25/11/2008 às 11:13
Uma espécie de Pesquisa Musical por Amostra de Entrevistador do IBGE
Adilson Pereira
Manhã de terça-feira. Dia de cumprir a promessa de receber o entrevistador do IBGE para participar da Pesquisa Nacional por Amostra de DomicÃlios. Era uma chance de ver como são estas coisas sobre as quais os humanos comuns geralmente apenas ouvimos falar. Primeira descoberta: formulários em papel são parte do passado. Durante quase uma hora, Eurico Antonio Antunes, 43 anos, manipulou um robusto palmtop recheado com questões sobre renda, fumo, eletrodomésticos, saúde etc. Terminado o trabalho do funcionário do Instituto Brasileiro de Geografia e EstatÃstica, ele se viu confrontado com uma proposta que certamente era incomum: ser ele, a partir dali, o entrevistado. A idéia era fazer uma espécie de Pesquisa Musical por Amostra de Entrevistador do IBGE.
Antunes contou que geralmente ouve música no carro, quando está viajando. Ele faz questão de escolher o que vai ouvir, isto é, deixa de lado o rádio e se concentra nos CDs. “Em casa, não escuto música. Ligo a TV. Acho que seria bom ouvir mais músicas, mas acabo me concentrando nas notÃcias. Música para mim é lazer”, declara Antunes, que se considera um pouco “alienado” no que diz respeito à s escolhas musicais que faz. “Vivi os anos 80. Fiquei acostumado a ouvir música estrangeira.”
O quadro só começou a mudar mais recentemente. Em meados dos anos 90, graças aos amigos com quem trabalhava, numa oficina, Antunes passou a ouvir outros sons: “Eu tinha essa loja de motos. Os amigos levavam sempre alguns CDs e ficávamos bebendo cerveja e ouvindo música. Eu ouvia o que eles levavam. Acho que as pessoas têm a tendência de não buscar coisas novas. Meu inglês é médio. E para muitas músicas estrangeiras você precisa de um inglês bom. Passei a ter mais vontade de entender o que estava sendo cantado.”
Uma banda que ele gosta de entender/ouvir? Legião Urbana. Antunes diz sentir falta da poesia e da crÃtica social outrora cantada por Renato Russo. Não que Antunes considere Renato Russo um Ãdolo. Não é isso. Mas tanto ele quanto Cazuza, na opinião do homem do IBGE, são referências importantes. Não que essa importância toda signifique uma grande coleção de discos. E por falar em discos, está aà uma coisa que este funcionário do IBGE jamais compra só pela capa. Ele também nunca pede, numa loja, para ouvir uma bolacha para, a partir dali, talvez comprar o produto.
O último disco pelo qual nosso entrevistado pagou foi um do grupo americano Lighthouse Family. O último disco que a esposa dele comprou foi um do Capital Inicial.
Shows? Não, eles não costumam ir a shows. Já foram a alguns, claro. Antunes esteve no primeiro Rock In Rio e lembra – com tristeza – de ter ouvido Alceu Valença reclamar da diferença entre o equipamento usado pelos artistas brasileiros e o que foi disponibilizado para os estrangeiros.
Antunes não tem filhos, mas está atento à maneira como as crianças absorvem a música que circula por aÃ. Outro dia, ele ficou surpreso com um sobrinho de 10 anos que cantava algo de Roberto Carlos. O que não o surpreende mais é chegar na casa das pessoas e, em vez de música, dar de cara com uma TV ligada. Acontece muito.
| Comportamento, Crônicas, Sem categoria | 4 Comentários |


4 respostas
4rthur
25/11/2008 às 11:13
eles perguntam sobre fumo, é?
Karla Oldane
25/11/2008 às 11:13
antológico mesmo!
Paulo Rego
25/11/2008 às 11:13
Deliciosa entrevista e idéia genial!!!!
Parabéns!
Pê
25/11/2008 às 11:13
Cada dia que passa, viro mais ainda sua fã. É sério!
Pra mim o bom jornalista é aquele que capta oportunidades de notÃcias ou histórias/assuntos interessantes. Transforma oportunidades, acasos, em bons casos para se contar.
O teu jornalismo me inspira. E encanta.
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