04/11/2008 às 11:47
Circuito Escolar Maria Scombona: Música pra pensar alto
Colaboração especialFotos de Luiza e Fernanda Teles
Sergipe – No último sábado, eu acordei com uma ressaca monstro. Mas não podia perder um compromisso que julguei muito importante. Era o último dia do projeto Circuito Escolar Maria Scombona e eu estava curiosÃssima pra entender exatamente como é que era essa história. Para quem não sabe, a Maria Scombona é uma banda de blues rock (ok, é muito mais que isso. Quem gosta de rótulo aÃ, levanta a mão) de Sergipe, há muitos anos na estrada, com dois discos lançados, baseada nas composições e no talento de seu “crooner” Henrique Teles.

O evento a que me refiro acontecia no auditório da biblioteca pública do Estado. Ao que parece, juntou-se por acaso à programação de uma mal-divulgada Feira do livro. Na verdade, mesmo, para a banda era o último dia de um circuito que percorreu oito escolas da rede privada de ensino fundamental de Aracaju durante uns dois meses, sempre nos sábados pela manhã.
Cheguei um pouco atrasada e a conversa já estava começada. Na platéia, só meninada. Média de uns 12 anos. Sentei na ponta de uma fileira só de guris que prestavam tanta atenção ao que o baixista falava que alguns chegavam a estar de boca aberta. Robson explicava a diferença básica entre harmonia e melodia. E seguia dizendo que, portanto, a abordagem do baixo numa composição era de ordem harmônica. E que quem vai tocar a melodia da musica é a guitarra. Aà foi a vez do guitarrista, Saulinho Ferreira, também dar sua aula, continuando – então eu entendi – a desconstrução que a banda fazia de uma de suas composições, “Lucimar”, do primeiro CD da Maria Scombona, “Grão”.

O baterista, Rafael Jr, conhecido aqui por tocar em 345 bandas além de ser músico dos Bombeiros, interagia durante os exemplos com seu instrumento e com suas idéias.
Era um workshop para alunos, professores e coordenadores de uma escola particular e – neste caso em especial, também para os visitantes da Feira do Livro.
Inclusive, um deles foi o próprio Secretário de Estado da Cultura, professor Luis Alberto! Henrique não perdeu a deixa de oferecer uma embolada sobre a saga do músico pro Secretário, que respondeu interagindo e batendo palminha. Bom momento. Outros ainda viriam.

Mudei de lugar pra ver as reações de outros tipos da platéia. Um casal de coroas apaixonados na minha frente interagia, comentava entre si o que os meninos diziam… se beijaram quando Saulinho disse que tudo era música. O tio olhou pra tia e disse: “Você é música!”. (suspiro).
Henrique Teles usou sua vez de falar pra chamar a atenção da moçada pra coisas tão importantes e diversas quanto: o fato de não precisar tocar um Cacumbi pra sua música ser regional; a importância de se preservar o nosso jeito de falar e não precisar imitar o sotaque de ninguém; e de que uma banda é algo que gera trabalho para muitos profissionais – engenheiro de som, produtor, assessor de imprensa, roadie etc – tão importantes na engrenagem quanto qualquer um dos músicos.
Foi quando veio o momento das perguntas. Eu pensei comigo: “Hum! Ninguém vai perguntar nada!” Mal acostumada que estou com a pouca interação dos universitários. Que nada! Foi uma avalanche que quase não tinha fim. SaÃa de tudo: das mais óbvias à s mais engraçadas e criativas.
“Tio, é verdade que você não lê partitura?”, entregou a sobrinha de Henrique, que junto com as amiguinhas tinha um caderno lotado de questões.
“Qual o objetivo principal de formar um banda?”, algum deles racionalizou.
“Porque vocês não têm um teclado?”, quis saber o tio apaixonado. A resposta de Rafael foi longe a ponto de falar de som vintage e órgãos valvulados. Hahahahahaha.

Foi chegando a hora em que eu precisava ir embora e as perguntas não acabavam. Eu pretendia trocar uma idéia com os rapazes depois que o evento terminasse, mas vi que se quisesse perguntar algo ainda antes de sair ia ter que ser no meio da moçada. Queria provocar, pra variar. Perguntei se com esta ação eles esperavam mesmo contribuir para uma formação de publico ou de cena musical no Estado e o que objetivamente eles ganhavam com isso, pois não acreditava que fosse puro altruÃsmo.
Henrique titubeou um pouco, ensaiou uma resposta mais romântica. Rafael lá de trás se atravessou pra dizer que é claro que eles eram remunerados para estar ali – através de patrocÃnios que eles próprios correram atrás – pois havia um esforço sendo empregado neste trabalho e o que eles estavam fazendo era a realização da função social da música, que merece ser reconhecida e recompensada.
Pisquei o olho pra ele e fui embora.
Mais sobre a Maria Scombona:
http://www.mariascombona.com.br/
http://blog.mariascombona.com.br/
http://www.myspace.com/mariascombona
| Comportamento, Crônicas, Música, Resenhas, Sem categoria | Um comentário |


Uma resposta
Henrique Teles
04/11/2008 às 11:47
Nem pelo tempo gasto, nem pela quantidade de palavras lidas. O prazer nos faz dormentes ao ponto de nada percebermos – nem tempo, nem espaço – quando a leitura é boa. Excelente narrativa da nossa manhã de sábado, MaÃra. Agradeço a presença e o texto.
Desculpo-me também. Explico por quê.
Não entendi a sua pergunta sobre o que “objetivamente ganhamos”. Nem passou por minha cabeça que você poderia estar se referindo a cachê. Talvez por não ter beliscado um tostão ainda do dinheiro do projeto, arrisquei julgar que haveria outros ganhos objetivos (como fãs + repercussão etc.). Esqueci do danado do dinheiro e fui passear pelos prados onÃricos da abnegação, da entrega, em troca daqueles sorrisos, aqueles olhos esbugalhados, daquelas perguntas desconcertantes, que me fizeram adormecer a dor nas costas e o cansaço por já amanhecer o dia carregando solitariamente minha Blazona com caixas, amplificadores, instrumentos e coisa e tal (vc viu meu muque?!), a caminho de mais uma etapa do nosso circuito. É ganho material da melhor qualidade.
Mas não se engane. Como eu disse lá mesmo no workshop, dinheiro eu gosto e eu gasto, sem abrir mão, é claro, de me sentir realizado com as prosas que rolam nos nossos projetos.
De toda forma, a sua nobre iniciativa de chamar a atenção de todos os presentes, que somos profissionais, que a arte é um trabalho que deve ser remunerado da melhor maneira, foi, por fim, entendida – sou meio lerdinho mesmo.
MaÃra de Deus, deixe eu lhe dizer uma: capturar momentos tão especiais na platéia – retribuo – é coisa de gente romântica também, não é? Tô de olho em você.
O dia foi maravilhoso, apesar do cansaço e da tensão pré show que eu tava, já que iria tocar à noite ainda, abrindo com a Maria o show de Arnaldo Antunes e tal.
Valeu a presença. Tamo na estrada.
Assine o RSS feed destes commentários