escrever nenhuma canção nova faz a gente imaginar que talvez ele ande vendo muita televisão. Não é exatamente isso. É um pouco mais assustador: “Logo depois, eu me dei conta de que eu não ia compor mais. Posso parar de tocar amanhã. Este pode ser o último show. Posso amanhã simplesmente ir pra Grécia. Trabalhar num bar, na beira da praia, tomar banho de mar todo dia e pronto. Tem a idéia da sobrevivência. Se ficar muito difícil, eu sei que existem lugares em que se precisa de menos dinheiro pra viver. Obviamente, eu vou estar numa praia daqui a algum tempo.” Pescando, não, porque ele não gosta de pensar. É provável, diz o inquieto gaúcho, que ele se dedique à jardinagem. “Mas não tenho… não imagino que eu vá compor uma música, gravar um disco. Imagina! Até tem uma idéia antiga de gravar um disco de ska. Ska punk, com música de carnaval. Mas já não… Vou fazer se acontecer de algum dia, se rolarem as coisas: ‘Ah, se lembra aquela vez que tu falou de gravar um disco…? Aí, pá, tem um estúdio pra gravar…’ Não sei o que vou fazer daqui a um tempo.”

Wander, e é confortável, isso?

E ele: “Nããããoo”.

Em seguida, vem uma risada.

“Por um lado, não. É inseguro. E ficar sem grana é ruim. Em São Paulo, é ruim. Em Florianópolis… Tu vai pra Florianópolis porque sabe que não tem grana e que vai viver com pouco, numa praia. Em São Paulo: precisa de dinheiro pra ficar lá. Mas não sei o que vou fazer. Vou ficar limpando e ver o que vai refletir. Fui na época do acústico. Tava morando na praia, surgiu o convite pro acústico e achei que seria legal ir pra SP já que ia rolar trabalho. Tava há um ano na praia e achei que não tava legal, que precisava viajar e fazer alguma coisa. Tem trabalho… Tem que aprender como funciona. Não é uma cidade como as outras, é uma cidade universal. Mas tu aprende a viver nela. É um bom lugar de ter uma base. Pra parar, não; teria outras. Imagino que Recife seja uma boa cidade, mais tranqüila. Mas aí tem que querer mais tranqüilidade. Nunca acho só um lugar interessante. Viajar é interessante. Encho o saco de um lugar. Mas eu não sei o que vou fazer, como vai ser o ano que vem. Vou ter feito show, o natural é fazer outro disco. Não… Vou ter que buscar uma saída. Talvez não seja preciso fazer outro disco. Agora, eu não componho. Pode ser que eu pegue o violão e saia alguma coisa. Agora, não me interessa dizer nada a mais. Ou o que me interessa dizer alguém já fez em música. Posso fazer show com a música de outros, eu sempre fui versionista. Mais do que compositor.”

Se depender do que ele anda ouvindo, hoje, para que seja construído um novo repertório, vai ser difícil… “Ouço pouca coisa. Não ouço muita música… Às vezes, me dou conta de que eu não tô ouvindo música. Não compro disco. A música é um fundo. Às vezes, passo um tempo trabalhando no computador e não tá rolando música, é só o barulho da rua. Às vezes, ponho música para fazer comida, pra lavar a casa. As coisas dali dos meus 15 pros 25, anos 70, começo de 80, é o que eu sempre volto a ouvir. Dylan, Neil Young, Ednardo, Novos Baianos, sabe? Sempre tem isso, é constante. Jovem guarda, que também é uma influência… Volto mais pras coisas antigas. Banda nova é uma coisa que… Descobri uma. Baixamos o disco na hora, todo o disco era bom. Uma guria e um cara. Um baterista e ela canta. Inglesa. Interessante. Boa pra academia. Ouço na academia, correndo. É onde eu ouço mais música. A música é tudo, a academia fica muito mais fácil. Ajuda na respiração, no ritmo. Aí, ela tem uma importância maior do que o fundo musical. Na academia, ela é protagonista.”


Música


Uma resposta

  1. DoSol » Blog Archive » DIRETO DA BLOGOSFERA…
    29/07/2008 às 22:13

    [...] 1- WANDER WILDNER FALA AO SAMBAPUNK [...]


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